
O tabaco é uma das principais produções agrícolas de São Lourenço do Sul e depende fortemente do clima. Chuvas no momento certo podem garantir uma safra satisfatória, enquanto estiagens, granizo e ventanias ameaçam o rendimento e a qualidade das lavouras. Para os agricultores, o sucesso não depende apenas do trabalho na plantação, mas também de um pouco de sorte.
No perímetro rural do município, o cultivo de tabaco é a principal fonte de renda de mais de 3,8 mil famílias, concentrando-se em pequenas e médias propriedades. A atividade exige meses de trabalho intenso e envolve técnicas que foram se modernizando com o tempo, como o uso de estufas elétricas e o plantio em folhas soltas. Apesar das mudanças e da mecanização parcial, os produtores continuam enfrentando desafios climáticos e de mão de obra, mostrando resiliência para manter a tradição da fumicultura na região.
O agricultor Marcos Rogério Einhardt, da localidade de Fortaleza, no 1º distrito, trabalha sozinho na lavoura de cerca de 39 mil pés de fumo, recorrendo ao sistema de troca de serviço para realizar todas as etapas da produção. A expectativa é que a colheita supere sete mil quilos. “Ainda não comecei a trabalhar com o fumo seco no galpão. A colheita acabou recentemente e vou dar um descanso para o corpo antes de começar essa próxima etapa”, explica.

Com a safra de 2025/2026 avaliada em “muito positiva, Einhardt faz um contraponto com a anterior, que lhe trouxe alguns prejuízos. “Esse ano a safra foi muito boa pra mim, diferente da anterior, que foi ruim devido à falta de chuva. A produção atingiu a minha expectativa, dentro da média do que plantei, e com qualidade boa”, diz. Ele reforça que parte desse sucesso está ligado a importância de investir em adubação verde, calcário e outros insumos, ações que melhoraram a qualidade do tabaco, sem depender exclusivamente do clima.
O produtor iniciou no cultivo ainda jovem, ajudando seus pais, e retornou à atividade após um período afastado. Com o tempo, o formato da produção mudou: estufas elétricas substituíram as convencionais, o fumo passou a ser colocado em grampos ou em folhas soltas e algumas exigências das fumageiras, como as manocas, foram eliminadas. “Hoje é mais rápido e prático, e isso permite que eu dedique tempo a outras atividades, como milho e criação de gado”, conta. Questionado sobre a próxima safra, Einhardt pretende manter a produção atual, sem aumentar, devido à falta de mão de obra, o que, segundo ele, pode ameaçar a continuidade da produção no futuro.
Adversidades podem minar o lucro
Enquanto isso, no 3º distrito, o casal Vanessa e Carlos Miguel Jeske, que trabalha com tabaco há três anos, enfrenta desafios diferentes. Com uma propriedade pequena, eles plantaram cerca de 70 mil pés de fumo, divididos em remessas, conciliando a produção com os cuidados da filha Sophia, de um ano. “A primeira remessa foi razoável, mas a segunda sofre muito com a falta de chuva. Já imaginamos que a produção vai ser menor do que esperávamos”, relatam.

O casal também aponta dificuldades com a limpeza das lavouras, devido ao aumento de ervas daninhas resistentes a herbicidas, que exigem capina manual e consomem tempo e esforço. Para a próxima safra, planejam iniciar o plantio mais cedo, aproveitando o período de maior precipitação e buscando melhorar o rendimento. Apesar das adversidades, eles não pensam em abandonar a atividade e mantêm a esperança de que a próxima safra será melhor.
Segundo Geber Conrad Ehlert, coordenador de Mutualidade da Associação de Fumicultores do Brasil (Afubra), a estiagem afetou principalmente as lavouras de plantio tardio, atingindo todo o município. “O sol quente acelerou a maturação do tabaco, que perde qualidade e fica mais suscetível a pragas, o que reduz seu valor comercial”, pontua. Ele também destacou que 517 produtores foram impactados por granizo, com prejuízos significativos, mas que, de forma geral, a produção apresenta bom rendimento até o momento.
A colheita intensa nas últimas semanas, impulsionada pelo calor, deixou os agricultores sem tempo para organizar o tabaco para comercialização, fazendo com que o ritmo de venda esteja mais lento. Entre desafios climáticos e mudanças nos métodos de produção, os agricultores mostram resiliência, mantendo viva a tradição do tabaco na região.



