Abertura da Colheita do Arroz superou as expectativas, diz presidente da Federarroz

Abertura Oficial da Colheita do Arroz teve a participação dos produtores rurais, convidados, autoridades e imprensa. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Pelo menos 13.5 mil pessoas estiveram na Estação Experimental Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado, no Capão do Leão, entre os dias 14 e 16 deste mês, quando foi realizada a 33ª Abertura da Colheita do Arroz.

O público expressivo, entre produtores, pesquisadores, estudantes, autoridades e iniciativa privada, teve acesso a vitrines tecnológicas e a uma gama de temas relacionados ao arroz em especial e ao agronegócio em particular. Uma série de palestras abordou desde o tema central do evento, o arrozeiro como produtor multissafra, ao anúncio de um estudo inédito que pretende mapear toda a cadeia produtiva do arroz, modelos de financiamento, juros e política fiscal, exportações, modelos de gestão, intensificação produtiva e integração lavoura-pecuária.

Além das palestras, o evento contou com a sempre concorrida solenidade de abertura, realizada no fim da tarde do dia 15, com a presença do vice-governador Gabriel Souza (MDB), entre outras lideranças políticas e da classe.

Por esse motivo, Alexandre Velho, presidente da Federação dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), entidade realizadora do evento, não tem dúvidas de que nesta edição as expectativas foram totalmente superadas. O fato se dá não apenas em repercussão, mas também no entendimento de que hoje o arrozeiro precisa diversificar a produção para se converter em um produtor multissafra, pauta amplamente explorada durante os três dias da Abertura da Colheita. “Entendemos a necessidade de sermos produtores de grãos e isto vai fazer diferença na economia do Rio Grande do Sul”, disse ele.

Velho alerta que o arrozeiro passa por constantes desafios, o que leva obrigatoriamente a categoria a se atualizar cada vez mais para buscar alternativas.

A 33ª Abertura Oficial da Colheita de Arroz e Grãos em Terras Baixas contou também com a correalização da Embrapa e Senar/RS. Patrocínio Premium do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

Presidente da Federarroz, Alexandre Velho, falou na abertura oficial do entendimento do produtor ser multissafra. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Arrozeiros multissafras

O Painel “Arrozeiros como produtores multissafras”, tema central do evento, abriu a programação deste ano, no auditório Frederico Costa, na sede da Estação Experimental Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado. A atração promoveu um debate que contou com a moderação de Alexandre Velho e participação dos painelistas Ricardo Gomes da Silva, João Paulo Silveira e Paulo Nolasco, do Grupo Quero-Quero, de Jaguarão, Jair Buske, produtor rural de Agudo (Região Central do Estado, a 318 quilômetros de Pelotas) e diretor da Federarroz Depressão Central, e Eduardo Condorelli, superintendente do Senar/RS.

Velho abriu a discussão reafirmando o protagonismo do Estado na produção de arroz – condição que obriga o setor a buscar ferramentas para manter o produtor na atividade rural. Também foi lembrado na ocasião o papel fundamental da Embrapa com sua rede de pesquisadores disponíveis e capacidade tecnológica.

Primeiro palestrante do painel, Condorelli advertiu que a decisão de se converter em um produtor multissafra não passa tão somente pela escolha de uma ou outra cultura, mas que deve, necessariamente, perpassar decisões de caráter estratégico, como gestão de negócios. “Uma empresa rural precisa devolver lucro e renda e talvez com apenas uma cultura isto não seja possível”, afirmou.

Para ele, a diferença em se tornar ou não multissafra é o produtor saber com clareza aonde quer chegar. “A nossa decisão é um pouco além de uma decisão apenas agronômica, apenas técnica de produção e produtividade, mas é uma decisão de gestão do nosso negócio, conferindo estabilidade, margem e segurança, bem como colaborando para diluir todos os custos fixos que tem”, concluiu.

O diretor da Federarroz Depressão Central falou na sequência. Buske focou na superação das adversidades da lavoura de arroz e compartilhou seu caso pessoal, que remonta à safra 2009/2010, quando decidiu se converter em um produtor multissafra, após enfrentar um El Niño rigoroso. “Comecei com a rotação de culturas de 2010 para 2011, de forma segura, com um pouco de soja em um primeiro momento e também adequando a área da propriedade”, lembrou. Na sequência, inseriu as culturas de trigo e milho. Caso bem-sucedido, o produtor, logicamente, não se arrepende da decisão: “O conjunto de tudo tem nos dado rentabilidade. Seguramente hoje, com o milho e a soja, diminuí os custos e aumentei minha rentabilidade”, disse. “Esses últimos 12 anos têm sido de aprendizagem constante, tudo passa por manejo”, completou.

Anfitriões na sexta-feira anterior, dia 10 de fevereiro, da Abertura da Colheita do Milho – realizada pela primeira vez na Metade Sul –, coube aos representantes do Grupo Quero-Quero proferirem a última palestra do painel antes do início do debate sobre o tema. Silva, proprietário da Fazenda São Francisco, em Jaguarão, fez um breve histórico do empreendimento, que teve início há pouco mais de meio século com pecuária e lavoura de arroz. Hoje o portfólio da propriedade está bem mais diverso, com a inserção de culturas como a soja, o milho e o trigo. Atualmente, a propriedade cultiva arroz e milho irrigado, além de soja na várzea.

Incentivo à exportação

A necessidade do arrozeiro brasileiro se dedicar ao mercado internacional também foi destaque da programação da 33ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz, mesmo diante da possibilidade de enfrentamento de crises decorrentes da flutuação do dólar. Os painelistas Juandres Antunes e José Maria Gomez só apresentaram números favoráveis à opção.

