Ativistas culturais de Canguçu demonstram descontentamento com a demora no lançamento do edital da PNAB

Prazo ultrapassa três semanas desde o primeiro anúncio. (Foto: Roger Zaballa)

Até o fechamento desta edição, o novo edital da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) ainda não havia sido lançado em Canguçu, o que tem gerado preocupação entre artistas e agentes culturais que aguardam a publicação há pelo menos três semanas. O cronograma informado pela Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Indústria e Comércio previa, inicialmente, o lançamento durante a semana do aniversário do município, entre os dias 21 e 27 de junho. Depois, uma nova previsão foi repassada pelo secretário da pasta, Ubiratan Rodrigues, para a semana seguinte. Posteriormente, um representante da secretaria informou que o edital seria publicado na última terça-feira (7), o que novamente não ocorreu.

Segundo Rodrigues, a publicação foi adiada porque a equipe ainda realiza ajustes técnicos no edital. “Pessoal, aqui está trabalhando em cima do edital, só que aí surgiu uma dúvida em relação às contas bancárias dos agentes da cultura e se poderia ser ou não banco digital”, explica o secretário.

Em maio, antes da elaboração do edital, a Secretaria promoveu, na Câmara de Vereadores, uma oitiva da Lei Aldir Blanc, com a participação de fazedores de cultura, produtores, técnicos e empreendedores culturais do município. O encontro fez parte do processo de implementação da política em Canguçu e teve como objetivo apresentar informações sobre a aplicação dos recursos federais e ouvir as demandas da comunidade cultural.

Impacto nas atividades culturais

A demora na publicação do edital também preocupa produtores culturais do município. Em contato com o Jornal Tradição, eles relataram a expectativa pelo lançamento e os impactos da indefinição no planejamento das atividades.

O músico e produtor cultural canguçuense Charles Busker voltou a morar em Canguçu durante a pandemia, em 2020. Desde então, passou a atuar de forma mais ativa junto à cena cultural do município e acompanha de perto a implementação da PNAB.

“Projetos que poderiam ser executados já em 2026, com certeza serão adiados para o ano que vem pela incerteza do cumprimento dos prazos. Quem perde com isso é a população, pois os eventos financiados por essa Lei de Incentivo à Cultura levam arte, entretenimento e lazer para locais onde produtoras e artistas de fora nem sabem que existem. É a nossa cultura, feita pelos nossos artistas, para o nosso povo. E tudo isso fica parado, esperando a boa vontade de alguém determinar que precisa ser levado a sério”, lamenta o artista.

O músico contextualiza que, em 2023, durante a elaboração do Plano Municipal de Cultura e das tratativas para a implementação da Lei Paulo Gustavo, começaram a surgir resultados mais concretos na área cultural de Canguçu. “Foi quando realmente enxergamos o poder transformador que a Cultura pode ter em um território. E de como a união dos fazedores de cultura pode fazer a diferença no processo. De lá para cá, também atuamos fortemente para a correta execução da Política Nacional Aldir Blanc, a PNAB, que proporcionou excelentes projetos em várias localidades de Canguçu”, conta.

Ele comenta que, diante da estruturação desses processos, imaginou-se que o Poder Executivo tivesse mais experiência para conduzi-los. “A expectativa era de que os aprendizados do ano anterior (2025) ajudassem a Secretaria de Cultura nesse processo, mas nos deparamos, mais uma vez, com a falta de comprometimento do Poder Executivo em cumprir prazos ou simplesmente comunicar corretamente suas ações”, afirma.

Cultura e economia

Outro segmento cultural afetado é o das artes cênicas, conforme relata a atriz, professora e diretora teatral Dhiule Völz, que também atua na companhia Voejo. “Acompanho de perto (e também sinto) a ansiedade de artistas, produtores e grupos culturais que ficam impedidos de planejar o próprio trabalho. Não se trata de privilégio. Trata-se de transparência. Trata-se de respeito por quem dedica tempo, estudo e esforço para construir projetos que beneficiam toda a comunidade”, pontua.

A diretora ressalta que gestores e servidores públicos desempenham um papel voltado ao atendimento da população e defende a importância do diálogo e da comunicação com a comunidade cultural. “Enquanto isso, vemos cidades de todos os tamanhos (inclusive municípios menores que Canguçu) fortalecendo sua identidade justamente porque tratam a cultura como uma das prioridades para o desenvolvimento humano. Não é apenas uma questão de recursos financeiros, mas de ética, organização, planejamento, diálogo e valorização de quem produz arte. Quando os fazedores de cultura são respeitados, toda a cidade cresce junto”, complementa.

Ela observa que os recursos federais destinados à cultura, como os da PNAB, contribuem para a economia local ao criar oportunidades para diferentes profissionais e estimular pequenos negócios. “Geram trabalho para técnicos de luz e som, fotógrafos, designers, costureiras, cenógrafos, maquiadores, produtores, motoristas, gráficas, hotéis, restaurantes e tantos outros profissionais e pequenos negócios. Cada projeto realizado faz o recurso circular dentro do município, cria oportunidades, fortalece empreendedores e amplia o acesso da população à cultura”, frisa.

A atriz afirma que, por meio dos recursos da lei de incentivo à cultura, será possível viabilizar a segunda edição do Festival de Teatro de Canguçu. A primeira ocorreu em agosto de 2025, com a participação de grupos de cidades como Pelotas, Rio Grande e São Lourenço do Sul. “Não será possível realizá-la em 2026, e 2027 já está logo ali. Cada semana de indefinição dificulta a captação de parceiros, a organização da programação, o convite aos artistas e todo o planejamento necessário para um evento desse porte. Quem trabalha com produção cultural sabe que um festival não nasce em poucos dias; ele exige meses de preparação. E é justamente esse tempo que está sendo perdido”, reforça.

Potencial artístico do município

A diretora de teatro afirma que escolheu construir sua trajetória artística em Canguçu por acreditar no potencial do município e na possibilidade de torná-lo uma referência cultural na região. Ela defende que investir em cultura é investir nas pessoas, na educação, na identidade, no desenvolvimento econômico e na qualidade de vida, além de cobrar mais diálogo, transparência e respeito nas políticas voltadas ao setor.

“Espero que o edital seja lançado em breve e que a comunicação com a classe cultural aconteça de forma mais aberta. Os artistas não estão pedindo privilégios. Estão pedindo condições para trabalhar, gerar oportunidades e continuar fazendo da arte um patrimônio vivo da nossa cidade”, enfatiza Dhiule.

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