
O outono chega ao fim neste sábado (20), para dar lugar ao inverno que começa com baixa expectativa de precipitações durante o mês de junho. Para julho e agosto, a previsão aponta para acumulados de chuva próximos dos valores médios na região. Segundo especialistas da climatologia, o El Niño – fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial – não terá grandes influencias na estação. Produtores rurais e especialistas comentam sobre preocupações e preparações para a época.
Para a professora da Faculdade de Meteorologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e integrante do Laboratório de Climatologia Aplicada, Eliana Klering, a previsão para os próximos meses exige acompanhamento, mas não justifica alarmismo. Segundo ela, os modelos indicam precipitações próximas da média histórica no RS durante o inverno, com um cenário um pouco mais seco apenas em junho na Zona Sul. Em relação às temperaturas, a tendência é de valores próximos do normal na metade sul do Estado.
Apesar da confirmação do El Niño, a climatóloga explica que seus efeitos mais significativos não costumam aparecer durante o inverno. “Os impactos mais expressivos costumam ser observados a partir da primavera. Os setores mais afetados pelo fenômeno são a agricultura e a pecuária, uma vez que alterações nos regimes de temperatura e precipitação influenciam diretamente a produção agrícola e as condições de desenvolvimento das culturas, além de afetarem o conforto térmico e o desempenho produtivo dos animais”, diz.
O campo se antecipa
Embora o inverno de 2026 deva iniciar sem grandes irregularidades climáticas na Zona Sul, quem vive do campo sabe que cada previsão é acompanhada com atenção. Em propriedades rurais, o comportamento das chuvas, do frio e da umidade interfere diretamente em decisões de manejo, planejamento financeiro e expectativa de safra. “Quando a gente fala em estiagens e excesso de chuva, todos esses extremos acabam causando prejuízos para a agricultura e pecuária aqui no nosso município. Temos algumas culturas como pêssego, morango, uva e grãos, que são mais sensíveis ao ambiente úmido”, explica o engenheiro agrônomo e chefe do escritório municipal da Emater Pelotas, Rodrigo Prestes.
Se para quem está na cidade o inverno significa roupas mais pesadas e dias mais curtos, para o produtor rural a estação representa planejamento. Prestes afirma que previsões climáticas estão cada vez mais presentes nas decisões dentro das propriedades. Quando as condições climáticas favorecem doenças, aumenta a necessidade de intervenções e manejo fitossanitário – estratégias integradas para proteger as plantas e lavouras contra pragas, doenças e plantas daninhas -, elevando custos de produção. Entre as estratégias utilizadas estão escolha de cultivares mais adaptadas, cobertura do solo e medidas de conservação para reduzir erosão e perdas.
Produzir também é aprender a conviver com o clima
Na Colônia São Manoel, 8º Distrito de Pelotas, o produtor rural Marcos Schlee acompanha diariamente as previsões para definir o ritmo do trabalho com pêssego e tomate. Para ele, o inverno ideal ainda é o de frio constante e pouca umidade. “A maior preocupação que a gente tem é a variação de temperatura e temporais de ventos. Quanto mais frio fizer, mais parelho for o inverno, mais seca for essa estação, a produção é maior”, relata.

ao ambiente úmido. (Foto: Paulo Lanzetta/Embrapa)
Schlee explica que o período atual coincide com uma fase delicada para o pessegueiro. Excesso de umidade e temperaturas acima do esperado aumentam o risco de doenças e prejudicam o desenvolvimento da planta. Na rotina da propriedade, o inverno é período de preparação. Enquanto o tomate encerra o ciclo produtivo, o foco passa para limpeza do pomar, podas e tratamentos de inverno. “O inverno é fundamental para a cultura do pêssego”, afirma.
