Produção de melancia sofre com a estiagem na região

Conforme o produtor José de Alencar Pinho, o Nenê, a irrigação nos 60 hectares da lavoura localizada em Pedreiras, interior de Arroio Grande, pode amenizar o quadro da falta de chuvas, mas não o bastante diante de uma estiagem tão severa. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Apesar do clima festivo que reina em Pedro Osório com a expectativa do retorno da 20ª Expofesta Regional da Melancia, no campo, onde a fruta é produzida, a realidade não é tão animadora. O déficit hídrico que atinge a Zona Sul há cinco meses vai afetar a produção este ano. É o que espera o produtor rural José de Alencar Pinho, o Nenê, de 46 anos.

“Complicado, vai ser um ano de baixa produção”, conforma-se ele. A avaliação é compartilhada pela chefe do Escritório Municipal da Emater, Carine Harter. “Não vai ser um ano normal, vai ter perda”, reforça.

De acordo com Nenê, a irrigação nos 60 hectares da lavoura localizada em Pedreiras, interior de Arroio Grande, pode amenizar o quadro. No entanto, não o bastante diante de uma estiagem tão severa. “Não é a mesma coisa quando a lavoura não é atingida por seca. A água da irrigação nunca é suficiente”, explica.

O problema, conforme ele, não é novo. O produtor também enfrentou a seca na safra passada – embora não com a mesma intensidade. Segundo ele, a falta de chuva foi sentida já no plantio, que começou em 15 de novembro, quando precisou molhar a terra para poder plantar. A primeira chuva, relata, só apareceu dois meses depois, em meados de janeiro. “Nada substitui o clima – irrigação, durante 60 dias, além de aumentar o custo [de produção], não é como chuva”, lamenta.

Por isso, dá como certo que dificilmente terá o mesmo êxito das safras passadas, quando colheu 30 toneladas por hectare – mesmo que a melancia seja uma fruta resistente à falta d’água. “Se fosse lavoura de milho não colhia nada”, compara.

Produção é acompanhada pelo escritório municipal da Emater/RS-Ascar em Pedro Osório, por meio da chefe, Carine Harter, que destaca o sabor da fruta produzida localmente. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Mesmo assim, não pensa em deixar o negócio. Aos 46 anos de idade, Nenê diz que está na agricultura “a vida toda”. Com melancia trabalha há quase 30. Plantou sua primeira lavoura aos 18, influenciado pelo pai, José Pinho, que já cultivava a fruta. Cresceu entre pomares e plantações. “Melancia já foi meu principal cultivo”, conta. Há 15 anos aderiu também à soja e nesta safra plantou 200 hectares de milho.

A principal vantagem de seguir apostando na melancia é a rentabilidade. Enquanto o preço da soja e do milho é definido de antemão, com a fruta os valores envolvidos são definidos conforme a oferta. Em falta, o preço muda e não raro para melhor. “Hoje pode ter a R$ 0,50; faltou, vai a R$ 1,50, R$ 2. Agrega muito valor, é difícil perder”, diz o produtor.

Quando falou ao Jornal Tradição Regional, dia 1º de fevereiro, compradores ofereciam R$ 1 pelo quilo, bem menos, segundo Nenê, que o ano passado. Situação que não é capaz de lhe roubar o sono. Além da variação de preços típica da cultura, ele trabalha com produção escalonada. Assim, estima que a colheita em sua área plantada se estenda até o fim de março.

Nenê destaca a rentabilidade como um dos principais pontos da produção, com modificações positivas de acordo com a demanda do mercado. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Outro ponto favorável à melancia, ainda segundo o produtor, é em relação à rotação de culturas, como soja e milho. Por outro lado, exige sempre terra nova. Por isso, é uma incógnita projetar a área de cultivo para a safra 2024. A deste ano, em Pedreiras, segundo o proprietário da terra, fazia 30 anos que não se plantava nada. “Para melancia a área é sempre escassa”, adverte.

Via 116

Um dos maiores produtores de melancia de Pedro Osório, Nenê diz que além de abastecer a Festa, as frutas de sua plantação são embarcadas em caminhões que viajam até São Paulo pela BR 116. Desviam na BR 101 para atender as praias. “É a fruta do verão”, justifica.

Além da tradicional Manchester, o produtor tem apostado na Arriba, variedade sem semente que tem seduzido o mercado consumidor: “Vende melhor, tem pessoas que dão preferência e não se importam de pagar a mais por isso”, comenta.

Com ou sem semente, há também um fator que ajudou a dar fama e tradição à melancia de Pedro Osório: o teor de açúcar da fruta. Segundo Nenê, é o principal diferencial – característica que ele atribui ao clima: quente de dia e frio à noite. “Compradores que andam o Brasil inteiro reconhecem o sabor da melancia plantada na região”, garante o produtor. A chefe do Escritório Municipal da Emater no município concorda. “Com a noite mais fria, a temperatura amena contribui para aumentar a glicose da fruta. É o grande diferencial em relação à produção em outras regiões do país”, diz Carine.