Jovens mantêm viva a tradição da fumicultura com inovação e orgulho em São Lourenço do Sul

Édinis Grellert é a terceira geração da família a trabalhar na produção do tabaco. (Foto: Arquivo pessoal)

Na localidade de Santa Tereza, zona rural de São Lourenço do Sul, o jovem casal Édinis Grellert, 26 anos e sua esposa Micaela Peglow Grellert, 24 anos, segue cultivando uma tradição que atravessa gerações: a fumicultura. Em meio aos desafios da sucessão rural e da escassez de mão de obra no campo, os dois escolheram permanecer na propriedade da família e apostar na produção de tabaco como uma forma digna e viável de viver da terra.

A história de Grellert com o tabaco começou antes mesmo de seu nascimento. Foi o avô quem iniciou o cultivo na propriedade, em uma época sem energia elétrica, sem tecedeiras e sem qualquer tecnologia ou conhecimento técnico. “Ele plantava cerca de 30 mil pés, tudo de forma manual e orgânica, sem uso de defensivos. Era uma realidade muito diferente da de hoje”, relembrou.

Com o passar dos anos, a produção aumentou. Após os 18 anos, Grellert passou a trabalhar lado a lado com os pais e a irmã, chegando a cultivar 130 mil pés de tabaco em um único ano. No ano seguinte, com a saída da irmã da propriedade, o número caiu para 100 mil pés. Ele interrompeu os estudos antes de concluir o Ensino Médio para ajudar os pais, diante das dificuldades enfrentadas. “Já tinha essa vontade de dar continuidade à fumicultura. Sempre foi um sonho meu manter essa tradição viva aqui na propriedade.”

Produtor usa redes sociais para mostrar o cotidiano da atividade. (Foto: Arquivo Pessoal)

A escolha pelo tabaco também foi estratégica. Com uma área de terra limitada, o cultivo de grãos se tornaria inviável economicamente. “Para ter retorno com grãos, é preciso plantar grandes áreas. Já com o tabaco, conseguimos bons resultados mesmo em áreas menores. Isso permite que a gente se mantenha durante todo o ano”, explica o jovem produtor.

Hoje, o casal cultiva cerca de 80 mil pés — uma redução motivada principalmente pela dificuldade em encontrar mão de obra, um dos principais desafios da fumicultura atual. “Esse é um dos motivos pelos quais muitos estão deixando de produzir”, afirma Grellert.

O exemplo do casal representa a realidade de milhares de famílias no sul do Brasil. Segundo dados da Afubra, o país é o segundo maior produtor mundial de tabaco, com uma produção anual de cerca de 541 mil toneladas. Desse total, aproximadamente 508 mil toneladas são cultivadas nos três estados do sul. Em São Lourenço do Sul, a força da fumicultura se reflete nos números: só na safra 2024/2025, são 3,8 mil famílias envolvidas diretamente com a produção, ocupando 7,2 mil hectares no município.

Redes sociais para combater o preconceito contra a atividade

Além de manter a tradição, Grellert e Micaela buscam desmistificar o preconceito que ainda cerca a fumicultura. Por meio de vídeos nas redes sociais na página criada por eles “Piá do Interior”, compartilham o dia a dia da lavoura e mostram a importância do conhecimento técnico para seguir na atividade. “Hoje, precisa de estudo para continuar. A gente tenta mostrar isso: que é um trabalho digno, que exige responsabilidade, dedicação e técnica. Queremos mostrar o lado bom da produção.”

Para outros jovens do meio rural, Grellert deixa uma mensagem de incentivo: “Aproveitem a fase boa e deem continuidade ao que já foi construído. Ir para a cidade pode parecer uma solução, mas também não é fácil. Muitas vezes, o melhor caminho é investir no que já temos e além disso, no campo sempre é possível conciliar o tabaco com outras culturas e alimentos para o consumo próprio.”

A história de Grellert e Micaela reforça que o futuro da fumicultura passa pelas mãos de quem acredita na força da terra, na sabedoria das gerações passadas e na capacidade de inovar sem abandonar as raízes.