São Lourenço do Sul: Preços pagos no leite não acompanham aumento do custo de produção

Atualmente, são ordenhadas 43 vacas em dois turnos na propriedade lourenciana (Foto: Helena Schuenemann)

Os produtores de leite estão passando por um momento conturbado. A constante valorização do dólar em relação ao real tem influenciado o aumento do custo de produção do leite. Os fertilizantes e outros insumos utilizados têm ficado mais caros, assim como as rações, em que a valorização considerável e contínua dos grãos, como a soja, tem aumentado os valores para compra. Por outro lado, o enfraquecimento da demanda por lácteos devido ao contexto de diminuição do poder de compra do brasileiro tem desvalorizado o valor do leite pago aos produtores.

Segundo dados do Boletim do Leite de março do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) da Universidade de São Paulo (USP), o Custo Operacional Efetivo (COE) da pecuária leiteira, que representa os desembolsos do produtor, teve aumento de 3,29%, em janeiro, e de 1,98%, em fevereiro. A pesquisa também aponta que o recuo no preço deve ser em torno de 2,5%, o que resultaria em diminuição de 9,8% no acumulado do primeiro trimestre de 2021.

Em São Lourenço do Sul, a produção leiteira é a principal fonte de renda de muitas famílias. O município contabilizava 1.403 propriedades leiteiras em 2017, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados pelo Observatório do Leite. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de São Lourenço do Sul (STAF), Valnei Bröse, ressalta que nos últimos anos muitos produtores deixaram de vender leite, mas aqueles que continuam, estão investindo e aumentando a produção a cada ano. Isso acontece porque as exigências legais para a produção têm se tornado mais severas, e algumas propriedades que não tinham o leite como renda principal não conseguiram acompanhar e fazer as mudanças exigidas, migrando para outras culturas, como o tabaco e a soja. “Já outros produtores optaram por manter duas ou mais culturas, o que é muito mais saudável dentro da propriedade, pois há mais diversidade”, explica o sindicalista.

Seguindo este princípio de que a diversidade é a opção mais rentável para uma propriedade, a família Schuenemann, de Picada Moinhos (6º Distrito), optou por qualificar a produção leiteira, sem deixar de produzir tabaco e soja. Atualmente, são ordenhadas 43 vacas em dois turnos. Ao todo, a propriedade conta com 82 animais e, ainda, foram plantados 52 hectares de soja e 80 mil pés de fumo. Eles explicam que assim conseguem equilibrar as contas, pois uma cultura paga os gastos que tem com as outras, um exemplo é a soja, que está com um valor alto, paga o farelo de soja utilizado como complemento na alimentação das vacas. “Hoje o leite paga os custos sozinho, mas quem ajudou nos investimentos foi o tabaco”, afirma Ruimar Schuenemann, dono da propriedade.

Família Schuenemann optou por qualificar a produção leiteira, sem deixar de produzir tabaco e soja (Foto: Catarine Thiel/JTR)

Além disso, a produção leiteira garante ao produtor uma renda mensal, diferente das demais. Essa estabilidade, somado ao amor pelas vacas, faz com que a família continue investindo. Eles explicam que os principais problemas são no verão, pois o período com temperaturas mais quentes causa desconforto nos animais, que em consequência diminuem a sua alimentação, têm mais dificuldades de reprodução e não se movimentam no pasto. Para isso, eles precisam diferenciar as dietas dos animais, garantindo que eles mantenham uma alimentação equilibrada e não interfira na qualidade do leite.

Para contornar esses problemas, o próximo objetivo é construir um free stall, uma estrutura em que os animais ficam confinados em um ambiente confortável. Nele, a alimentação é trazida até o animal, e é possível controlar a temperatura, este conforto térmico auxilia no bem-estar animal, e consequentemente, no aumento da produção de leite.

Todos estes investimentos já feitos, e os que ainda estão sendo planejados são pensados para o conforto dos animais e aumento da produtividade. Schuenemann comenta que ele espera que tudo isso seja recompensado, pois o leite é um alimento completo, e não valorizado da forma que deveria.

Bröse explica que os sindicatos, através da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (FETAG), buscam identificar quais são os principais gargalos da produção, os problemas de mercado, e outros para que o leite seja valorizado. O trabalho da entidade junto ao Instituto Gaúcho do Leite (IGL) visa apontar novos mercados e as reformas na questão tributária. “Enxergo que a abertura de fronteiras é um dos grandes desafios para nossa produção, pois precisamos levar para fora, e hoje esbarramos nessa carga tributária”, explica.

Valorizada ou não, a certeza é de que as vacas vão continuar produzindo o leite, pois esta cultura diferente das outras, não possui tempo de plantio ou de colheita, e segue sem parar todos os dias do ano.

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