Antunes, do Grupo Moraes, de Jaguarão, destacou as relações comerciais com o México, responsável pela exportação de 48% do total de arroz base casca enviado para fora do Brasil. “Esta abertura faz diferença para nosso mercado”, salientou. “Nosso arroz não é só preço, é qualidade e tem alto valor agregado”, afirmou.

Na mesma linha, o uruguaio Gomez, da Trader Viterra, abriu sua fala com um questionamento: “É possível mudar a cultura para que o produtor não fique só olhando o mercado interno e ver que há algo fora da fronteira que fronteira que é a exportação?”.

Na sequência, apresentou dados sobre a área plantada. “Sempre ouvi que sumiu o arroz e todos foram para a soja, Só que em 23 anos, a área plantada no Brasil caiu pela metade e a produção não”, argumentou. Gomez considera que, graças à genética, a melhora das variedades do arroz bem como do manejo, o setor orizícola evoluiu ao longo deste tempo. “As áreas ineficientes saíram do negócio e quem ficou é mais eficiente em fazer o serviço”, explicou.

O especialista fez nova provocação à plateia ao dizer que cabe ao produtor tirar da cabeça o que chamou de “cota de sacrifício”. Conforme ele, exportar valoriza o preço do arroz base casca. “No segundo semestre, a demanda vai bater na porta e quero saber quem vai abrir. Eu gostaria que a porta fosse aberta no Brasil”, afirmou.

Ao garantir que o produtor de arroz alimenta o Brasil e tem condições de alimentar o mundo, Gomez salientou que o negócio arrozeiro no país tem liquidez. “A oferta excede a demanda e esta é a oportunidade que os arrozeiros têm”, garantiu. No entanto, o palestrante apresentou pontos nos quais identifica necessidade de evolução, como os que envolvem logística e compreensão da qualidade do mercado de destino.

Como ameaças ao negócio, listou a volatilidade cambial e intervenção estatal. “Não podemos controlar a volatilidade cambial, mas podemos tomar ações proativas para estar no mercado, independente de que possamos sofrer em algum momento”, defendeu.

Potencial para alimentar o mundo

Transformar o Brasil e o Mercosul no terceiro ou quarto maior polo exportador de arroz de alta qualidade do mundo foi um dos pontos que chamaram atenção na Abertura da Colheita do Arroz. A defesa desta tese foi feita pelo presidente da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), Elton Doeler, um dos convidados do painel “A importância do mercado brasileiro na alimentação mundial”.

Doeler destacou o déficit da produção mundial do grão em relação à necessidade de consumo. Conforme ele, China (145.946 mil toneladas), Índia (125 mil toneladas) e Bangladesh (35.850 mil toneladas) são os maiores produtores. O Brasil ocupa a décima posição (7.072 mil toneladas). O consumo nos três primeiros também é, respectivamente, superlativo: 154.946 mil toneladas, 108.500 mil toneladas e 37.300 mil toneladas. Mas mesmo com o título de maior produtora do mundo, observou o presidente da Abiarroz, a China é obrigada a importar 5.200 mil toneladas ao ano.

No ranking das exportações, Índia (21.500 mil toneladas), Tailândia (8.200 mil toneladas) e Vietnã (6.800 mil toneladas) lideram os primeiros lugares. O Brasil é o 9º (1.100 mil toneladas). Com esses dados, entre outros, o executivo defende que a redução do déficit do abastecimento mundial passa pelo incremento da produção. “Se não for o Mercosul, outra região aproveitará essa oportunidade”, alertou, sugerindo que o aumento da produção deve ser construído de forma planejada. “É enorme o trabalho político que as federações devem fazer para nosso arroz alimentar o mundo, pois um dos nossos problemas é o excesso de tarifas para colocar o cereal nacional no mercado internacional”, complementou.

Para ele, a exportação garante sustentabilidade de renda da cadeia produtiva, que inclui também o consumo doméstico. “Depende de planejamento estratégico e entender como se pode aproveitar essa oportunidade”, recordando que a safra nacional ocorre na contramão da asiática e norte-americana e que Rio Grande do Sul e Santa Catarina, juntos, são responsáveis por 80% da produção nacional.

No mesmo painel, o presidente do Sistema Farsul e vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Gedeão Pereira destacou a importância da venda dos produtos agropecuários com a marca made in Brasil. “No mercado internacional nós somos absolutamente jovens e talvez as nossas falhas sejam justamente pelo nosso desconhecimento do mundo lá fora, o que é absolutamente normal”, afirmou. Gedeão aposta que futuramente o milho terá a mesma importância que a soja na cesta de compras da China, podendo até superá-la em 15 ou 20 anos – a exemplo do que já ocorre nos Estados Unidos.

“Somos os maiores produtores e exportadores de soja, café, suco de laranja e açúcar. Mas isso é só commodities. A turma que está mais avançada nesse processo de marca made in Brasil no mercado internacional é a do frango. Produto of Brasil no frango já é sinônimo de qualidade lá fora”, exemplificou. De acordo com ele, a venda para outros países depende de tratativas, mas também de logística, entrega e qualidade.

Queda na semeadura é de 12% em relação à safra anterior

A área total semeada com arroz no Estado foi de 839.972 hectares – uma redução de 12% em relação à safra passada, que atingiu 957.185 hectares. Os dados foram oficialmente apresentados na coletiva de imprensa convocada pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) na manhã de terça-feira (14), abrindo a extensa programação da 33ª Abertura da Colheita do Arroz.
A tendência de queda que se confirmou já havia sido antecipada na Expointer, em setembro do ano passado. Na Zona Sul (terras baixas), a cultura da soja expandiu sua área novamente. Neste ano, pela primeira vez, o Irga realizou levantamento da área semeada de milho em terras baixas, sinalizando que a região caminha para se tornar a nova fronteira agrícola do cereal.