Berço daqueles que aqui pertencem por natureza e casa para todos que fizeram de suas terras leito de renascimento, neste domingo (7), Pelotas completa 212 anos, e em sua constância de renovação – afinal, olhares que chegam e olhares que vão, a história permanece viva através de uma comunidade que a reconta aos mais jovens e a todos aqueles que aqui aportam.
Polo universitário e ponto turístico aos amantes de doces e música, a Princesa do Sul – assim chamada por já ter sido a província mais rica e trazido a nobreza à região através do desenvolvimento do charque no século 19 – garante atrações para todos os públicos, dentre os quais podem ser citados como principais eventos a realização anual da Fenadoce e do Festival Internacional Sesc de Música, ambos ocorrendo em diferentes estações e impactando positivamente na economia da região.
Como uma demonstração de reconhecimento à riqueza ancestral que molda o município, a professora de história Suéllen Cortes, ou Profª Suka, como é conhecida através das redes sociais, compartilha fatos históricos da cidade em seu perfil no Instagram (www.instagram.com/profsuka), repercutindo entre aqueles que estudam a respeito, curiosos e também futuros moradores.
“Acho que esse aniversário da cidade é um marco importante para celebrarmos o quanto já avançamos na preservação dos patrimônios da cidade e para refletirmos como podemos protegê-los e divulgá-los ainda mais”, comenta a professora.

Contando com a Semana Cultural em seu calendário de eventos anual, é em celebração ao Dia do Patrimônio que a Capital Nacional do Doce resgata as estruturas mais antigas do município e convida a comunidade a participar de um tour pelos diversos lugares que permeiam sua história.
Destacando o fato de Pelotas ter sido construída por pessoas de diversos grupos sociais, Suéllen contextualiza que a valorização tida pelo município e manifestada em diversos âmbitos culturais, é uma maneira de manter a cidade viva e pulsante. Natural de São Francisco de Assis, a professora veio para Pelotas aos 18 anos para ingressar na faculdade e considera o contato com os patrimônios um grande influenciador em sua paixão pelo município. “Preservar as tradições da cidade é muito mais do que pensar no potencial turístico, simplesmente. É também uma forma de manter a identidade e a memória da comunidade pelotense”, relata.
Em relação aos vídeos de cunho educacional publicados nas redes sociais, Suéllen conta que o início das produções aconteceu de maneira despretensiosa, apenas com a intenção de ajudar os alunos curiosos a entenderem elementos da história da cidade que não costumam ser aprofundados em sala de aula por conta do tempo. “À medida que gravei os primeiros, percebi que muitas pessoas estavam felizes de conhecer, mesmo que só um pouquinho, lugares que fazem ou fizeram parte da vida delas”, ressalta.
Ainda conforme a historiadora, a maioria das pessoas desconhece a vasta existência de materiais – ou não sabe como encontrá-los – que foram produzidos sobre a história do município e que englobam desde pesquisas acadêmicas até livros ilustrados. “Minha ideia então foi tentar condensar de uma forma acessível esse material e disponibilizar os links para quem quisesse se aprofundar mais nos temas escolhidos, e os resultados têm sido incríveis. O público é muito receptivo, as pessoas ficam muito animadas de ver partes importantes de suas vidas sendo trazidas de volta à memória”, explica.
Buscando trazer um conteúdo diversificado e que fuja do clássico já imaginado pela comunidade, a professora procura dar visibilidade para lugares que não são necessariamente explorados em tours. Dentre os conteúdos já produzidos por Suéllen, destacam-se pelo número de visualizações, os vídeos sobre a primeira casa de Pelotas, sobre o Moinho Pelotense e também sobre a antiga forca.
A Casa 201
Localizada onde hoje é a rua Major Cícero, a casa de número 201 foi planejada em 1815, dentro do terreno de Antônio dos Anjos. Atravessando dois séculos de história desde então, o imóvel também deu o nome à rua até 1869, quando era chamada de “rua do Torres” por conta do proprietário Antônio José Torres. A casa 201 foi sede de uma série de reuniões nas quais foram debatidos e planejados os rumos da urbanização da então freguesia de São Francisco de Paula.

O moinho pelotense
Compondo uma zona fabril, vinculada diretamente à facilidade dos transportes portuários, ferroviários e urbanos, o Moinho Pelotense está localizado nas redondezas do Porto e foi fundado em 1886 na margem direita do Arroio Santa Bárbara, contribuindo para que Pelotas triunfasse como polo econômico do Estado.

A forca
Em 1832, próximo ao antigo curso do arroio Santa Bárbara, quando a chamada “Casa de Correção” foi construída para ser a nova cadeia pública de Pelotas, os presos sentenciados à morte eram executados na forca que ficava localizada no Parque Dom Antônio Zattera. No entanto, por volta de 1850, com a expansão da zona urbana, a forca foi transferida para a atual Praça 20 de Setembro, ficando mais próxima da cadeia pública, na margem oposta ao arroio.

Experiência
Para Suéllen, o sentimento de chegar aos lugares e ser reconhecida pelas pessoas como alguém que contribui para a divulgação da história é tida como algo positivo, com o qual ela ainda está se acostumando. “Mas é muito satisfatório chegar em diferentes lugares e as pessoas me reconhecerem, darem sugestões, pedirem por lugares e comentarem que não sabiam detalhes sobre locais que elas passam no dia a dia”, destaca.
Com o conjunto histórico de Pelotas sendo reconhecido como Patrimônio Material Nacional por sua importância para a história do país, é importante que as mãos que trabalharam em sua construção não sejam esquecidas. Assim, entre os clássicos pontos turísticos, manifestações culturais e tradição doceira, permanece o legado de um município que se reinventa através do reconhecimento da história e de sua comunidade. “Eu gostaria que as pessoas conhecessem mais sobre quem construiu essa cidade. Me refiro às pessoas comuns, escravizados e seus descendentes, trabalhadores urbanos, gente como a maior parte do povo, que suou muito pra construir o período de glória de Pelotas e pra manter a cidade funcionando depois que vieram as crises econômicas. […] Talvez a maior contribuição que eu possa dar seja fazer as pessoas perceberem a sua importância nos eventos históricos e como a história ganha sentido quando percebemos que ela não é uma coisa só para os grandes gabinetes”, finaliza a professora.




