Poemas sonoros criados por docente da UFPel são publicados na Suécia

Raul Costa d’Avila, teve poemas sonoros de sua criação publicados em dois livros lançados pela Faculdade de Belas Artes e Artes Cênicas (Faculty of Fine and Performing Arts) da Universidade de Lund, na Suécia. (Foto: Divulgação)

O professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Raul Costa d’Avila, teve poemas sonoros de sua criação publicados em dois livros lançados pela Faculdade de Belas Artes e Artes Cênicas (Faculty of Fine and Performing Arts) da Universidade de Lund, na Suécia.

O material foi editado pelo professor Anders Ljungar-Chapelon em sua coleção “O Vademecum dos Flautistas” (The Flautists Vademecum), uma coletânea de músicas para flauta, textos sobre como tocar flauta e exercícios técnicos do século 18 até os dias de hoje, relacionados à pesquisa artística e à educação musical, considerada uma publicação de muita relevância no cenário das publicações para flauta. “Fiquei muito honrado”, conta d’Avila.

De acordo com o professor da UFPel, a terminologia “poemas sonoros” foi adotada por ter mais afinidade com seus sentimentos, nos quais, explica, a inspiração quase sempre é provocada por algo de natureza poética nas suas mais diversas circunstâncias. “Assim, dou vazão aos meus sentimentos, inspirações que, moldadas pelos possíveis sopros podem receber contornos gerando articulações, não apenas musicais, mas também articulações psíquicas e humanas”, relata.

Na primeira das publicações, “Poemas Sonoros para Flauta Solo (…2020, 2021 e 2022) – Narrativa por um flautista-compositor (2022)” (Sound Poems for Solo Flute (…2020, 2021 and 2022) – Narration by a flautist-composer (2022)), foram publicados nove “Poemas Sonoros” para flauta sem acompanhamento, antecedidos pelo prefácio de Chapelon e um ensaio de d’Avila abordando o processo de criação dos poemas. Esse desenvolvimento começou no início da pandemia – até antes dela a produção musical do professor da UFPel centrava-se em ensino, performance e pesquisa.

Os “Poemas Sonoros” editados são: “Adúpé” (Fantasia Seresteira), “Afetos” (Dois mov(e)mentos), “Improviso em forma de Valsa”, “Jardim de Nuvens”, “Mani – a lenda”, “Omolu” (Prelúdio), “Singelezas”, “Três Meninas” e “Vozes de um Rio”.

O material foi editado pelo professor Anders Ljungar-Chapelon em sua coleção “O Vademecum dos Flautistas”. (Foto: Divulgação)

Como editado originalmente em suas partituras, cada “Poema Sonoro” é acompanhado de um breve texto – em português, espanhol e inglês – onde são apresentadas algumas ideias, curiosidades e elementos quem possam deixar o intérprete mais ciente sobre o que o autor imaginou, não havendo qualquer intenção de interferir ou sugerir uma interpretação. “Como, de modo geral, esses textos não são uma prática comum nas partituras editadas e comercializadas, considero também como uma forma de aproximação entre compositor e o possível intérprete”, observou. Assim, a ideia foi mantida, nas versões português e inglês.

Além dos textos, o livro contém imagens de flautistas de Candido Portinari (1903-1962), cujo uso foi autorizado pela Fundação Portinari. Cada poema é acompanhado de uma imagem. “As imagens, além de promover um encantamento especial à publicação, integram cultura e afinidades”, ressalta d’Avila.

No prefácio da obra, Chapelon destaca que a produção do professor da UFPel é uma contribuição muito bem-vinda ao repertório para flauta e flautim. “O que torna os Poemas Sonoros atuais tão importantes para o flautista europeu é – além de serem poemas poéticos maravilhosamente atraentes para flauta solo – sua conexão com a cultura musical brasileira, nem sempre tão conhecida na Europa e tão bem descrita por Costa d’Avila”, diz. Segundo ele, a interação entre os Poemas Sonoros, sua conexão com a cultura brasileira e a obra de Portinari dá uma abertura muito inspiradora para um mundo maravilhoso da poesia brasileira em sons, obras de arte, explicações do patrimônio brasileiro e, finalmente, um texto científico explicando o processo de trabalho do professor da UFPel.

Seresta Barroca

A segunda publicação é “Seresta Barroca”, para Traverso e Flauta Boehm, fruto da publicação anterior, já que, a partir daquela, Chapelon convidou d’Avila para escrever um Prelúdio a ele. Além de integrar o repertório, o prelúdio também seria registrado em uma gravação prevista dos 58 Prelúdios para Traverso solo, de Jacques-Martin Hotteterre (1674-1763), prelúdios estes que se encontram em uma publicação de Hotteterre chamada “A Arte de Preludiar”, publicada em 1719. Hotteterre foi um compositor e flautista francês, sendo o mais célebre de uma família de fabricantes de instrumentos de sopro e intérpretes.

O traverso ou flauta transversal barroca é um instrumento desenvolvido no final do século 17, de madeira e com apenas uma chave.

Dentro de seu processo criativo, o docente da UFPel diz ter refletido sobre elementos que pudessem causar interesse e motivação, tanto para quem toca quanto para quem escuta. Após experimentar, escutar, dar uma pausa e retomar a criação, d’Avila teve um lampejo: “há tantos temas barrocos que evocam a seresta, não seria interessante criar algo que contemplasse a seresta e o barroco?”, conta.

Tendo a ternura como caráter e sem rigor métrico, nasceu um prelúdio estruturado em duas pequenas seções – uma com ares seresteiros e outra com perfume barroco – que são reapresentadas devendo ser tocadas com ornamentações e tudo mais que couber ao estilo. “Fruto das minhas experiências musicais, esse prelúdio representa uma comunhão de gêneros”, conta, lembrando que a criação também foi um gesto de consideração para celebrar amizade com Chapelon, que já dura 21 anos.

De acordo com o editor, os poemas sonoros de d’Avila para flauta solo apontam para a importância da flexibilidade em um sentido mais amplo e para a relevância do momento imprevisível da interpretação, incluindo elementos de improvisação.

Amizade e amor à música

Chapelon e d’Avila se conheceram em 2002, no 5º Festival Internacional de Flautistas realizado pela Associação Brasileira de Flautistas (ABRAF) em Fortaleza (Ceará). Ficaram amigos e ao longo destes 21 anos mantiveram contato.

Em 2022, os docentes se reencontraram no 18º Festival Internacional de Flautistas, realizado também pela ABRAF, desta vez em Diamantina (Minas Gerais). Ao se apresentar no concerto de abertura do Festival, o professor da UFPel tocou “Mani – a lenda”, um poema sonoro inspirado na vida de Mani, uma pequena e linda índia de uma tribo Tupi que integra a comovente lenda pertencente ao folclore brasileiro, que compôs para flautim solo.

Ao final do concerto, Chapelon manifestou sua vontade de publicá-lo em sua coleção The Flautists Vademecum. Como em momentos antes do concerto d’Avila o havia presenteado com as partituras dos seus poemas, no dia seguinte, após a apreciação das composições e leitura dos textos que acompanham cada poema, a dupla conversou novamente e veio o convite para que todos os poemas fossem publicados na coleção.

As obras estão disponíveis apenas em edição física. A Universidade de Lund deverá enviar em breve exemplares que serão distribuídos gratuitamente às bibliotecas de universidades que têm curso de flauta transversal.

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