A lenda do joão-de-barro

O colunista Paulo Souza.

Na coluna anterior escrevi sobre a lenda do Quero-quero, que por sinal obteve muitos comentários e muitos compartilhamentos. Pois um desses comentários foi da minha prima Nara, que apreciou a coluna e me desafiou a escrever sobre o joão-de-barro, então vamos conhecer a lenda desse pássaro tão inteligente:

O joão-de-barro prende a parceira se descobrir que foi traído?
Você já deve ter ouvido falar desta história popular. Mas, ela é um mito! Muitos ninhos abandonados são encontrados com a parede trancada, por isso se imaginava que o macho havia prendido a fêmea, deixando-a morrer por motivos de traição. Como veremos a seguir esta teoria não tem nada de verdadeira, já que o casal fica na casinha apenas para 3 ou 4 ninhadas, depois vão embora e começam a construir outra casinha.

O joão-de-barro é uma ave nativa do Brasil muito popular e conhecida pela bela arquitetura do seu ninho. Ele utiliza lama para construir sua casa, semelhante a um forno de pizza. A casa por dentro tem um “quartinho”, onde a fêmea coloca seus ovos. Lá, eles estarão protegidos de seus predadores como, por exemplo, o bico do tucano, que não consegue fazer a curva. Pesquisadores descobriram que o casal trabalha todos os dias da semana e descansa no domingo (será pura coincidência?).

Com barro, misturado a esterco, palha e pequenos galhos, o macho e a fêmea trabalham juntos por 18 dias para a construção do ninho. Em média, a casa tem 30 cm de diâmetro e 5 cm de espessura. A casa é separada em duas partes por uma divisória: a entrada, que permite ao pássaro entrar sem se abaixar e é sempre voltada para o norte, evitando que o vento entre, e o interior do ninho.

A sua grande habilidade de manipular o barro dá nome ao passarinho. Outro destaque do joão-de-barro é o canto alto e forte, como uma gargalhada. O joão-de-barro mede aproximadamente 19 cm, a fêmea põe de três a quatro ovos a partir de setembro. A gestação dura de 14 a 18 dias. Os filhotes são alimentados por um período de 23 a 26 dias. Depois, estão prontos para voar e partir.

João-de-barro no folclore brasileiro
Conta a lenda que em uma tribo do sul do Brasil, o jovem Jaebé se apaixonou por uma moça de grande beleza e foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou quais provas de força Jaebé poderia dar para se casar com a moça mais bela da tribo. O jovem rapidamente respondeu: “as provas do meu amor!”.

O pai da moça gostou da resposta, mas achou o jovem atrevido. O velho contou que o último pretendente prometeu ficar cinco dias de jejum, porém morreu no quarto dia. Jaebé desafiou: “ficarei nove dias em jejum e não morrerei”. Toda tribo ficou admirada com a coragem do jovem.

Para iniciar a prova, Jaebé foi enrolado em um pesado couro de anta e ficou dia e noite sob vigilância para que não fosse alimentado. A moça chorava e implorava à deusa Lua que o mantivesse vivo.

Na última noite da prova, o pai da moça ordenou: “vamos ver o que resta do arrogante Jaebé”. Quando abriram o couro, o jovem saltou ligeiro. Seus olhos brilharam e seu sorriso tinha uma luz mágica. Ninguém acreditou quando, ao ver sua amada, o jovem se pôs a cantar como um pássaro enquanto se transformava, aos poucos, em uma pequenina ave. E naquele momento a moça, tocada pelos raios do luar, também se transformou em pássaro. Ambos voaram e desapareceram pela floresta.

Gostaram? Viram como o joão-de-barro é realmente um pássaro inteligente e devemos respeitá-lo, bem como o seu belo ninho?