Muito além do quindim: doces da Fenadoce carregam memórias, tradições e histórias de vida

Preferências dos visitantes vão dos clássicos da doçaria pelotense, como o quindim, às criações mais recentes, mas todas têm algo em comum: despertam lembranças que ultrapassam o sabor. (Foto: Rafael Takaki)

Escolher o doce favorito na Fenadoce pode parecer uma tarefa simples, mas, para muitos visitantes, a decisão passa menos pelo paladar e mais pelas memórias. Entre receitas centenárias e novidades que surgiram nos últimos anos, cada doce acaba se tornando parte da história de quem visita a Feira.

Para a jornalista Letícia Vieira, o preferido continua sendo um dos maiores símbolos da tradição doceira de Pelotas: o pastel de Santa Clara.

Mais do que o sabor, o que a encanta é a história por trás da receita. “Gosto muito da história das freiras do Convento de Santa Clara, em Coimbra, que desenvolveram a técnica de esticar a massa até ela ficar extremamente fina. Isso torna o doce ainda mais especial”, conta.

Ela também destaca que os doces tradicionais sempre a surpreendem pela simplicidade dos ingredientes. “Na modernidade, a gente acaba associando doce ao chocolate e ao leite condensado. Os doces tradicionais de Pelotas mostram que apenas ovos e açúcar conseguem criar sabores incríveis”, afirma.

Entre as receitas mais recentes, no entanto, há espaço para outro favorito: o bombom misto.

“Hoje ele me traz muita nostalgia. Durante a faculdade, na Universidade Federal de Pelotas, eu comprava esse doce no bar da UFPel. Sempre que como, lembro daquela época”, diz.

Uma Feira que representa a cidade

Embora tenha participado da Fenadoce apenas uma vez, em 2023, quando trabalhou na assessoria de imprensa do evento, Letícia afirma que a Feira deixou marcas que vão muito além da gastronomia. “O que mais me chamou atenção foi perceber como a Fenadoce representa a cultura de Pelotas. Parece que a cidade inteira se mobiliza para receber os visitantes e mostrar suas tradições”, comenta.

Letícia já visitou e trabalhou na Feira, sempre ao lado de seu doce favorito: o pastel de Santa Clara (Foto: Divulgação)

Entre as lembranças daquele período, uma reportagem produzida durante o Dia dos Namorados permanece viva na memória. “Encontrei casais que estavam no primeiro encontro e outros que comemoravam mais de 60 anos juntos. Era bonito perceber quantas histórias de amor existiam dentro da Feira”, relembra.

Ela também destaca o ambiente lúdico do evento, com personagens, corte oficial e a ambientação inspirada no Mercado Público. “A Fenadoce muda até o ritmo da cidade. Durante o evento, ela vira assunto em qualquer conversa e movimenta o cotidiano de Pelotas”, ressalta.

Uma ponte entre Pelotas e o mundo

Se para Letícia um doce desperta lembranças da faculdade, para o analista de dados Eric Ho, o quindim representa um elo entre culturas e gerações.

Filho de mãe paranaense e pai chinês, Eric cresceu em uma família onde o consumo de doces não era um hábito comum. “Meu pai sempre dizia que os doces brasileiros eram doces demais”, conta.

Porém, tudo mudou quando ele experimentou quindim pela primeira vez. Segundo Ho, o pai, Hui Siu Ho, imediatamente associou o sabor a um doce preparado pela avó, na China, feito com ovos e açúcar. “Ele dizia que lembrava muito um doce que a mãe dele fazia quando ele era criança. Apesar de serem apresentados de formas diferentes, a base era muito parecida”, relata.

A partir daí, o quindim passou a fazer parte da rotina da família. “Praticamente toda semana ele comprava uma caixinha com quatro quindins para levar para casa. Eu cresci comendo esse doce por causa dele e acabei criando um carinho especial”, afirma.

Quando a tradição encontra o chocolate

Enquanto alguns visitantes preferem as receitas centenárias, outros encontram seus favoritos nas releituras da confeitaria pelotense.

Sarah pede o mesmo doce há 10 anos: um tablete de chocolate, favorito da família (Foto: Divulgação)

É o caso da também jornalista Sarah Cremonini, apaixonada pelo tablete de chocolate recheado com brigadeiro, vendido há mais de uma década por uma das doceiras da Feira. “Sempre gostei mais de doces com chocolate do que dos tradicionais. Brigadeiro, beijinho e chocolate sempre foram meus favoritos”, explica.

Ela lembra que conheceu o doce por acaso, durante uma visita com a mãe. “Um ano vimos aquele tablete na vitrine e resolvemos experimentar. Achamos diferente e acabamos adorando”, conta.

Desde então, o doce virou parada obrigatória em todas as visitas à Fenadoce. “Faz mais de dez anos que eu compro esse mesmo doce. Para mim, se eu não comer esse tablete, parece que a experiência da Fenadoce não está completa”, diz.

Doces mais procurados da Feira

Quindim: gemas, açúcar e coco ralado;
Bombom de Morango: morango, brigadeiro branco e chocolate;
Bem-casado: pão de ló, doce de leite e açúcar;
Ninho: gemas, açúcar e amêndoas;
Pastel de Santa Clara: massa fina, gemas e açúcar;
Camafeu de Nozes: nozes, leite condensado, açúcar e fondant;
Papo de Anjo: gemas, açúcar e calda de açúcar.

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