Agricultor catarinense transforma tobata em colheitadeira de fumo

“Matirde” é uma máquina robusta, construída por Nilton Oliveira Francisco com base em uma tobata e adaptada para o ato de apanha do fumo. (Foto: Divulgação)

Nada como um produtor para saber quais as principais dificuldades no seu sistema produtivo e buscar as soluções para os problemas. Se for dotado de um espírito inventivo, como o do produtor catarinense Nilton Oliveira Francisco, o resultado pode se transformar em algo inovador, como a máquina auxiliadora da colheita de tabaco, batizada carinhosamente de “Matirde”.

Ele conta que pegou uma “tobatinha” inteira, um microtrator de tração muito usado na agricultura familiar, aproveitou a mecânica como base e construiu em cima dela o chassi de um triciclo para colheita de fumo. A transmissão continuou a ser feita por alavanca, mas de forma mais ergonômica. “Você aciona para parar uma roda, a outra gira, a máquina faz a volta no meio da lavoura”, explica o produtor. Segundo ele, na frente, colocou um volante com roda “louca”, facilitando a manobra. O resultado era uma espécie de tobata alongada, com estrutura de ferro, aço, bancos e plataforma de colheita para o trabalho em linha.

A notícia sobre a invenção se espalhou pela região produtora de tabaco dos três estados do Sul — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — e transformou o negócio da família de fumicultores a agroindústria familiar. Na Zona Sul do Estado, os produtores de fumo aderiram à ideia, com máquinas presentes em propriedades de Pelotas, São Lourenço do Sul, Canguçu, Arroio do Padre, Turuçu, além de outras cidades do Estado.

Com isso, nasceu a Irmãos Francisco Máquinas Agrícolas, instalada na propriedade da família, no interior de Araranguá, sul de Santa Catarina. Além do inventor e a esposa, integram a empresa os seus três filhos Gabriel, Moisés, Nádia e o esposo dela, Robson, cada um com sua atribuição. A máquina, que buscou uma solução para a dor nas costas decorrente da atividade de apanha do fumo, resolveu outros problemas como o calor excessivo durante a atividade de colheita, a falta de mão de obra, além de gerar economia e redução de custos.

História de uma vida toda

Ele conta que trabalhou em lavoura de fumo da família desde cedo. Na década de 1970, a família recebeu uma das três primeiras máquinas de colher fumo importadas do Canadá por uma fumageira, um equipamento avançado para a época, com sistema hidráulico, comandos remotos e solução completa para a colheita e acabamento. A máquina da família, no entanto, foi a única a continuar trabalhando, pois o espírito inventivo do produtor resolveu o problema de reposição de peças inexistentes no país. Quando a manutenção dependia de peças específicas, junto com o torneiro, explicava o que precisava e juntos criavam peças sob medida.

Em 2000, ele saiu da sociedade que era com os seus irmãos para exercer a função de secretário de Agricultura do município, mas ao término do mandato voltou para a agricultura e a plantação de fumo, desta vez com os filhos. Sem a ajudinha da máquina, a colheita do fumo era feita no braço, debaixo de sol, carregando peso e forçando a coluna.

Então surge a ideia de transformar a tobata em colheitadeira.

Não demorou para que a notícia sobre a máquina de colher fumo se espalhasse e os primeiros pedidos de produtores vizinhos surgissem, estes que se entusiasmavam ao ver a invenção funcionando. Os antigos galpões de fumo da propriedade viraram oficina e aos poucos se transformou em indústria. De uma máquina ao mês, passou a fazer duas por semana e a empresa precisou contratar funcionários para dar conta de tantos pedidos. A partir de 2020, foram fabricados 15 modelos diferentes, de acordo com as necessidades de cada produtor e dos terrenos em que ia ser usada. O motor, segundo ele, de 12,9 CV de potência é extremamente econômico e requer em torno de cinco litros de diesel por dia para o trabalho.

O conforto é uma outra vantagem, já que a máquina é coberta por uma lona que protege os colhedores e o operador contra o sol forte do verão. Além disso, o trabalho é realizado sentado em bancos de espuma injetável e capacidade para quatro pessoas. A capacidade de carga vai de cerca de 40 até 96 trouxas de fumo. A máquina pode trabalhar de três a cinco linhas e pode ser utilizada também no plantio, com plantadeira opcional de duas linhas e capacidade para 45 mil mudas por dia. Pode também ser utilizada na aplicação de defensivos, como inseticidas e outros produtos específicos para a cultura.

No começo precisou vender o carro da família para investir em peças e continuar produzindo. Estava seguro de que a máquina seria reconhecida e teria mercado. O preço atual de mercado varia entre R$145 a R$ 195 mil. As fumageiras também acreditaram e incentivam a mecanização da atividade e oferecem financiamentos, muitos sem juros.

Segundo Francisco, já existem empresas copiando o conceito da Matirde, o que lhe dá a certeza de que a invenção é boa. “Se estão copiando, é porque a máquina realmente resolveu um problema que muita gente tinha”, finaliza.