Pelotas é um polo de produção de alimentos

Escritório municipal conta com um médico veterinário, dois técnicos agrícolas, quatro agrônomos e dois profissionais da área de assistência social. (Foto: Divulgação)

Com produção agrícola diversificada, tanto em grãos, como em fruticultura, olericultura e pecuária, Pelotas se destaca como polo produtor de alimentos – condição a qual, adverte o chefe do Escritório Municipal da Emater, engenheiro agrônomo Francisco Arruda, nunca abandonou. “Algumas culturas sofreram assédio de outros mercados, como o chinês e o grego, e por isso diminuíram, mas nunca deixou de produzir alimentos – e não apenas para o mercado interno”, garante ele.

Apesar da diversificação, há culturas que sobressaem. Entre os grãos, a soja. Na última safra a produção foi de 83.448 toneladas, em uma área de 27.816 hectares, seguida pelo milho – estimado em 56.400 toneladas (9.400 mil hectares de área plantada) e só depois o arroz, que já foi o carro-chefe – em Pelotas e Zona Sul. Na safra passada foram 54.855 toneladas produzidas, em uma área plantada de 6.028 hectares.

Apesar de ainda não figurar entre as principais culturas no município, o retorno da produção de trigo é bem-vindo. Além de gerar renda extra, diversifica a produção na propriedade, o que dificulta o desenvolvimento de invasoras e doenças. “A monocultura cria esses problemas”, explica. Já a queda na plantação de arroz não diminui a importância do grão na economia local. Arruda lembra que além de toda história e tradição orizícola, Pelotas concentra um sólido parque industrial do benefício da cultura, com engenhos e arrozeiras.

As hortaliças também são dignas de nota. O agrônomo diz que Pelotas tem vocação para produzi-las, opinião compartilhada pelo também extensionista do Escritório Municipal, Rodrigo Prestes. Tem forte presença no que Arruda chama de “cinturão” da zona urbana, no limite com a área rural, e também nos distritos. “Pelotas produz para o próprio município e também para os adjacentes, com destaque às folhosas – couve, brócolis, couve-flor, pimentão, tomate, repolho, são mais de 30 espécies diferentes”, informa.

Pecuária
Pelotas se faz representar tanto na bovinocultura de corte como na leiteira, com uma bacia significativa, apesar dos problemas provocados com o fechamento da Cosulati. O rebanho leiteiro soma 4,7 mil vacas ordenhadas e 220 criadores, principalmente da raça Holandesa. O total é de 15 milhões de litros de leite por ano, coletados por quatro empresas/cooperativas. Há ainda duas agroindústrias familiares de laticínios – Casa Amarela (Cerrito Alegre) e Crochemore (Vila Nova).

Conforme o médico veterinário Marcelo Souza, também da Emater, a quebra da Cosulati ainda se reflete no setor, embora as famílias não tenham deixado de produzir. “Muitos produtores se endividaram, tivessem recebido este passivo ou não tivessem que se deparar com essa situação teriam condições de investir no negócio ou ampliá-lo, qualificando plantel, instalações e melhorando o rendimento. Alguns só estão se recapitalizando agora”, diz. Ainda segundo Souza, 95% dos produtores é da agricultura familiar.

De um total de 43 mil bovinos no município, estima-se que 37 mil são de gado de corte, distribuídos em 1.850 propriedades registradas com esse tipo de criação. Nesse grupo constam desde os que utilizam os animais para arar a terra, outros para subsistência, até criadores em larga escala, com duas a três mil cabeças.

O veterinário aconselha não subestimar o chamado “gado da colônia”. Segundo Souza, esta realidade mudou graças a programas de melhoramento genético. “Se melhorou muito a qualidade do rebanho de corte na zona rural de Pelotas, entrou muito Angus, Hereford e Braford – raças que dominam a pecuária de corte na região, muito criador recebe assessoria técnica para inseminação e adquire touros com maior qualidade. O gado de corte na colônia hoje não é o mesmo de 30 anos atrás – o melhoramento genético é evidente”, avalia.

De acordo com Arruda, este ponto de inflexão tem viés de mercado. Gado de baixa qualidade é menos valorizado. “Hoje os frigoríficos (os maiores) têm programas de bonificação para animais como Angus, Hereford e suas cruzas. Pagam 5% a mais. Pode parecer pouco, mas tem se revelado vantajoso ao produtor”.

Fruticultura
O pêssego é dominante, apesar do portfólio diverso. São mais de três mil hectares plantados por mais de 650 famílias. Os números da última safra apontam 3.260 hectares de pomares, com uma produtividade média de 15 mil quilos por hectare e um total de 48,9 toneladas. Na sequência aparece o morango: produziu ano passado 1,7 mil toneladas, com 42,5 hectares de área plantada e 40 mil quilos de produtividade por hectare.

Outro fato merece atenção na fruticultura local: a tecnologia empregada. Em maio, um grupo de agricultores, que contou com técnicos da Emater numa parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pelotas (STR), foi a Campinas (SP) participar da Hortitech, uma das mais importantes exposições técnicas do país na área de horticultura, cultivos protegidos e culturas intensivas, com o objetivo de buscar tecnologia para empregá-la nas lavouras e pomares.

A questão climática exige atualização de técnicas de produção para superar as adversidades. “Nosso produtor é o melhor do mundo”, exalta Prestes. Segundo ele, na Argentina o pêssego é produzido no pé da Cordilheira dos Andes, em clima seco; nos Estados Unidos, em clima desértico; na China e na Grécia também. “Sem umidade, com luminosidade e irrigação – o clima é muito mais favorável. Aqui tem seca, chuva, umidade, falta de luminosidade. A adversidade climática aqui é maior e ainda assim se consegue uma produtividade significativa, produzir aqui, principalmente fruta, não é fácil”, reconhece.

