Doceiras de Morro Redondo recebem reconhecimento de Tesouro Humano Vivo

Famílias homenageadas com o reconhecimento Tesouro Humano Vivo a partir do projeto de mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural da professora Giane Trovo Belmonte, à direita da foto. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Famílias de tradicional saber fazer doceiro do Morro Redondo receberam na noite de quinta-feira (24) o reconhecimento de Tesouro Humano Vivo. O ato de entrega do título ocorreu durante o Encontro com Produtores de Doces Tradicionais do Morro Redondo, que integra programação do segundo dia do Seminário Internacional de Patrimônio, Alimentos e Sustentabilidade (SemPias), que começou na quarta-feira e vai até esta sexta no Centro de Pós-Graduação e Pesquisas em Ciências Humanas, Sociais, Sociais Aplicadas, Artes e Linguagem da Universidade Federal de Pelotas (Cehus/UFPel).

Familiares dos agraciados prestigiaram o evento, além de representantes da prefeitura, como a vice-prefeita Angelica Boettge dos Santos (PSDB), da Emater/RS-Ascar no município, da Câmara de Vereadores, professores e alunos da UFPel. Ao fim da cerimônia, que também contou com a presença de Deyvesson Gusmão, coordenador-geral de Identificação e Registro do Departamento de Patrimônio Imaterial do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a plateia teve direito a uma degustação das iguarias produzidas em Morro Redondo.

O título foi concedido a famílias que foram objeto de pesquisa para a dissertação de mestrado da professora da rede estadual, Giane Trovo Belmonte, intitulada “Tesouro Humano Vivo: os guardiões do saber-fazer da tradição doceira de Morro Redondo/RS” (no link https://guaiaca.ufpel.edu.br/handle/prefix/9991), e defendida em abril deste ano no curso de Memória Social e Patrimônio Cultural da UFPel, com orientação da professora Francisca Michelon.

Celoé e Rui Cruz (Doces Celoc), da Colônia Santo Amor; Dóris Beatriz e Mailan Rosler (Doces da Bia), zona urbana de Morro Redondo; Marcia Rodrigues Scheer (Oikos Agroecologia), Colônia São Domingos; Neusa Cardoso (Doces Santa Rita), Açoita Cavalo; Família Macedo Costa (Doces Vô Jordão), Colônia Santo Amor; João Carlos Costa Gomes, descendente de produtor de doces (Sítio Flor e Osória), Colônia Santo Amor; Maria Helena e Davi Armendaris (Doces João de Barro), Colônia São Domingos; e professora Solange Brizolara Cruz (Café Negrinho do Pastoreio), Açoita Cavalo, foram reconhecidos como Tesouro Humano Vivo. Produzem doces no meio rural com receitas passadas de geração em geração, com o mesmo modus operandi, em um município considerado integrante da Antiga Pelotas pelo Inventário Nacional de Referências Cultural da tradição doceira de Pelotas (INRC).

Mesa de doces tradicionais para degustação produzidos por famílias do Morro Redondo durante o Encontro com os Produtores de Doces Tradicionais do Morro Redondo. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Pesquisa

Tesouro Humano Vivo é conceito desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) apresentado e testado na pesquisa de Giane Trovo Belmonte. “O trabalho da Giane foi reconhecer as famílias doceiras que ainda mantêm a tradição do doce, a tradição de um patrimônio que é também da cidade e tem sustentabilidade, das próprias famílias, da cidade, porque vai gerar outras formas de sustento para outras pessoas, e a sustentabilidade da memória, que sendo deles é também de todos nós, este é o mote do Encontro”, explicou a professora orientadora, Francisca Michelon.

A pesquisa também atende outros quesitos. A autora do projeto lembra que o doce da Antiga Pelotas, tornado imaterial em 2018 juntamente com os doces finos, tem prazo de dez anos para desenvolver ações de salvaguarda para se manter com esse título e, consequentemente, preservar essa tradição. Isso posto, foi a campo identificar esses tesouros humanos vivos. Indicada pela equipe da prefeitura, começou a entrevistar famílias reconhecidas pela produção de iguarias como passas de pêssego, figos cristalizados, entre outros.