O produtor busca reduzir impactos com planejamento e adaptação do terreno. Hoje, os pomares contam com sistemas de drenagem e organização dos carreiros para facilitar o escoamento da água em períodos chuvosos. Segundo o produtor, acompanhar a previsão ajuda a evitar perdas em momentos decisivos, como adubação e floração. “Por mais conhecimento que a gente tem dos sinais da natureza, tu não consegues controlar tudo. A gente tá ali só para meio auxiliar dentro do palmar e é a natureza que faz. A gente consegue melhorar nos manejos, tamanho da fruta, produção, mas não existe tratamento que vai ligar um pêssego se o clima não ajudar”, comenta.
Para Adriano Bosenbecker, produtor de pêssego da Colônia Santa Helena, no 8º distrito de Pelotas, o excesso de chuva costuma representar mais risco do que o frio intenso, especialmente porque dificulta os manejos necessários para manter a sanidade da fruta. Experiências recentes também reforçaram a necessidade de adaptação dentro da propriedade. Bosenbecker relembra que, após os episódios de excesso de umidade registrados em safras anteriores, parte das plantas perdeu frutos ainda na fase de desenvolvimento.
Como resposta, a família intensificou práticas de conservação do solo, como a aplicação de matéria orgânica em todos os pomares para reduzir erosão e preservar a qualidade da área produtiva. Ainda assim, ele reconhece que nem tudo está sob controle do produtor. “A gente já faz isso pensando em reduzir possíveis perdas, mas quando o clima foge do esperado, o que a gente pode fazer? Produtor trabalha com a produção e com esperança”, resume.
Grãos também entram no radar
Quem produz arroz e soja já começa a olhar para além do inverno. Para Fernando Rechsteiner, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) e produtor rural, os sinais do El Niño influenciam decisões que começam meses antes do plantio. Segundo ele, áreas de várzea e próximas de rios exigem atenção especial para drenagem e posicionamento das lavouras. No caso do arroz, o excesso de chuva pode atrasar o plantio e reduzir o potencial produtivo. Já a soja exige ainda mais cautela. Por isso, produtores buscam áreas com melhor drenagem natural e investem em manejo para reduzir riscos.

Além do impacto na agronomia, o clima também interfere na economia rural. Em anos mais úmidos, cresce o custo com fungicidas, aplicações e operações em campo. Em alguns casos, o uso de aviação agrícola substitui equipamentos terrestres devido ao solo encharcado. “O preço é o resultado de uma grande equação, quando há um desequilíbrio entre oferta e demanda, temos a suba ou queda dos preços. O que nós estamos enxergando para a próxima safra de arroz, se houver uma confirmação de produtividades menores em função de todas as dificuldades que o produtor está passando, nós vamos precisar de uma recuperação de preços”, expõe. Para o produtor, hoje, as margens da soja estão bastante apertadas, com o custo de produção elevado em ambas as culturas.
Preparação antes da preocupação
Embora o inverno não apresente, neste momento, indicativos de extremos associados diretamente ao El Niño, especialistas defendem atenção contínua. A orientação é acompanhar previsões meteorológicas, observar condições de umidade do solo e manter sistemas de drenagem preparados para mudanças ao longo da estação.
Para o coordenador regional de Proteção e Defesa Civil, coronel Márcio Facin, o trabalho neste período é justamente antecipar cenários. Segundo ele, seguem em monitoramento eventos como chuvas intensas, alagamentos, vendavais, granizo e episódios de frio extremo, com atenção especial às áreas próximas a rios, arroios e regiões de baixa altitude. “A principal recomendação é que as famílias adotem uma postura preventiva”, comunica.
Facin explica que cada município possui particularidades e vulnerabilidades próprias. “Historicamente, as áreas ribeirinhas, regiões com drenagem urbana insuficiente e comunidades localizadas em pontos de risco exigem maior atenção durante o inverno. Por isso, a Defesa Civil trabalha de forma integrada com as administrações municipais para identificar áreas mais vulneráveis, aperfeiçoar os planos de contingência e promover ações preventivas voltadas à proteção da população”, aponta.



