De geração em geração, Doçaria Anette Ruas mantém viva a tradição dos doces de Pelotas

Anette Ruas conta como receitas familiares se transformaram em negócio e em símbolo da identidade cultural pelotense. (Foto: Divulgação)

O que começou como uma alternati­va diante de um período de instabilida­de econômica se transformou em uma trajetória de décadas ligada à preserva­ção de um dos maiores símbolos de Pe­lotas: os doces tradicionais. À frente da gestão administrativa da Doçaria Anette Ruas, Cristiane Ruas acompanha a con­tinuidade de um legado familiar mantido pela mãe, Anette, e construído a partir de receitas transmitidas entre gerações.

A história da empresa começou quan­do Anette decidiu transformar um co­nhecimento que já fazia parte da famí­lia em fonte de renda. Para isso, contou com o apoio da tia e madrinha Nilza Ruas, uma das tradicionais doceiras de Pelo­tas, que compartilhou receitas e técni­cas. “Foi em um momento de instabili­dade econômica, quando teríamos que mudar de rumo. A partir daí resolvi fazer o que já tinha habilidade e contei com todo apoio e suporte da minha tia e ma­drinha Nilza Ruas, que já era uma das mais conceituadas doceiras de Pelotas, me passando suas receitas e seus segre­dos”, conta.

A proposta era transformar os doces em uma nova oportunidade para a famí­lia, mantendo a essência artesanal que marcava a produção.

Das encomendas de porta em porta à expansão

No início, o trabalho era feito em pe­quena escala. Anette saía para vender os doces e precisava equilibrar as enco­mendas com a compra dos ingredientes necessários para continuar produzindo. “O desafio era sair com uma quantidade de doces e conseguir vender o suficiente para comprar os insumos e assim conse­guir cada vez mais encomendas”, lembra.

Segundo ela, o crescimento aconteceu de forma gradual, a partir da confiança conquistada junto aos clientes. “A cada elogio, cada nova encomenda fui conquis­tando a confiança dos estabelecimentos e dos clientes que iam conhecendo minhas receitas”, relata.

Um dos momentos decisivos ocor­reu durante a participação na Fenadoce. Com o aumento da procura, a estrutura da produção precisou ser ampliada. “Na primeira Fenadoce que fizemos houve um momento em que o telefone começou a tocar cada vez mais, o espaço da cozinha foi ficando pequeno e foi preciso contar com os primeiros funcionários para aten­der a demanda de novos clientes”, recorda.

A expansão ocorreu justamente no es­paço que pertenceu aos avós de Anette, onde ela cresceu ao lado das tias que também produziam doces, bolos e com­potas. “O lugar onde temos nossa fábrica tem toda essa identidade cultural e fami­liar”, destaca.

A produção de doces é ainda mais intensa em época de Feira. (Foto: Divulgação)

Preservar o passado e olhar para o futuro

Para Anette, manter as caracterís­ticas das receitas tradicionais é uma das principais responsabilidades da empresa. Ao mesmo tempo, ela afirma que foi ne­cessário adaptar a produção para atender uma demanda maior sem perder a quali­dade. “Tenho orgulho de transmitir e per­petuar tudo que aprendi e faço questão que a essência da produção seja ainda artesanal e feita como se ainda aqui es­tivessem meus antepassados”, afirma.

A empresária explica que a produção atual combina tradição e boas práticas de fabricação para garantir padronização e segurança aos consumidores. “Adapta­mos nossa produção para uma demanda em maior escala, com carinho e capricho, para que os clientes recebam um produto com procedência e qualidade”, completa.

Um patrimônio feito pelas mãos

Os Doces de Pelotas são reconhe­cidos como parte da identidade cultu­ral da cidade, e Anette acredita que o diferencial está justamente no traba­lho artesanal. “O mais lindo desse lega­do histórico e cultural da nossa cidade é o saber-fazer artesanal, com o uso das mãos, o detalhe do confeito, a combi­nação dos ingredientes tradicionais e a mistura certa para dar o ponto das mas­sas”, explica.