Quadro climático
Pelotas, assim como a região e o estado, sofre há três anos com sucessivos quadros de estiagem. Com 33 anos de Emater, Arruda não lembra de

situações como essas. “Os meteorologistas dizem que não mudou”, afirma.
Discussões à parte, em Pelotas, atualmente, as maiores barragens estão abaixo do nível. “Nas pequenas praticamente já normalizou e o solo está com carga de umidade muito boa”, informa ele. Até 27 de junho, o acumulado do ano era de 538 milímetros – acima da média histórica, que indica 475 milímetros de precipitação.

“Problema é que não adianta chover 200 milímetros em dois dias e passar 45 sem cair uma gota. Nosso grande problema é a distribuição”, esclarece Prestes. Problema que na prática leva os produtores a situações inusitadas. Um plantador de soja assistido pela Emater requisitou seguro Proagro por problemas com a seca e, na mesma lavoura, também por excesso de chuva. “Quando precisou de água estava seco e quando precisou que estivesse seco para colher, choveu”, relata Arruda.

A questão é complexa. Diante deste quadro, a Emater oferece assessoria para armazenagem, irrigação, cobertura de solo, medidas para reter mais água e minimizar as perdas. “Isso a Emater faz, mexer no clima a gente não consegue”, avisa.

Alternativas
Ainda assim, Pelotas não fica sem produzir. A equipe técnica da Emater, juntamente com os produtores, tem ampliado a instalação de sistemas de irrigação, mesmo em uma escala menor do que se gostaria. Para fugir da dependência climática, se propõe cavar micros-açudes e inserir poços artesianos. Investimento no pós-colheita, também, com processos de secagem e armazenagem – o que ajuda o produtor a esperar o melhor momento para comercializar os grãos, principalmente o milho. O trabalho também passa pela obtenção de recursos, como o Plano Safra, para investimento e custeio, e perícia na elaboração de laudos de perdas provocadas pela estiagem.

Gargalos
Pelotas conta com uma estrutura que beneficia a produção agrícola como um todo, como entroncamento rodoviário e a proximidade de um terminal marítimo, além de universidades e empresas de pesquisa. O que não isenta o município de gargalos estruturais. Arruda lista problemas como insuficiência energética, que para ele ainda é deficitária.

“Temos rede elétrica em todas propriedades, mas faltam ligações trifásicas para novos empreendimentos – os produtores ainda se deparam com esse tipo de limitação. Muitos equipamentos precisam de carga maior e não tem”, reclama. Internet é outro problema. A qualidade do sinal é precária. “Em alguns lugares não pega nada”, lamenta Arruda.

A mão de obra escassa, problema que atinge a produção rural como um todo, à exceção da cultura de grãos, também se faz presente. O fenômeno de diminuição das famílias também chegou ao campo – diferentemente de décadas atrás. A migração para centros urbanos é outro desafio. O censo 2010, o último a trazer os dados referentes à população rural em Pelotas até o fechamento desta edição, já apontava para a queda demográfica no meio rural.

De acordo com o estudo, a região tinha uma população de 22.082 pessoas, com leve predominância de habitantes do sexo masculino, distribuídas em 6.865 famílias. A Emater tenta propor iniciativas de sucessão rural para enfrentar o problema. Uma das alternativas é o curso de empreendedorismo para jovens no Centro de Treinamento em Canguçu.

Tabaco
Embora produtora de alimentos, Pelotas encontra no tabaco outra pauta importante no ambiente do agronegócio. Na última safra a cultura registrou área plantada superior à do pêssego – com 3.520 hectares e 9.504 toneladas produzidas.

Arruda não demoniza esta produção. Segundo ele, oferece rendimento “muito bom” ao produtor, o que ajuda a financiar outras culturas. Conforme o chefe do Escritório Municipal da Emater, não é difícil encontrar famílias que plantam fumo na mesma propriedade que mantém pomares de pêssego ou lavouras de hortaliças e de grãos, sem que uma afete a outra do ponto de vista sanitário. A assistência técnica é prestada pelas companhias fumageiras. A Emater atende as famílias. “Nossa assistência é voltada à produção de alimentos, pós o fumo a gente entra. Vai plantar milho, hortaliças, outras coisas, a gente entra”, explica.

Equipe
Com um veterinário, dois técnicos agrícolas, quatro agrônomos e dois profissionais da área de assistência social, a Emater em Pelotas é, para Arruda, uma unidade modelar. Ele faz questão de registrar o apoio da prefeitura neste sentido, que disponibiliza espaço físico e contribui financeiramente para pagar parte dos salários, conforme previsto em lei.

A equipe, além de assistir famílias na produção de alimentos e em atividades correlatas, como turismo rural, está presente também na pesca artesanal, presta assistência às comunidades indígenas da aldeia kaingang, na Colônia Santa Eulália, e da etnia Guarany, na colônia Maciel, além de 24 famílias assentadas, dispostas em uma área de 144 hectares na localidade da Barbuda – Monte Bonito.

Apenas no ano passado, foram atendidas 1.266 unidades familiares diferentes, com direito à presença nas propriedades. A equipe contribui também na organização de festas e eventos ligados à agricultura familiar, como a Festa do Tomate, do Pêssego, do Morango e da Uva.

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