História contada através de prédios: Pelotas em seus 212 anos

Caps Escola realiza programação aberta à comunidade no Largo do Mercado. (Foto: Gustavo Vara)

Berço daqueles que aqui pertencem por natureza e casa para todos que fize­ram de suas terras leito de renascimen­to, neste domingo (7), Pelotas completa 212 anos, e em sua constância de re­novação – afinal, olhares que chegam e olhares que vão, a história permanece viva através de uma comunidade que a reconta aos mais jovens e a todos aque­les que aqui aportam.

Polo universitário e ponto turístico aos amantes de doces e música, a Prin­cesa do Sul – assim chamada por já ter sido a província mais rica e trazido a nobreza à região através do desenvol­vimento do charque no século 19 – ga­rante atrações para todos os públicos, dentre os quais podem ser citados como principais eventos a realização anual da Fenadoce e do Festival Internacional Sesc de Música, ambos ocorrendo em diferentes estações e impactando posi­tivamente na economia da região.

Como uma demonstração de reco­nhecimento à riqueza ancestral que mol­da o município, a professora de história Suéllen Cortes, ou Profª Suka, como é conhecida através das redes sociais, com­partilha fatos históricos da cidade em seu perfil no Instagram (www.instagram.com/profsuka), repercutindo entre aqueles que estudam a respeito, curiosos e tam­bém futuros moradores.

“Acho que esse aniversário da cidade é um marco importante para celebrarmos o quanto já avançamos na preservação dos patrimônios da cidade e para refletir­mos como podemos protegê-los e divul­gá-los ainda mais”, comenta a professora.

A professora de história Suéllen Cortes, ou Profª Suka, como é conhecida através das redes sociais, compartilha fatos históricos da cidade em seu perfil no Instagram. (Foto: Reprodução/Instagram)

Contando com a Semana Cultural em seu calendário de eventos anual, é em celebração ao Dia do Patrimônio que a Capital Nacional do Doce resgata as es­truturas mais antigas do município e convida a comunidade a participar de um tour pelos diversos lugares que per­meiam sua história.

Destacando o fato de Pelotas ter sido construída por pessoas de diversos gru­pos sociais, Suéllen contextualiza que a valorização tida pelo município e manifes­tada em diversos âmbitos culturais, é uma maneira de manter a cidade viva e pulsan­te. Natural de São Francisco de Assis, a professora veio para Pelotas aos 18 anos para ingressar na faculdade e considera o contato com os patrimônios um gran­de influenciador em sua paixão pelo mu­nicípio. “Preservar as tradições da cidade é muito mais do que pensar no potencial turístico, simplesmente. É também uma forma de manter a identidade e a memó­ria da comunidade pelotense”, relata.

Em relação aos vídeos de cunho edu­cacional publicados nas redes sociais, Su­éllen conta que o início das produções aconteceu de maneira despretensiosa, apenas com a intenção de ajudar os alu­nos curiosos a entenderem elementos da história da cidade que não costumam ser aprofundados em sala de aula por con­ta do tempo. “À medida que gravei os pri­meiros, percebi que muitas pessoas es­tavam felizes de conhecer, mesmo que só um pouquinho, lugares que fazem ou fizeram parte da vida delas”, ressalta.

Ainda conforme a historiadora, a maioria das pessoas desconhece a vas­ta existência de materiais – ou não sabe como encontrá-los – que foram produzi­dos sobre a história do município e que englobam desde pesquisas acadêmicas até livros ilustrados. “Minha ideia então foi tentar condensar de uma forma aces­sível esse material e disponibilizar os links para quem quisesse se aprofundar mais nos temas escolhidos, e os resultados têm sido incríveis. O público é muito receptivo, as pessoas ficam muito animadas de ver partes importantes de suas vidas sendo trazidas de volta à memória”, explica.

Buscando trazer um conteúdo diver­sificado e que fuja do clássico já ima­ginado pela comunidade, a professora procura dar visibilidade para lugares que não são necessariamente explorados em tours. Dentre os conteúdos já produzidos por Suél­len, destacam-se pelo número de visualizações, os vídeos sobre a primeira casa de Pelotas, so­bre o Moinho Pelotense e também sobre a an­tiga forca.

A Casa 201

Localizada onde hoje é a rua Major Cícero, a casa de número 201 foi planejada em 1815, dentro do terreno de Antônio dos Anjos. Atra­vessando dois séculos de história desde então, o imóvel também deu o nome à rua até 1869, quando era chamada de “rua do Torres” por conta do proprietário Antônio José Torres. A casa 201 foi sede de uma série de reuniões nas quais foram debatidos e planejados os rumos da urbanização da então freguesia de São Fran­cisco de Paula.

(Foto: Reprodução/Facebook)

O moinho pelotense

Compondo uma zona fabril, vinculada dire­tamente à facilidade dos transportes portuá­rios, ferroviários e urbanos, o Moinho Peloten­se está localizado nas redondezas do Porto e foi fundado em 1886 na margem direita do Arroio Santa Bárbara, contribuindo para que Pelotas triunfasse como polo econômico do Estado.

(Foto: Paula Liaroma)

A forca

Em 1832, próximo ao antigo curso do ar­roio Santa Bárbara, quando a chamada “Casa de Correção” foi construída para ser a nova cadeia pública de Pelotas, os presos senten­ciados à morte eram executados na forca que ficava localizada no Parque Dom Antô­nio Zattera. No entanto, por volta de 1850, com a expansão da zona urbana, a forca foi transferida para a atual Praça 20 de Setem­bro, ficando mais próxima da cadeia pública, na margem oposta ao arroio.

(Foto: Gustavo Mansur)

Experiência

Para Suéllen, o sentimento de chegar aos lugares e ser reconhecida pelas pesso­as como alguém que contribui para a divul­gação da história é tida como algo positivo, com o qual ela ainda está se acostuman­do. “Mas é muito satisfatório chegar em diferentes lugares e as pessoas me reco­nhecerem, darem sugestões, pedirem por lugares e comentarem que não sabiam de­talhes sobre locais que elas passam no dia a dia”, destaca.

Com o conjunto histórico de Pelotas sen­do reconhecido como Patrimônio Material Nacional por sua importância para a histó­ria do país, é importante que as mãos que trabalharam em sua construção não sejam esquecidas. Assim, entre os clássicos pontos turísticos, manifestações culturais e tradição doceira, permanece o legado de um municí­pio que se reinventa através do reconheci­mento da história e de sua comunidade. “Eu gostaria que as pessoas conhecessem mais sobre quem construiu essa cidade. Me refi­ro às pessoas comuns, escravizados e seus descendentes, trabalhadores urbanos, gen­te como a maior parte do povo, que suou muito pra construir o período de glória de Pelotas e pra manter a cidade funcionando depois que vieram as crises econômicas. […] Talvez a maior contribuição que eu possa dar seja fazer as pessoas perceberem a sua importância nos eventos históricos e como a história ganha sentido quando percebemos que ela não é uma coisa só para os grandes gabinetes”, finaliza a professora.