
A possibilidade de uma mulher colocar um DIU ou um Implanon na própria Unidade Básica de Saúde, sem precisar esperar meses por uma vaga em outro município ou em um serviço especializado, começa muito antes do atendimento. Ela depende, sobretudo, da existência de profissionais capacitados para realizar o procedimento com segurança.
Foi com esse objetivo que o Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP) iniciou a formação de médicos da Atenção Primária dos 21 municípios que integram a 3ª Coordenadoria Regional de Saúde. A capacitação faz parte das ações do Programa SER Mulher, do Ministério da Saúde, do qual o hospital é o único serviço habilitado na região Sul do Rio Grande do Sul.
Ao longo de três encontros presenciais, precedidos por atividades teóricas on-line, cerca de 60 médicos desenvolvem habilidades práticas para inserção de dispositivos intrauterinos (DIU) e do implante contraceptivo subdérmico (Implanon), dois dos métodos contraceptivos reversíveis de longa duração considerados mais eficazes para o planejamento reprodutivo.
Mais do que ensinar uma técnica, a proposta busca reorganizar a assistência à saúde da mulher na região, permitindo que esses procedimentos deixem de estar concentrados em poucos serviços especializados e passem a fazer parte da rotina da Atenção Primária.
“O que fazemos aqui é capacitar os profissionais para que eles retornem aos seus municípios aptos a oferecer esses métodos com qualidade técnica”, explica o médico da família e comunidade Alecandre Moch, coordenador da atividade. Segundo ele, isso amplia significativamente o acesso aos contraceptivos de longa duração e fortalece o planejamento familiar. “Quando esses profissionais voltam para seus territórios, eles conseguem inserir DIU e Implanon nas próprias unidades de saúde. Com isso, qualificamos a assistência nos 21 municípios e fortalecemos toda a rede de atenção à saúde da mulher.”
Além do atendimento às pacientes encaminhadas para o hospital, a habilitação no SER Mulher prevê justamente esse papel de apoio técnico à rede, por meio de treinamentos, teleatendimento e matriciamento das equipes municipais.
Capacitação responde a uma demanda crescente
A necessidade de ampliar a oferta desses métodos já é percebida pelos profissionais que atuam nos municípios.
A médica uruguaia Sandra Milena Coronel Gonzalez, que trabalha na rede pública de São Lourenço do Sul, afirma que a procura pelo implante contraceptivo cresce continuamente e que a capacitação permitirá transformar essa demanda reprimida em atendimento.
“Existe uma procura muito grande. Temos uma fila de espera e estamos aguardando justamente a capacitação e a chegada dos materiais para começar a realizar os procedimentos”, relata.
Segundo ela, o interesse não está restrito a um único perfil de paciente. “Hoje atendemos mulheres de aproximadamente 15 até 40 anos procurando esses métodos. É uma demanda bastante ampla.” A expectativa é que a formação permita reduzir deslocamentos das pacientes para centros de referência, além de diminuir o tempo de espera para acesso aos contraceptivos.
Formação baseada em evidências
A parte prática do treinamento ocorre no Hospital Escola de Simulação (HSIM), utilizando cenários clínicos simulados para que os participantes desenvolvam segurança técnica antes da aplicação dos procedimentos na rede pública.
Responsável pela condução da capacitação, a médica de Família e Comunidade e docente da Universidade Católica de Pelotas, Natália Franco Tissot, afirma que o treinamento também busca romper conceitos ultrapassados que ainda dificultam o acesso das mulheres aos métodos contraceptivos.
Durante as atividades, os profissionais discutem recomendações atualizadas e revisam práticas que já não encontram respaldo científico, como a exigência de ultrassonografia de rotina antes da inserção do DIU, a necessidade de a mulher estar menstruada para realizar o procedimento ou a obrigatoriedade de apresentar exame preventivo recente.
“É um tema que hoje ocupa um espaço muito importante na saúde pública porque está diretamente relacionado à autonomia das mulheres”, afirma Natália. “Para mim, também é uma pauta muito significativa, já que dediquei parte da minha trajetória acadêmica e profissional a essa área.” Ela destaca que levar esse conhecimento para municípios que não contam com estrutura universitária representa uma estratégia para reduzir desigualdades no acesso.
“É muito importante que essa capacitação chegue a lugares onde não existe uma universidade disponível. Assim conseguimos fazer com que mais mulheres tenham acesso a esses serviços e que a população encontre esse atendimento perto de casa.”
Um programa que vai além da contracepção
A formação em inserção de DIU e Implanon representa apenas uma das etapas previstas pelo Programa SER Mulher.
Além da qualificação em planejamento familiar, o cronograma inclui cursos sobre climatério, infertilidade, endometriose e exame ginecológico, direcionados a médicos e enfermeiros dos 21 municípios da região. Também está prevista a criação de uma formação específica para enfermeiros realizarem a inserção dos dispositivos, em parceria com a Universidade Católica de Pelotas e o Conselho Regional de Enfermagem.
Segundo Alecandre Moch, a lógica é fortalecer permanentemente a Atenção Primária.
“Não queremos apenas concentrar conhecimento dentro do hospital. A ideia é formar profissionais capazes de levar esse cuidado para seus territórios e fazer com que a população tenha acesso a uma assistência qualificada perto de onde vive.”
Com isso, o hospital amplia sua atuação para além da assistência especializada, assumindo também o papel de centro formador de profissionais e articulador da rede regional de atenção à saúde da mulher.



