Mulheres rurais enfrentam desafios, mas ampliam protagonismo no campo gaúcho

No Brasil e no Rio Grande do Sul, apesar das dificuldades encontradas e avanços lentos, o cenário tem se tornado cada vez mais feminino. (Foto: divulgação)

Celebrado em 15 de outubro, o Dia Internacional das Mulheres Rurais foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para reconhecer a contribuição fundamental das mulheres na produção de alimentos, na preservação ambiental e no desenvolvimento sustentável do campo. No Brasil e no Rio Grande do Sul, apesar das dificuldades encontradas e avanços lentos, o cenário tem se tornado cada vez mais feminino.

No Rio Grande do Sul, apenas 12,2% das propriedades da agricultura familiar são chefiadas por mulheres, segundo o Censo Agropecuário de 2017. No entanto, pesquisas de campo mais recentes, como o levantamento da Emater/RS-Ascar realizado em 2022, mostram que em 37% das propriedades com Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), a responsável legal é uma mulher.

Esse é o caso de Adriana Meireles da Silva, de 46 anos, produtora rural no Assentamento Novo Arroio Grande, no interior de Arroio Grande. Agricultora desde a infância, Adriana cultiva milho, feijão, mandioca, batata-doce, morangos, hortaliças e atua na bacia leiteira. Para ela, o Dia Internacional das Mulheres Rurais representa um marco de reconhecimento. “É o reconhecimento dos direitos da mulher do campo. Me sinto privilegiada por poder comemorar toda a dedicação e esforço que fiz na minha vida”, afirma.

Adriana relata que, embora tenha acesso a assistência técnica e crédito via bancos e cooperativas, ainda há barreiras que dificultam o desenvolvimento da produção. “Nosso maior desafio é a falta de mão de obra qualificada. E também precisamos de políticas de modernização: aquisição de tratores, sistemas de irrigação, painéis solares e poços artesianos”, explica.

Além da produção, ela também atua na diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arroio Grande e participa de cooperativas locais. Segundo ela, a presença feminina nas instâncias de decisão tem crescido nos últimos anos, embora ainda exista desigualdade.

Três jornadas e pouca formalização
De acordo com João Cézar Larrosa, presidente da Federação dos Trabalhadores Assalariados(as) Rurais no Rio Grande do Sul (Fetar-RS), a data é importante para celebrar, mas sobretudo para refletir sobre o que ainda precisa avançar. “As mulheres rurais cumprem três jornadas diárias: são trabalhadoras, donas de casa e mães. Muitas vezes são o suporte financeiro da família, mas ainda enfrentam desigualdade salarial e informalidade.

Em vários casos, o marido é contratado formalmente, e a mulher trabalha sem vínculo nem remuneração”, denuncia.

Larrosa destaca que o movimento sindical tem avançado na inclusão de mulheres em cargos de liderança. Ele cita como exemplo a eleição da primeira mulher à presidência da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) a nível nacional, além de diretoras sindicais e presidentas de sindicato no Rio Grande do Sul que vêm ganhando destaque.

Mesmo com avanços, o presidente da Fetar aponta que ainda há entraves para o acesso das mulheres à terra e ao crédito rural. “O crédito fundiário continua com valores desatualizados e burocracia excessiva. Precisamos desburocratizar e adaptar os programas à realidade de quem mais precisa. A assistência técnica também precisa considerar as especificidades regionais e de gênero”, afirma.

Entre as prioridades da federação estão a abertura de vagas de emprego para mulheres, a profissionalização, a formalização do trabalho rural, salários igualitários, acesso à saúde, habitação para mães solo e segurança no campo.

Presença crescente e estratégica
Segundo dados atualizados da Embrapa e do IBGE, cerca de 1,7 milhão de propriedades rurais no Brasil são dirigidas por mulheres — o que representa 31% do total de estabelecimentos. Este número mais que dobrou em relação ao Censo de 2006. Ainda assim, elas comandam áreas menores: em média, 48,8 hectares, contra 94,9 hectares das propriedades sob gestão masculina.

Um futuro mais justo e com mais oportunidades
O fortalecimento das mulheres rurais é fundamental não apenas para a equidade de gênero, mas para garantir a sustentabilidade da produção de alimentos no Brasil. Para Adriana, o caminho passa por mais investimentos, políticas públicas eficazes e reconhecimento social. “As mulheres estão ocupando mais espaços, mas ainda temos um longo caminho. O que queremos é produzir com dignidade e respeito, com acesso às mesmas oportunidades que os homens têm. A nossa força está na terra, mas também na organização e na união”, conclui.