Produção recorde e preços em queda pressionam mercado de leite; 2026 começa com cautela

Oferta elevada no Brasil e no exterior derrubou remuneração ao produtor em 2025; recuperação dependerá de ajuste interno, exportações e ganho de competitividade (Foto: Divulgação)

*Com informações da Assessoria de Imprensa

O mercado brasileiro de leite encerrou 2025 sob forte pressão de oferta e preços em queda, após registrar produção recorde e elevado volume de importações. Para 2026, o cenário ainda é desafiador, embora haja sinais pontuais de recuperação no mercado interno e expectativa de crescimento global mais moderado.

No ano passado, a produção nacional de leite cresceu 7,2% em relação a 2024, atingindo patamar histórico. Ao mesmo tempo, as importações permaneceram elevadas. Mesmo com retração de 4,2% frente ao ano anterior, a balança comercial registrou déficit de cerca de 2 bilhões de litros equivalentes, puxado principalmente pelo leite em pó.

A combinação desses fatores gerou sobreoferta no mercado doméstico, pressionando o preço ao produtor. Dados do Centro de Inteligência do Leite (Cileite), da Embrapa Gado de Leite, indicam que, em dezembro de 2025, o valor médio pago ao produtor caiu para R$ 1,99 por litro — recuo de 22,6% em 12 meses. No varejo, a cesta de lácteos teve queda mais moderada, de 3,62%.

Segundo o pesquisador Samuel Oliveira, da Embrapa, o mercado internacional iniciou 2026 com preços ainda baixos. Movimentos de alta observados no último leilão da Global Dairy Trade (GDT) devem ser interpretados como correções pontuais. A oferta global segue elevada, impulsionada por aumentos de produção em países como Argentina e Uruguai em 2025, embora a tendência seja de expansão mais modesta diante de margens apertadas e incertezas geopolíticas.

No Brasil, o ambiente macroeconômico também inspira cautela. A projeção de crescimento do PIB para 2026 é de 1,8%, abaixo do ano anterior, em contexto de juros elevados e incertezas associadas ao calendário eleitoral.

No curto prazo, a remuneração ao produtor permanece pressionada, chegando a cerca de US$ 0,36 por quilo. Ainda assim, há sinais de ajuste. O mercado spot, com negociações à vista, começou a reagir, indicando possível recomposição de preços. A valorização recente do real frente ao dólar, contudo, pode aumentar a competitividade do produto importado.
Outros fatores ajudam a compor um cenário menos adverso. A recuperação dos preços de bezerras e da arroba do boi abre oportunidade de renda adicional com venda de animais. A aproximação da entressafra também tende a influenciar a precificação do leite, com viés de alta.

Em 2025, apesar da queda nos preços ao longo do segundo semestre, a média anual ainda garantiu rentabilidade para parte dos produtores, especialmente aqueles com maior eficiência. O Índice de Custo de Produção de Leite (ICPLeite/Embrapa) acumulou alta de 3%, abaixo da inflação oficial de 4,3%, o que amortizou parte do impacto negativo.

O desempenho recente, no entanto, expôs fragilidade estrutural: o Brasil ampliou a produção acima do crescimento do consumo interno, que avançou menos de 2%. Ainda sem competitividade consistente para exportar excedentes, o setor permanece dependente do mercado doméstico.

Para os pesquisadores, a saída passa por planejamento estratégico, aumento de produtividade, redução de custos e agregação de valor. A maior tecnificação e profissionalização, especialmente em grandes fazendas, já indicam mudança estrutural na cadeia.

O acordo entre Mercosul e União Europeia, aprovado em janeiro de 2026 e ainda sujeito a etapas de ratificação, pode abrir oportunidades em nichos de maior valor agregado. Mais do que impacto imediato nas exportações, especialistas avaliam que a adequação aos padrões europeus pode elevar o nível sanitário e tecnológico do setor, ampliando o acesso a mercados mais exigentes.

Diante de margens apertadas e mercado volátil, 2026 exigirá eficiência e estratégia para que o produtor brasileiro mantenha competitividade em um cenário de oferta abundante e preços sensíveis à dinâmica global.