Segundo ela, a tradição reúne não apenas receitas, mas conhecimentos transmitidos ao longo do tempo. “É um conhecimento que passou literalmente de mão em mão”, ressalta.

Entre os elementos que diferenciam os doces pelotenses, ela cita a delicadeza dos acabamentos e a combinação de co­res e texturas. “Os fios de ovos, o brilho do quindim, o requinte do camafeu e a classe dos bem-casados mostram essa característica única”, afirma.

Pelotas para além das fronteiras

A participação em eventos como a Expointer, a Festa da Uva e a Fenavinho também ajudou a ampliar o reconheci­mento dos doces produzidos na cidade.

Segundo Anette, as feiras funcionam como vitrines para novos negócios e para a divulgação da tradição pelotense. “Os Do­ces de Pelotas são uma marca importante que faz nossa região ser reconhecida como sinônimo de qualidade nos doces, dando credibilidade e confiança”, avalia.

Ela destaca que muitos contatos com redes de supermercados, cafés e pada­rias surgiram a partir dessas oportunida­des. “Principalmente a nossa Fenadoce proporciona essa visibilidade”, acrescenta.

Sucessão familiar

A continuidade da empresa também está ligada à participação da família. Anette afirma que o marido e os filhos es­tiveram presentes desde o início da tra­jetória. “Abraçamos juntos essa ideia e fizemos acontecer. Hoje eu comando a produção e meus filhos administram a empresa”, conta.

Para ela, ver a próxima geração as­sumindo responsabilidades representa a continuidade de um patrimônio constru­ído ao longo dos anos. “Me deixa muito feliz saber que esse legado familiar vai continuar com eles e espero que ainda por muitas gerações”, espera.

Atualmente, a equipe Anette Ruas conta com mais de 30 colaboradores. (Foto: Divulgação)

Uma cadeia que envolve a região

A produção dos doces também de­pende de uma rede de fornecedores lo­cais. Anette destaca a importância dos produtores rurais e empresas da região que fornecem ingredientes utilizados na fabricação. “Quando a gente produz nun­ca faz nada sozinho. Existe toda uma ca­deia de confiança e serviços que nos dão suporte”, explica.

Entre os parceiros estão produtores de frutas, fornecedores de ovos e outros insumos utilizados nas receitas.

O valor da tradição

Ao longo dos anos, Anette perce­beu uma mudança na relação dos con­sumidores com os doces tradicionais. “A marca dos Doces de Pelotas é um orgu­lho para todos e por onde anda um pelo­tense sempre vão perguntar pelos nossos doces”, celebra.

Na avaliação dela, esse sentimento foi fortalecido pela Fenadoce, pelo selo de identificação geográfica e pelo reco­nhecimento dos doces como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Para quem deseja empreender, Anette destaca que a dedicação é um dos principais fatores para superar desafios. “Muito além da coragem de empreender e ir atrás de oportunidades, acredito que fazer o que se gosta com dedicação e principalmente amor fez e ainda faz toda a diferença”, reflete.

Segundo ela, as dificuldades fazem parte do caminho, mas a qualidade do produto e o cuidado na produção são fundamentais. “A essência é continuar fazendo o melhor a cada dia”, assegura.

Depois de anos dedicados à produção doceira, Anette diz sentir orgulho ao ver os produtos representando a cida­de em diferentes regiões do país. “É um orgulho muito grande. Me sinto muito agradecida e honrada de levar o nome da minha cidade por todos os lugares onde vamos”, declara.

Para o futuro, ela acredita que a tradi­ção tem potencial para continuar crescen­do, desde que mantenha sua característica principal: o sabor artesanal. “As novas gera­ções vão conseguir levar essa cultura ain­da mais adiante tendo toda essa tecnolo­gia disponível, mas o fundamental é manter em cada receita a sensibilidade de produzir com sabor artesanal”, conclui.

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