Os desafios na produção de leite no interior de Pelotas

Casal de produtores Daniela Acosta Aguero, de 31 anos, e Eduardo Lubke, de 33 anos se dedica à leitaria há três anos. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

O jovem casal Daniela Acosta Aguero, de 31 anos, e Eduardo Lubke, de 33 anos, desde 2020 se dedica à leitaria na propriedade de 15 hectares no Cerrito Alegre, Colônia Ramos, 3º distrito de Pelotas. Chegaram na localidade em novembro de 2019, passaram oito meses trabalhando incansavelmente, com recursos próprios, para dotar o espaço de estrutura necessária para a produção, o que envolveu construção de galpão, fazer pastagem e instalar maquinários. Com tudo o que precisavam para iniciar, incluindo o rebanho, no último dia 15 celebraram três anos de atividade – “só nós dois, tirando leite sozinhos”, completa Daniela.

Não se arrependem. Pagam as contas e ainda “sobra um dinheirinho”. No entanto, podia estar melhor pela trabalheira envolvida, ressalvam. Produção de leite não é para fracos. Daniela diz que chegou a ficar contrariada recentemente ao assistir na TV a repórter se queixando de que “o leite ainda não baixou [de preço]”. “Ela [a repórter] não entende o que é viver na Colônia, o que é produzir leite, será que sabe o trabalho envolvido”, pergunta, levemente indignada. Para começar, conforme a produtora, engana-se quem pensa que vaca dá leite. Esclarece: “Sozinha, não dá”.

Sem produtor para garantir um produto de boa qualidade, dentro de todas as normas sanitárias previstas pelos órgãos de controle, dificilmente o consumidor encontraria com tanta facilidade. Para quem não sabe, a lida é dura. São duas ordenhas diárias, com ciclone, frio, calor, seca ou chuva em excesso. “Às vezes pergunto porque não estudei”, brinca.

Dificuldades à parte, eles sabiam do que teriam pela frente quando se decidiram pela produção leiteira. A atividade não é novidade para o casal, principalmente para Lubke. A mãe, a ex-vereadora Verena Lubke, de Turuçu, passou o legado para o filho.

O trato com a terra, no entanto, é ancestral. Os avós são da zona rural, pai e irmão plantam arroz e soja no antigo distrito de Pelotas, onde os Lubke têm propriedade, na Colônia Azevedo. Já Daniela é mergulhona (gentílico extraoficial para quem nasce em Santa Vitória do Palmar) – típica: comunicativa, “doble chapa” (o sobrenome Aguero não deixa mentir) e extrovertida. Sempre viveu na zona urbana, mas nunca deixou de estar ligada à produção rural – na família ou no CTG. A leitaria remonta aos avós maternos, já falecidos, e sonha ainda trabalhar com gado de corte. A pecuária também os une.

Estrutura e produção
Maquinários, galpão, gerador, sala de ordenha onde diariamente se tira leite de 26 vacas, afora outras três que estão para parir, além de terneiros e novilhas, em um total de 50 cabeças. A produção, além dos 15 hectares, exige outros 25 arrendados.

A média é de 450 litros de leite por dia, o que dá em torno de 13 mil a 15 mil litros por mês, que o casal entrega para a Coopar/Pomerano, cooperativa de laticínios de São Lourenço do Sul.

Produtores destacam o trabalho exercido pela Emater/RS-Ascar, por meio do extensionista Marcelo Souza. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Os números dão a medida da demanda. Por isso Daniela reclama mais valorização pela força de trabalho necessária para que a população tenha acesso ao produto. Valorização de ordem monetária, principalmente. Conforme Lubke, o custo é o que tem mais impactado, embora a queda recente no valor da ração e dos insumos. No entanto, o preço do produto também acompanha a baixa de preços, no caso, em R$ 0,40. Parece pouco. Não, porém, para quem produz uma média de 14 mil litros ao mês, o que afeta a margem de lucro.

O casal questiona também a política do governo federal que permite importar leite de países vizinhos numa forma de pressionar a queda de preço no mercado interno. “Para quem decide isso é muito fácil, não leva coice de vaca, não faz parto, não sabe como é”, diz Daniela, agora sim, indignada.

Também merece de críticas a falta de previsibilidade. “A gente nunca sabe o que vai receber, é muito variável”, queixa-se ela. E o valor é pago somente 15 dias depois da produção relativa aos últimos 30. O leite repassado à indústria ou cooperativa no primeiro dia de produção só é pago, portanto, 45 dias depois.

