Canguçu possui 56 mil habitantes, mas apenas um terço reside na cidade. A maior parte de sua população vive no meio rural. Apesar dos dados, e do município ser conhecido como a Capital Latinoamericana da Agricultura Familiar, o maior minifúndio da América Latina não escapa de um problema moderno bastante comum: a migração dos jovens para os centros urbanos.
Cada vez mais cedo os jovens saem do campo para estudar e não retornam. Não fosse só esse o problema, quem prefere ficar no meio rural acaba abandonando precocemente a escola.
Pensando neste contexto, a Prefeitura de Canguçu apostou na coragem para tentar algo novo, e assim nasceu a Escola do Campo, uma escola de turno integral que além de trabalhar a grade de currículo nacional, também desenvolve projetos de interesse do aluno do campo, possibilitando a oportunidade de desenvolvimento dos projetos nas propriedades junto à família.
“Esta é a primeira vez que a educação de base é repensada de acordo com a realidade de cada aluno. Hoje esses alunos não veem mais suas propriedades apenas como produtoras, mas como oportunidade de gerar mais renda às famílias”, explica o prefeito Vinicius Pegoraro (MDB).
Além do ganho pedagógico, as famílias dos jovens estudantes relatam a melhora no horário de saída e de retorno a suas casas, possibilitando mais flexibilidade no trabalho na lavoura, além de proporcionar aos alunos três refeições balanceadas.
“A proposta em si é pensar no aluno, nos temas geradores de interesse que ele tem devido ao meio que está inserido. As escolas que aceitaram esse desafio já colhem frutos significativos. São alunos mais preparados, e pequenos novos empreendimentos familiares começam a surgir no interior do município”, diz o chefe do Executivo.
Para a Prefeitura, o projeto tem seu sucesso devido à construção em conjunto com a comunidade escolar, diretores, professores e pais que abraçaram a proposta, que sempre se mostraram dispostos a mudar e aperfeiçoar o modelo. Cada escola tem a liberdade de tratar a Escola do Campo de acordo com a realidade onde está inserida.
“Isso se dá devido à flexibilidade do programa que propõe um espaço para elaboração de projetos de interesse dos próprios alunos, neste contexto a vivência é trazida para a sala de aula gerando conhecimento e pesquisas”, comenta o prefeito.
Conforme o professor José Luiz Rodrigues da Cunha, “na escola São João Batista de La Salle temos projetos de empreendedorismo rural, onde trabalhamos com alunos do 5º ao 9º ano. Já os alunos do pré ao 4º ano, desenvolvem junto com suas famílias, um projeto de educação emocional, onde usamos como base um animal de estimação. Então, durante as visitas, nós buscamos conversar a respeito dos cuidados com o animal, da importância dele com a família, e das emoções que estão contidas naquele contexto, com isso eles desenvolvem o cuidado consigo, com o próximo e com o meio a qual todos estão inseridos”.
Escola do Campo de Canguçu é referência em educação
Para o governo, o programa que saiu da fase piloto e ganhou o respeito da comunidade, é um sinônimo de acerto. Segundo a administração municipal, Canguçu vem sendo procurado por diversos municípios de todo o Brasil, que veem no projeto uma forma de adaptação em suas realidades. Em abril, a Secretaria de Educação, Esportes e Cultura recebeu a visita de membros da Secretaria de Educação, Professores e Conselho de Educação do município de Bagé para conhecer melhor o desenvolvimento prático e estudar uma possível implantação no município.
“Em um ano de projeto, as cinco primeiras escolas que adotaram o método já perceberam redução no índice de reprovação, menor número de desistências e faltas, além de ganhos como autoestima dos alunos, melhor comunicação e respeito com os colegas, devido à convivência em áreas de interesse comum”, afirma Pegoraro.
Para o prefeito, a Escola do Campo, implantada no ano passado, é uma nova ótica sobre o ensino fundamental que estimula a implantação gradativa de educação em turno integral em escolas do interior do município.
Nela, além do currículo base nacional de educação, os alunos adquirem conhecimentos condizentes com a área rural em que estão inseridos, através de temas geradores de interesse do aluno do campo, podendo aplicar os aprendizados em benefício da comunidade local.
“A Escola do Campo tira professores e alunos da zona de conforto, propondo mais aulas em menos dias da semana”. Na segunda-feira, por exemplo, enquanto os alunos ficam em casa preparando seus projetos, os professores debatem e trocam ideias dos projetos que estão desenvolvendo, além de identificar problemas e formas de solucioná-los.
Atualmente, oito escolas do interior de Canguçu contam com o projeto de educação no campo. A meta da Prefeitura é aumentar esse número já no próximo ano.
Escolas municipais que já receberam o projeto:
São João Batista de La Salle; Guido Timm Venske; Oscar Fonseca da Silva; Cristo Rei; Heitor Soares Ribeiro; Marechal Floriano; Carlos Moreira; e Jaime de Farias.





