Após 16 anos de silêncio, Theatro Sete de Abril reabre as portas e devolve palco histórico à arte e cultura de Pelotas

Local passou uma década e meia fechado por conta de problemas estruturais e obras não terminadas (Foto: Volmes Perez/Secom)

Mais de uma década separou os pelotenses de experimentar arte, manifesta nas mais diversas expressões, no teatro mais antigo do Rio Grande do Sul. O Theatro Sete de Abril, fundado em 1834, tornou-se símbolo da cidade e centro cultural da “terra do doce”. As paredes cor-de-rosa localizadas no centro histórico abrigaram não só o talento de artistas clássicos, como Lobo da Costa e João Simões Lopes Neto, mas também de atrações nacionais e internacionais contemporâneas. Na noite de terça-feira (7) – aniversário do município, o espaço, que nunca perdeu sua importância para a população, voltou a respirar cultura.

Descerramento da placa de reinauguração do Theatro Sete de Abril. (Foto: Tobias Bernardo)

O Theatro foi fechado em janeiro de 2010 após ser interditado pelo Ministério Público. A medida ocorreu emergencialmente após uma vistoria técnica, que atestou o comprometimento severo da estrutura de sustentação do telhado e risco de desabamento. O que aparentava ser temporário se tornou permanente na história de Pelotas por 16 anos. Ele é o quarto teatro mais antigo do país em funcionamento, tombado em 1972 pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Após perspectivas frustradas de reabertura e R$ 11 milhões em investimentos, o bem cultural do município retoma sua missão de atuar como aparelho cultural.

O músico pelotense Vitor Ramil foi o responsável pelo primeiro show na reabertura (Foto: Volmer Perez/Secom)

A festa da reabertura

A noite de terça foi composta por um público emocionado e com grandes expectativas para as novas vivências no local. A cerimônia contou com o descerramento de placa alusiva, homenagens aos trabalhadores que participaram da reta final das obras, show do artista pelotense Vitor Ramil, juntamente com seu filho, o também músico e compositor Ian Ramil, e, na esplanada Berê Fuhro Souto, em frente ao Theatro, discotecagem com a DJ Helô.

A DJ conta que ter sido convidada para participar do momento foi motivo de grande alegria. Helô relata ser frequentadora do Theatro e possuir mais de 40 anos de trajetória. “Eu fiquei muito contente de estar presente na reabertura de um teatro tão antigo que faz parte da nossa cidade. Daqui pra frente eu espero que ele continue aberto e demandando muita cultura como fazia durante o tempo em que ficou aberto – isso é muito necessário”, afirma.

A reativação deixou Maureen Nogueira, coordenadora artística-pedagógica do espaço “sem palavras para exprimir a emoção”, nas palavras dela. Ela afirma que tentou conter as lágrimas durante o evento. “Como atriz, como coordenadora do teatro, percorrer esse patrimônio cultural, essa cidade teatral, é uma missão muito irresistível. E o teatro agora abre, eu espero que nunca mais feche. Vocês podem esperar muito de nós, diversas atividades”, enfatiza.

Para o diretor do Sete, Alexandre Mattos, a reabertura não representa apenas a entrega de um prédio restaurado. “É o encontro de Pelotas com uma parte fundamental de sua história. Ele atravessou quase dois séculos acompanhando a vida dessa cidade. Viu gerações de artistas subirem esse palco, acolheu diferentes linguagens artísticas e resistiu ao tempo, permanecendo como um patrimônio”, destaca.

Noite de encontros e reencontros

Mattos afirma que o compromisso da gestão se sustenta na formação de plateias que considerem o espaço como parte de suas vidas. “Ele precisa ser um teatro vivo, pulsante e permanentemente ocupado. Um palco aberto para a música, para o teatro, para a dança, para o circo, para o audiovisual e todas as expressões artísticas que fazem da cultura um território de diversidade, liberdade e diálogo”, pontua.

Casal pôde reviver momentos de emoção na terça-feira (7). (Foto: Clarissa Ribeiro/JTR)

A visita do casal pelotense Maria Helena Rodrigues e Dilmar Cunha, de 74 e 78 anos, respectivamente, dialoga com a importância dessa participação. De apresentações artísticas a formaturas de familiares, eles relembram que iam no Theatro frequentemente enquanto esteve aberto. “Para mim, o que é mais marcante foi a formatura do meu irmão em Direito, que ocorreu aqui”, recorda Cunha.

Lembrando e revivendo essas experiências, o casal relata que a reativação do local foi motivo de grande expectativa. “Estávamos ansiosos para ver como ficou o teatro pelo show do Vitor Ramil. Parabenizamos a prefeitura por concluir a reforma do lugar, ele é muito significativo”, dizem.

