A coluna de hoje é colaborativa! O texto que vocês lerão a seguir é uma reprodução parcial de uma obra escrita por mim e pelos queridos colegas Diego Weiman dos Santos, Laura Silva Costa e Mauro Cesar Araujo Geri.
A importância de estudar as mulheres clássicas do pensamento social
A representatividade e o protagonismo feminino é algo digno de ênfase quando se trata do estudo de movimentos sociais.
Por si só, a importância desse debate já possui grande relevância dentro e fora do âmbito acadêmico, pelo simples fato da necessidade de combater o sexismo. O porquê de incluir o pensamento de autoras femininas é expressado de diversas formas vivenciadas no cotidiano, sendo comum existir nos currículos obras escritas majoritariamente por homens, desconsiderando a relevância de inúmeros trabalhos escritos por mulheres que enfatizam a importância de possuirmos uma visão diferenciada da que conhecemos a respeito do mundo, levando em consideração que costumamos concentrar nossas perspectivas em torno da predominância da literatura masculina.
A vida e obra de Harriet Martineau, por exemplo, é digna de destaque nesse diálogo político-social. Considerada a primeira socióloga, foi pioneira em analisar as estruturas da sociedade. Mas por que não a conhecemos?
O preconceito que estrutura a sociedade se encontra enraizado ainda no pensamento social moderno. A falta de protagonismo feminino ainda nos dias atuais expressa de forma escandalosa o que antes, em séculos passados, diversas mulheres já tentavam combater.
É preciso abraçar ideias de figuras contemporâneas que se destacam nessa luta, mas não esquecer das que vieram antes. Todas possuem raízes de antecedentes que lutaram e se manifestaram antes de denominar um nome à causa.
Bell Hooks, em seu livro “O Feminismo é para todo mundo: Políticas Arrebatadoras” nos expressa seu desejo de construir uma sociedade com base nos pensamentos onde mulheres, homens e crianças possam compreender o conceito do movimento independente de classe, raça ou gênero. A autora acreditava que, ao expressar o que essencialmente o feminismo prega, todos poderiam se beneficiar dele, atingindo amplamente os diferentes eixos da sociedade em um ambiente de equidade.
Para Hooks, a ideia primordial do movimento no futuro deveria ser pensar em uma educação para criar uma consciência ativa e tão logo, se libertar das opressões do sexismo e de atitudes excludentes, mudando não só a perspectiva, mas também o coração.
Outro termo que deve ser ressaltado para compreender essa problemática é o de “interseccionalidade”. O referido conceito nos permite compreender melhor as desigualdades e, consequentemente, as discriminações e opressões de nosso contexto social. É um recurso crítico importante analisarmos como se dão as relações sociais de gênero, raça e classe, assim como as adversidades enfrentadas para que as políticas públicas funcionem de maneira mais eficaz.
O papel da mulher na sociedade atual ainda não ocupa o espaço devido, sendo notória a falta de protagonismo feminino na política atuante, por exemplo. Basta analisarmos a proporcionalidade dos cargos ocupados por mulheres comparados à parcela feminina da população.
Também é importante ressaltar que, antes de 1949, quando Simone de Beauvoir escreveu “O Segundo Sexo”, uma diversidade de mulheres formavam uma rede de escritoras, ativistas, intelectuais, educadoras, sufragistas e se posicionavam na luta pelos direitos das mulheres que se comprometiam em enfrentar qualquer discurso a favor do sexismo e de toda forma de opressão.
Anna Julia Cooper foi outra mulher inspiradora na causa. Também possuía uma visão interseccional, antes mesmo do termo ganhar relevância, buscando entender as singularidades existentes na diversidade feminina. Foi uma professora renomada e uma das primeiras mulheres a conquistar o título de doutora na França, atuando em um mundo onde a segregação, o preconceito de raça e gênero, e os resquícios da escravidão se faziam presentes.
A escritora feminista nigeriana, Chimamanda Ngozi Adichie, aponta os perigos de uma “história única” e eurocentrada em seu TED Talka do ano de 2009, onde traz a reflexão de que tudo em que estamos apoiados moral, social e politicamente, é o passado que nos foi contado sob uma perspectiva específica.
Esta visão está enraizada no pensamento exclusivo do ocidente, dando ênfase às diferenças e complexando a coabitação da diversidade cultural que possuímos em sociedade, designando o povo como apenas uma coisa. Uma história contada apenas de um único olhar também envolve poder. Com isso, a autora defende que o conceito da história única tem como consequência a supressão da dignidade das pessoas, ao enfatizar as nossas diferenças e problematizar nossa convivência como humanidade.
Por fim, trago uma reflexão para esse final de ano: quantas obras escritas ou produzidas por mulheres você leu, ouviu ou assistiu em 2023?




