O crime perfeito

Rubens Amador. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Por Rubens Amador

A cidade dormia naquela madrugada supinamente gelada enquanto ele caminhava resoluto quão solitário. O relógio público testemunhava: quatro e meia! Saíra àquela hora para comprar um medicamento, pois o filho pequeno fora acometido de terrível crise de asma. Caminhava ligeiro e seus passos ecoavam na perspectiva da rua a sua frente. A imagem do filho dispnéico, querendo beber todo o ar que pudesse – em desespero – não lhe saía da cabeça. Nem um maldito táxi. Nem um só carro para arriscar uma problemática carona. Cedo verificou que só lhe restava contar com as próprias pernas. E ele o faria o mais rápido possível, pensou aflito, corpo inundado pela adrenalina.

Súbito, como um gigantesco mapa em neon, se desenha no negrume do céu uma faísca elétrica, segundos após um estrondo ensurdecedor. “Pode ser que alguém desperte, venha à frente, e me possa ajudar se tiver uma condução” – divagou – já imaginando o longo retorno a sua casa, enquanto levantava a gola do surrado casaco de homem pobre; fisionomia preocupada. Mas ninguém apareceu para solidarizar-se com sua aflição. Aliás, para ele aquela situação não era novidade. Deu de ombros, apurou o passo mais ainda, pensando no filho que o estaria por certo esperando em agonia e sofrimento.

Nisto começou a ouvir o que lhe pareceu, a princípio, ser um grupo de malvados que o estaria apedrejando. Mas logo viu que se tratava de granizos enormes a cair do espaço. “Céu cruel e sem coração”, ruminou com amargura e revolta. Foi obrigado a procurar refúgio no primeiro vão de porta, abrigando-se o melhor que podia enquanto a catadupa de pedras geladas – enormes – caía perigosamente. Que fazer? Todo molhado e tiritando de frio, sentiu que não podia ficar ali, parado, e se deixar

agredir pelos elementos. Tentou atravessar a rua correndo, afim de se abrigar numa marquise fronteira. Mal iniciara as primeiras passadas foi atingido na cabeça por um granizo enorme e caiu. Perdera os sentidos. Em menos de 10 minutos, seu corpo estava coberto de geladas pedras, morrendo enregelado.

Vinte e cinco minutos depois, a chuva pára, como por milagre. Mais um dos muitos que, às vezes, tardam apesar dos merecimentos e das preces. Já era de manhãzinha. O degelo se dera rápido sem deixar uma só testemunha da tragédia. Um sol esplendoroso agora se levanta, a tudo indiferente, apesar da sua majestade. A natureza praticara o crime perfeito, na pessoa daquele homem sem sorte.

– “Na certa foi assalto…”, disse a mulher magrinha que se espremia entre os muitos curiosos em torno do corpo inerte, ferimento enorme na fronte pálida; braços em cruz; como a querer a abraçar a Esperança, que não chegara para ele. Nem chegaria, jamais.