
O ano era 1992 quando o empresário e produtor rural José Francisco Hoffman, o Chico, 61 anos, foi convidado por seus amigos e produtores rurais, os irmãos Rui e Roni Bartz, a abrir uma empresa de comércio e representação.
Trabalhar para ele não era segredo. Muito menos em atividades ligadas ao agronegócio. O pai, Getúlio, criou a família trabalhando na empresa de um tradicional produtor de arroz na região. E foi nesse meio que começou, aos 15 anos, capinando soja e sorgo na granja Coronel Pedro Osório durante as férias escolares.
Depois, aos 16, foi ajudante de motorista na indústria de conservas, fazendo coleta de aspargo e morango na zona rural de Pelotas e região. Trabalhou na Indústria de Conservas Helomar, Agapê, na Vega e mais tarde migrou para uma empresa de fertilizantes da Adubos Trevo. Só então veio o convite para criar o próprio negócio.
“Não tinha nada”, relembra ele. À época, apenas uma moto 125, ano 1982, adquirida com ajuda de um primo, o qual pagava em serviços como servente de pedreiro, expediente que cumpria à noite, após trabalhar durante o dia. Além do veículo, Chico também tinha família, composta pela esposa e o filho Douglas. Moto, família e filho na primeira infância. Coragem e “boa vontade” completavam o portfólio.
E, assim, ele e os sócios abriram a Semear, loja de produtos e suprimentos agrícolas que em 2022 completou 30 anos de existência – 28 deles com Chico à frente da empreitada.
A arrancada não foi fácil, como quase sempre é. Quem vê hoje um empresário seguro, confiante e firme pode não acreditar, mas lá no início ele também era assaltado pela insegurança. “Claro que era”, admite. “Antes de assumir procurei meus pais, tinha o Douglas pequeno, precisava me certificar de que nada podia faltar pra ele se não desse certo”, relembra.

Decisão tomada, negócio aberto, vendeu a moto, passou a andar de ônibus e construiu a empresa. A administração cabia a ele. Tarefa espinhosa, relembra. A loja, que hoje conta com duas unidades, na rua Barão de Santa Tecla, área central de Pelotas, e na avenida Salgado Filho, Zona Norte, começou a funcionar durante uma das maiores crises do arroz, monocultura da região à época.
Este, no entanto, não foi o único percalço. Dois anos depois, os sócios sofreram um golpe, quase faliram, precisaram desmanchar a sociedade e Chico se viu sozinho. “Fiquei desesperado”, recorda. Mas mesmo sozinho, e descapitalizado, “segurei as pontas”. Ele lembra como: “Trabalhando dia e noite, com seriedade e honestidade com os produtores, meus principais parceiros”.

Foco na soja
A trajetória destaca o papel do empresário como grande colaborador no impulsionamento da produção de soja de várzea – área considerada adequada somente para a cultura do arroz. “Falava muito de soja para o produtor, principalmente para o produtor de arroz e pêssego, vários reconhecem isso, sempre fui muito visionário”, afirma.
Este perfil ajudou a ampliar a fronteira da soja na região. Dentre as decisões tomadas ao longo desses 30 anos não foram poucas as vezes em que foi ao encontro de alternativas que ampliassem este mercado. Lembra particularmente de uma tarde chuvosa do ano de 1996, quando decidiu ir ao distrito industrial de Rio Grande falar com o empresário Valdir Bianchini, da Bianchini SA.
“Passei a tarde esperando, até que mandou um funcionário falar comigo. Me atendeu no final da tarde. Falei [sobre] a situação. Naquele dia ele ficou de falar com os irmãos pra ver a possibilidade de fomentar o mercado para a soja na Zona Sul. Criei uma amizade particular muito grande com ele e com a família. Nos tornamos grandes amigos, como somos até hoje”, orgulha-se.
O contato valeu a pena. Conforme Chico, o apoio da empresa, desde então, deu um grande impulso nos negócios da soja na região, que eram muito restritos. “Com a Bianchini a coisa foi. Fiz o meio de campo com vários produtores. Convencia a visitar a fábrica e a botar soja lá, o que ocorre até hoje”, disse.
Unidade de grãos
Além das lojas e da propriedade rural, Hoffman também dispõe de uma unidade de recebimento de grãos – através de negociação com o empresário Érico Ribeiro. “Tenho um grande carinho pelo doutor Érico, por ele e por toda a família, filhos e netos”, revela. “Ele me disse: ‘essa unidade aqui eu quero deixar pra tua família. Porque tu tens uns guris bons’”.
A unidade representa quase um divisor de águas na carreira empresarial. Chico percebeu na ocasião, há 16 anos, quando adquiriu a instalação, que era preciso diversificar. Ali o negócio evoluiu e mudou de patamar. Com capacidade para armazenar 480 mil sacas, a Semear agora investe em outro armazém graneleiro.
Sucessão familiar
Um dos maiores orgulhos da caminhada de Hoffman foi inserir os filhos no negócio. O mais velho, Douglas, de 40 anos, ainda estudava quando tirou a carteira de habilitação. Nas horas vagas pegava a camionete para fazer entregas. “Desde pequeno estava na carroceria comigo”, conta.
Com Dione, de 35 anos, a história é parecida: “Ia pra lavoura desde pequeninho, tenho foto dele almoçando encostado na camionete quando começamos a plantar, não conseguia sentar no trator, ia em pé. Foram criados dentro do meu negócio”, recorda.
A caçula Diele, de 28, também põe a mão na massa. Advogada, cuida de toda a parte jurídica da empresa, enquanto Douglas e sua esposa Bianca lidam com a administração e a parte comercial das lojas e Dione e sua esposa Liliane administram a propriedade rural da família, na praia do Laranjal, em Pelotas, onde são plantados 500 hectares de soja e 270 de arroz.
“Por isso não tive dificuldades de fazer sucessão. Trouxe eles desde pequenos, conhecendo a vida do homem do campo”, justifica, e recomenda: “para criar um filho sério, honesto, longe das drogas, o pai tem que estar junto e no trabalho desde cedo”.
Hoje, satisfeito com o que construiu, Chico é um conselheiro vigilante dos negócios da família. E confia plenamente na gestão dos filhos. “Dou todo o poder a eles, o Dione, na lavoura, entrega resultados melhores do que eu espero, o Douglas a mesma coisa”, elogia.
“Lembro que me mandaram abrir o olho quando eles chegaram, relatando casos de empresários que entregaram o negócio para os filhos e acabaram afastados. Não é meu caso. Só recebo elogios dos meus filhos”, afirma.
Com 42 funcionários, entre técnicos, agrônomos e veterinários que prestam assistência técnica gratuita, além de vendedores e pessoal de apoio, a Semear oferece mais de três mil itens ao produtor rural, o que faz da loja um verdadeiro shopping do agro. Diante disso, Chico considera que a missão está sendo cumprida. “Com muito trabalho se conquista alguma coisa de sucesso”, ensina. “Vai ter entrave? Vai. Vai ter tropeço? Vai. Mas tem que resolver e seguir em frente. Repito: com muito trabalho.”
Quem faz a Semear







