Banana Split

Ciro José Mombach, médico. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Por Ciro J. Mombach

Médico

Todos nós temos lembrança de algum sabor especial. A minha é de pão de milho com chimia de melado de cana e requeijão (schmier e Frischkase) na casa de meus avós em Bom Princípio. A dela é de banana split, da Pacolan, em Porto Alegre.

Um sabor, para se tornar inesquecível, precisa de um lugar, cercado de pessoas especiais, além daquela comida memorável. Assim era na casa de meus avós. A cana, o milho e o leite vinham da gleba em que viviam. Ainda criança, achava esquisita aquela junta de bois girando em círculo, movendo dois cilindros que amassavam a cana, e do líquido espumoso que recolhiam em balde. Levado ao fogo por horas a fio e com o acréscimo de misteriosos ingredientes, se transformava na densa, dourada e desejada chimia de cana.

O requeijão tinha como ritual talhar o leite recém-ordenhado e pendurar em um saco branco que ficava pingando o soro a noite inteira. De manhã, já era requeijão. O pão de milho era assado no forno de tijolos perto da casa. Pão de milho, chimia e requeijão se encontravam na mesa do café da manhã. Dois enormes bancos de madeira sem encosto cercavam a mesa rústica. Após intermináveis rezas em alemão, me serviam uma generosa fatia daquele pão cheio de grandes poros, amarelo e com a casca preta, coberto de espessa camada de chimia e requeijão. O elástico do pão, o doce da chimia e o azedinho do requeijão se combinavam em uma inesquecível explosão de sabor.

Ela ia a Porto Alegre com o pai e a mãe algumas vezes por ano. Passavam na Louro para algumas roupinhas, na Dab Dab para uns poucos tecidos e terminavam na Pacolan. Banana split era sempre a pedida. Vinha em uma barca de vidro, com a banana fatiada em corte ao comprido fazendo a caminha de fundo. Três bolas de sorvete: de morango, baunilha e chocolate, pousadas na banana. Morangos cercando o sorvete. Marshmallow e calda de chocolate vestindo tudo. Castanha picada aspergida por cima, e no topo de tudo, uma cereja. O geladinho do sorvete, untado pela calda de chocolate e marshmallow, contrastado com a acidez do morango, tornavam memorável o sabor.

Sabores inesquecíveis pedem repetição. Eu já desisti da busca. Ela não. Em cada cidade, sempre atenta, volta e meia aponta:

— Olha, ali fazem banana split…