A professora Giane Trovo Belmonte, mestre em Memória Social e Patrimônio Cultural pela UFPel, em projeto que reconheceu como Tesouro Humano Vivo famílias produtoras de doces tradicionais do Morro Redondo; na imagem, entre Maria Helena e Davi Armendaris, da Doces João de Barro. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Nem tudo foi doce. Giane se deparou com um número reduzido de produtores. Conforme dados da prefeitura, há duas décadas havia até 30 unidades familiares trabalhando nesse nicho. Hoje são apenas as sete que foram homenageadas na noite de quinta – e sem perspectiva de continuidade, o que ela vê com preocupação.

No entanto, percebeu que a proposta de alavancar o turismo passa pelo doce colonial como estratégia de promoção da cidade. Por isso, defende que essa tradição merece ser projetada para vender esse produto turístico – um chamariz. “Não somente para que o turismo cresça, mas principalmente para preservar aquele que faz o doce, porque não adianta divulgar o doce e não ter quem faça”, alerta. Mais: conforme a pesquisadora, esses tesouros vivos que a pesquisa identificou estão dispostos a contribuir neste sentido. Fica a dica: “Só precisam de ajuda”, garante. “Estão com vontade de crescer, precisam de políticas públicas e de uma fiscalização educadora, não punitiva”.

Mão na massa

Natural de Canguçu, a produtora agroecológica Marcia Rodrigues Scheer, da Oikos Agroecologia, é um dos sete tesouros humanos vivos reconhecidos no trabalho de Giane Trovo Belmonte. Filha de produtor de fumo no interior de Canguçu, foi o casamento que a levou a Morro Redondo há pelo menos duas décadas e meia.

Diz que um dos primeiros impactos na família do marido, de ascendência alemã, foi ver que ali mesmo, dentro de casa, se produzia a própria chimia para “o café das nove na lavoura”. Mas mais do que isso: Marcia conta que a iguaria tinha alta durabilidade. “Praticamente o ano todo e não estragava – pensei: ‘é preciso conservar isso, esse saber’”.

Depois, por intermédio de amigos e parentes de Canguçu, ela e o marido conheceram a feira orgânica da Arpa-Sul, em Pelotas. “Me encantei”, admite. E deu início então à produção de hortaliças e frutas. Dessas, do que sobrava, começou a fazer chimias em parceria com a sogra. Em seguida, rapaduras. Depois pão e, a seguir, cucas – tudo à base de produtos orgânicos, incluindo o pão com torresmo que levou para a degustação do Encontro, devorado em minutos.

Atualmente Márcia não é apenas uma produtora orgânica. É representante da causa. Em nome da Arpa-Sul, tem sido presença constante em eventos voltados à agroecologia no estado. Ministra palestras também a respeito da valorização da mulher no campo. “Ela levanta de manhã, faz o fogo, o café para o filho ir para a escola e vai para a lavoura também”, justifica.

Articulada, emenda outras questões sensíveis da agricultura familiar, como a permanência do jovem no campo. “Ele prefere ir para a cidade ganhar um salário mínimo porque vai ter uma garantia que o campo não oferece, a gente sabe que em países de primeiro mundo há subsídios para o agricultor permanecer no campo e produzir comida –o campo está esvaziando, está envelhecendo, quem vai produzir comida nos anos futuros”, questiona.

Hoje, nas duas propriedades na Colônia São Domingos que juntas somam 36 hectares, a produção familiar agroecológica inclui fruticultura, olericultura e leite para produção das rapaduras. Boa parte é transformada em geleias, rapaduras, broas de milho, cucas e pães. O aproveitamento, ela assegura, é quase total.

Em Pelotas, além da feira orgânica aos sábados na Dom Joaquim, está sempre às terças na feira da Bento Gonçalves com Almirante Barroso, também das 7h às 13h. Em Canguçu às quintas, em frente à prefeitura, pela manhã. Visitas à propriedade mediante agendamento – exceto domingos. Anote: (53) 98124-7674.

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