Se para as antigas gerações o Sete é sinônimo de nostalgia, para os jovens ele pode simbolizar um novo espaço especial, antes não adentrado. A adolescente Julia Yussef, de 16 anos, acompanhada de sua avó Maria Helena Andrade, de 74 anos, relata que participou da reabertura após sua avó recomendar o lugar. “Quando eu nasci, ele fechou. Eu estava bem ansiosa porque a vó fez uma grande propaganda do teatro”, diz. Para elas, a apresentação mais marcante da semana é a do Grupo Tholl. “Eu enfrentei um frio intenso para pegar o ingresso, mas valeu a pena. A expectativa era enorme”, complementa Maria Helena.

O diretor garante que o espaço vai funcionar em quatro eixos: formação de plateias, ocupação artística, geração de trabalho e renda e preservação do patrimônio. “O Theatro Sete de Abril é um dos mais importantes equipamentos culturais do Brasil, cuidar desse espaço é garantir que futuras gerações também possam viver as emoções que tantas gerações viveram aqui”.

O prefeito de Pelotas, Fernando Marroni (PT), reforça essa perspectiva. Para ele, a principal forma de manter o teatro vivo é trazendo apresentações e projetos para os palcos. “Quando me perguntam sobre como vamos manter esse teatro eu respondo que é ocupado, vivo, se ele estiver assim tenho certeza que vamos mantê-lo como o que ele de fato é, um grande patrimônio da cultura de Pelotas”, diz. Ele conta que viveu momentos significativos no local. “Minha primeira experiência com teatro foi aqui, ainda criança, trazido pelas mãos da minha mãe. Mais tarde vinha ao cinema, e foi aqui também que fui empossado prefeito”, relembra.

Avó e neta representam o encontro de gerações na reabertura do Theatro. (Foto: Clarissa Ribeiro/JTR)

Um novo capítulo

A secretária de Cultura, Carmen Vera Roig, definiu o momento como “um dos dias em que a história deixa de ser apenas memória para voltar a ser experiência”. Segundo ela, o Sete não é apenas um edifício histórico, mas onde Pelotas aprendeu, ao longo de gerações, a olhar para si mesma. “Esse não é apenas o dia da reabertura de um prédio, é o reencontro da cidade com uma parte essencial da sua identidade”, completa.

Carmen lembrou, na ocasião, da formação da Secretaria de Cultura, em 2001, substituindo a então Integrasul, na primeira gestão de Marroni. Rememorou que participou da conversa para criação da sigla da pasta, Secult, com a então secretária, Renata Requião, também presente na cerimônia. De acordo com ela, nenhuma realização acontece sozinha. “Se hoje esse lugar volta a abrir suas portas é porque muitas pessoas acreditaram que ele precisava voltar a ocupar o lugar que foi seu”, ressalta.

Ela reconhece que a reabertura carrega um importante compromisso. “Essa reativação não encerra uma obra. Ela inaugura uma nova responsabilidade. Manter este palco vivo, plural, democrático e acessível. João Simões Lopes Neto acreditava na força das histórias para revelar quem somos. Hoje, devolvemos a cidade aos lugares onde essas histórias continuarão sendo contadas”, detalha.

Para a estudante do 3º semestre de Teatro na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Ândria Morocini, de 27 anos, o lugar deve ter essa democracia como base e ser palco de artistas locais, dando visibilidade ao seu trabalho. “Entrei aqui anos atrás quando estava em uma situação muito burocrática de não reabrir, e hoje está aberto, parece um sonho. Eu venho conversando com colegas de companhias de teatro, estamos felizes de hoje finalmente estarmos vivendo isso. Eu espero que valorizem os artistas locais e que tenha sempre muita arte aqui”, pontua.

Estudante vê o espaço como oportunidade de visibilidade artística (Foto: Gustavo Vara)

Mattos reforça que o teatro será construído diariamente pelos trabalhadores da cultura, pelos servidores públicos, as escolas, os produtores e, principalmente, o público. “As portas que não se abrem apenas para espetáculos, elas se abrem para sonhos, para encontros, para oportunidades e para o fortalecimento da cultura como instrumento de desenvolvimento humano, econômico e social. Que este teatro continue sendo um espaço onde a cidade se reconheça, onde a arte floresça e onde a cultura seguirá transformando vidas”, finaliza o diretor.

Semana de Pelotas no Theatro Sete de Abril

Sexta-feira (10)
15h – Concerto “Música que forma, transforma e celebra!” – Orquestra Estudantil Municipal de Pelotas.

Sábado (11)
19h – Cantos Sagrados e Populares – Grupo Ojuobá;
20h – Óperas e clássicos populares – Sociedade Pelotense Música pela Música (SPMM).

Domingo (12)
17h – Show com a banda Preto de Sapato.

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