“A lavoura é o meu lugar”, diz produtor de fumo do Arroio do Padre

Produtor de fumo, Geovani Leitzke Kruger de 35 anos, é pai de Maria Antônia, de 6, e Joaquim, de nove meses, e marido de Luciane. (Foto: Arquivo Pessoal)

Bem que o agricultor Geovani Leitzke Kruger tentou a sorte na zona urbana – fez até curso de soldador para trabalhar nos estaleiros estabelecidos em Rio Grande durante o ciclo do Polo Naval, na década passada. Foi. Durante um ano viu, mas não venceu o desejo de voltar para a pequena propriedade da família, a 1,5 quilômetro do bairro Benjamin Constant, no Arroio do Padre.

“Não me adaptei e não me arrependo de ter voltado – a lavoura é o meu lugar”, reconhece ele sem disfarçar o orgulho.Orgulho realmente não falta ao jovem agricultor de 35 anos, pai de Maria Antônia, de 6, e Joaquim, de nove meses, e marido de Luciane, a quem qualifica como seu braço direito. “Temos cabeça firme, sempre que pode me ajuda na lavoura, menos na última, porque estava grávida, e tem mão cheia pra culinária”, ri.

O motivo da realização na pequena propriedade de 5,7 hectares localizada na estrada de Santa Coleta tem nome: a produção de fumo – cultura que é o carro-chefe da produção agrícola em Arroio do Padre. De acordo com o censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município produziu ano passado 3.022 toneladas em uma área plantada que soma 1,2 mil hectares.

Kruger é um dos produtores que reforça os números do fumo no município. Ele não economiza elogios à produção responsável por sustentar a família: “Com o fumo eu realizo meus sonhos”.

Graças à sua lavoura, ao assessoramento técnico gratuito prestado pelas fumageiras e à “cabeça aberta” para a inovação, com técnicas de melhoramento e correção de solo, a produção aumenta e também a qualidade do fumo que vende às empresas.

Só na última safra, cujo plantio começou em setembro e a colheita terminou em março, os 4,5 hectares da propriedade dedicados à lavoura produziram 15,7 mil quilos de tabaco. “Vendi tudo, não sobrou nem a ‘munha’ [resíduo da plantação comercializado a um preço inferior]”, alegra-se.

A produtividade alcançada em safras sucessivas justifica os sonhos transformados em realidade: além da aquisição de todo o maquinário e implementos necessários para produzir, Krüger está concluindo a construção de uma ampla casa própria. Terminada esta etapa, quase que uma exigência da esposa Luciane, seu próximo plano de investimento será adquirir mais terras da propriedade vizinha para aumentar a produção – sempre de fumo. “É o que me dá retorno, as outras não deram certo”, explica.

“Já tentei milho, olericultura, são atividades com as quais se vive com dignidade, mas não me deram a capacidade de investimento que o tabaco dá”, acrescenta ele, que reconhece: não pode se queixar. Os avanços tecnológicos tornam a produção bem menos trabalhosa do que em décadas atrás.

Ele cita como exemplo as estufas elétricas – estrutura com a qual conta com duas unidades na propriedade. Cresceu assistindo, e ajudando, a costurar o fumo colhido em vara para armazená-lo em estaleiros – atividade que consumia cerca de três horas de trabalho além de muito mais mão de obra, sempre escassa na zona rural. “Se precisava de cinco a seis pessoas para carregar, hoje se faz sozinho em 45 minutos, era muito mais trabalhoso”, compara.

Produzir fumo, aliás, é algo literalmente familiar para ele. Seus pais o fizeram “a vida inteira”. Já o agricultor está nessa há 12 anos. Tempo suficiente para acumular experiência e, se demandado, aconselhar interessados que desejam optar pela lavoura de tabaco. Com Ensino Médio completo, ele diz que é importante se manter aberto a orientações que agreguem conhecimento e produtividade: “Como já disse, tem que ter cabeça aberta para a inovação, as empresas nos fornecem bons orientadores, visitam a propriedade, prestam aconselhamentos valiosos que melhoram a qualidade do solo e isso se reflete na produção e na qualidade do que é produzido”.

Na última safra, de setembro de 2022 a março deste ano, os 4,5 hectares da propriedade dedicados à lavoura produziram 15,7 mil quilos de tabaco. (Foto: Arquivo Pessoal)

Zona rural, nascido e criado
Descendentes de pomeranos, Geovani Krüger e Luciane cresceram praticamente juntos na Comunidade São Paulo, no interior do Arroio do Padre. Famílias vizinhas. Ela, assim como o marido, também procurou oportunidades na zona urbana, no caso, a de Pelotas, onde fez curso de técnica de Enfermagem durante um ano. Terminada esta experiência, retornou para a área rural.

“O lugar é muito bom e agradável, receptivo, e optamos por uma coisa que vem dando certo, em time que está ganhando é melhor deixar como está”, afirma Krüger. Sobre a permanência dos filhos neste mesmo ambiente, e assim garantir a tão almejada (e necessária) sucessão familiar, ele diz ser muito cedo

para fazer projeções. Agora, só sabe que terão assistência “para o que quiserem”.
Até se decidirem, os pequenos crescem no mesmo meio que os pais. “Antes dos filhos eu e a Luciane íamos a muitos eventos, sempre gostamos muito de dançar em festas e bailes típicos daqui da Colônia. Hoje, se resumem a programas familiares diurnos nas redondezas, como os vinhedos na Colônia Maciel e o parquinho no Grupelli, que também dispõe de vários animais. “Vamos onde é bom pra eles”, conforma-se o agricultor.

A proximidade garante a herança pomerana e colonial à nova geração, traduzida em expressões linguísticas e na culinária – onde a performance da esposa Luciane se sobressai. Kruger diz que a companheira foi uma ótima aluna da mãe, que lhe ensinou receitas repassadas de geração em geração em forma de doces tradicionais, bolos e bolachas – algumas com nomes impronunciáveis para arriscar colocar no papel. “É a nossa cultura, é o que aprendemos, a gente não pretende mudar daqui, nem do lugar e nem o que nos foi ensinado, estamos satisfeitos com isso”.

Horta e pomar
Como toda propriedade da zona rural da região, na do casal não faltam hortas e pomares para subsistência. Batata-doce, verduras e mandioca estão sempre disponíveis, colhidas ainda frescas diretamente da horta. O pomar, também para consumo próprio, oferece laranja, bergamota e, como não poderia ser de outra forma em Arroio do Padre, caqui – uma cultura que motiva até festa no município (Festa do Caqui e da Maçã, em abril) tanta já foi a produção nas propriedades localizadas no antigo distrito de Pelotas. Leitaria também se encontra na região, mas não na propriedade dos Krüger. “Mas não nos falta também, é com que o sogro trabalha”, justifica.

Sobre o fumo, seu principal ganha-pão, não só não pensa em parar como reage com tranquilidade às críticas que a lavoura recebe pelo uso intenso de defensivos agrícolas. “Tudo depende de como se trabalha”, resume ele. Krüger garante que segue à risca todas as recomendações repassadas pelos técnicos da empresa. Jamais dispensa EPI (Equipamento de Proteção Individual), usa apenas os produtos indicados pelas fumageiras e nos horários indicados – “sempre antes das 10h e depois das 16h”, revela. “Não tenho problema com isso, no fumo não se pode colocar qualquer veneno”.

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