“Às vezes [o produtor] está programado a cobrir despesas a um determinado valor. Se ele contava em vender [o litro] a R$ 2,50 para a compra de insumos, com a queda no valor do litro em R$ 0,40, o poder de compra é outro, menor”, explica Marcelo Souza, veterinário do Escritório Municipal da Emater, que presta assistência técnica aos produtores.

Lida diária e trabalhosa
Em um dia normal, o casal está no campo por volta das 6h, “365 dias por ano”. Em meia hora reúnem as vacas na sala de ordenha. Posicionam os animais, acoplam as teteiras em cada teto, nunca sem antes limpá-los, cada um, com iodo, e dão início à ordenha. Ainda é preciso tirar leite para os terneiros e, duas vezes ao dia, é feita uma rigorosa limpeza, com água gelada e quente, tanto na estrutura como no maquinário utilizado.

Após a ordenha da manhã as vacas são largadas no campo para pastar. “Sempre tem o que fazer”, conta Lubke. “Nessa profissão nunca se consegue ficar em casa sem fazer nada”, diz ele. À tarde, entre 16h e 16h30, o mesmo processo, para a segunda ordenha.

“Ainda é preciso tirar silagem para as terneiras, tratar as vacas que estão em descanso para parir, é assim diariamente, são como filhos, tem que respeitar os horários delas”, compara ele.

Tudo isso, ele e a esposa. Periodicamente recebem a bem-vinda visita de Gustavo, primo de Daniela, estudante do penúltimo ano de Zootecnia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). É a ajuda que dispõem.

Projetos
Aumentar a produção com mais vacas na ordenha e melhorar instalações, com direito a galpão de alimentação (free stall), são planos que o casal de produtores já pôs no papel. Uma agroindústria, que costuma ser delegada à ala feminina das famílias, está fora dos planos: “Não tenho perfil”, descarta Daniela.

União bem-sucedida em torno da produção leiteira
Para Souza, a união do casal em torno da produção leiteira está bem-sucedida. “Pelo padrão dos animais e das instalações, incluindo análise de solo, seleção dos animais, inseminação e gestão, eles evoluíram muito”, elogia.

Quanto à gestão, ressalta que os produtores têm um caderno onde constam datas de nascimento de cada terneira, de cada cio, parto, quantos partos cada vaca já fez, entre outras informações. “Isso é fundamental e os diferencia”, reconhece.

O casal conta que procurou a Emater logo que chegou a Pelotas. A indicação foi da mãe de Lubke. O endereço foi conseguido com um vizinho, também leiteiro. Ele devolve o reconhecimento: “Muito do que a gente está alcançando vem desta parceria”.

Souza, no entanto, deixa claro que a Emater não faz mágica. Milagre muito menos. Para ele, o resultado só aparece quando os produtores respondem. “Se o produtor não quer, não adianta, cada produtor acha seu ponto de equilíbrio. O Eduardo e a Daniela são jovens, muito dedicados, têm intenção de crescer, tudo o que se fala entre nós eles põem em prática. O resultado de uma propriedade é a dedicação, se o produtor não estiver interessado não adianta a assistência que tiver.”

Dentre os temas que já foram pauta das visitas à propriedade, o extensionista destaca a qualidade da pastagem a partir do manejo com azevém e trigo. Também, na avaliação do técnico, usam adubação recomendada e fazem análise de solo, “o que é fundamental”, emenda. Com isso, estão menos dependentes de proteína na ração, o que baixa significativamente o custo de produção. “A gestão tem que ser feita da cancela para dentro da propriedade”, defende. “Para fora as variáveis são outras, não costumam estar ao alcance do produtor nem da Emater”, recomenda.

No caso específico da produção leiteira, o técnico adverte que não se resume a encaminhar as vacas para a sala de ordenha. Ele fala sobre a necessidade de investimentos como inseminação, nos cuidados com a terneira, na criação da novilha, emprenhá-la com boas seleções de acasalamento e esperar nove meses até ela parir.

Os custos envolvidos até a lactação, colocados no papel, podem chegar a R$ 6 mil. É caro, concorda Souza. Porém, reitera: é um investimento importante. “Muitos produtores pecam e depois reclamam que a vaca não dá tanto leite, mas se não tiver o cuidado do nascer até a ordenha, a vaca pode perder capacidade produtiva. Acaba sendo um custo caro, porque ela só vai se pagar quando estiver produzindo. É caro, mas é investimento”.