Uma artista em movimento

Cena do filme “Eu Não Sou Um Robô”, com Gabriela interpretando a personagem Tânia. (Foto: Lívia Pasqual)

Por Gabriela Borges

Desde criança, Gabriela Lamas sabia que queria ser artista. Hoje, é. Além da arte ser o seu trabalho, é a partir de filmagens, trabalhos manuais, composições, cantos e roteiros que ela se expressa e busca entender a si e aos outros, dando vida aos vários “universos” – como fala – que estão presentes em nossa sociedade.

Destaque no 49º Festival de Cinema de Gramado, a cineasta foi premiada em quatro categorias da Mostra de Curtas Gaúchos com “Eu Não Sou Um Robô”. Ela e sua equipe conquistaram os kikitos de melhor Roteiro; Fotografia; Direção de Arte e Filme pelo Júri da Crítica. O evento ocorreu entre os dias 13 e 21 de agosto de maneira virtual.

O filme, idealizado em conjunto com Maurílio Almeida e Felipe Yurgel, conta a vida de Tânia. Trabalhando de casa, Tânia, interpretada por Gabriela, encontra dificuldades em responder um teste de reCAPTCHA (verificação de sites que detecta se o usuário é humano), e começa a questionar sua vida e o sentido da própria humanidade.

A vontade de discutir o que é humano e o que é virtual já existia, mas foi a pandemia que fez o grupo idealizar o roteiro no formato em que foi gravado, pensando sobre realidade virtual e contato por telas.

Gabriela em ação como Tânia. (Foto: Lívia Pasqual)

Trajetória como cineasta
Lourenciana “de nascimento e de criação”, como brinca, Gabriela mora em Porto Alegre. Formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), atualmente é mestranda em Antropologia pela mesma instituição.

Em 2015, lançou seu primeiro filme, “Sesmaria”, que foi amplamente reconhecido pela crítica. “Ele foi feito com os meus avós, no interior. É uma ficção, mas que fala de assuntos bem reais, como o alto índice de suicídios em colônias fumicultoras, especialmente em colônias de origem pomerana e alemã, como é a nossa”, explica.

Aceito em vários festivais pelo Brasil, foi a partir de “Sesmaria” que Gabriela teve a oportunidade de conhecer algumas regiões do país e fazer sua primeira viagem de avião. “Grande parte da minha vida se movimentou por causa desse filme”, afirma.
Em 2017, dirigiu “Demônios de Virgínia”, que rediscute aspectos sobre depressão, direcionando o foco para a realidade de jovens e artistas.

A vontade de se aprofundar em Antropologia surgiu na busca de pensar linguagens audiovisuais conectadas com variadas formas de vida. “Eu pensava o que eu podia estudar para me fazer entender melhor as pessoas. Como olhar para elas sem menosprezá-las, estigmatizá-las e sem colocar nenhum tipo de preconceito em cima do olhar do outro”, assinala.

Ela considera que a reflexão sobre a construção de imagens é fundamental para realizadores audiovisuais. “Cada vez que colocamos a câmera em um lugar, não vai ser mais a realidade”, alerta.

É a partir desse flerte com o real que questiona a potência de utilizar estratégias ficcionais para travar debates sociais. Segundo ela, festivais nacionais têm cada vez mais valorizado produções que além da estética, tragam discussões importantes em suas narrativas.
Gabriela aponta que a desigualdade de gênero na indústria cinematográfica também têm sido pauta dos eventos. Para a cineasta, a imposição de um lugar social da mulher é algo que prejudica as artistas. “Com certeza é algo que atrapalha na criação”, afirma.

“Eu sentia que colegas homens podiam ser diretores e eu não podia. Ou minhas ideias não valiam, ou eu tinha que estar com a presença de algum homem que dissesse que elas são boas”, relata. Com o apoio às diretoras mulheres, ela sente que a realidade vem se transformando. “Isso faz com que eu tenha mais vontade de dirigir”, diz, apontando que o processo é lento e a representatividade, fundamental.

Pela valorização do artista
“Eu Não Sou Um Robô” foi realizado sem qualquer tipo de financiamento. A conquista em Gramado é, conforme Gabriela, o reconhecimento do envolvimento de toda a equipe. Ela ressalta a necessidade de que projetos audiovisuais sejam remunerados e o artista valorizado. Atualmente, para conseguir realizar as suas produções, também trabalha como diretora de arte em ações publicitárias e curtas-metragens.

Com a desvalorização do setor artístico no cenário municipal e regional, aponta que a principal forma de captação de recursos tem sido a partir de editais de promoção à cultura, cada vez mais escassos. Assim, incentiva a construção de coletivos locais, capazes de pensar projetos em conjunto.

Junto de Maurílio e Felipe, Gabriela criou recentemente a Produtora 3 de 5. Como próximo passo, o trio pretende investir em uma produção comercial pensada em um novo formato, como longa-metragem ou série.

Uma vida para a arte
“Eu não sei se eu sou diretora, se eu sou roteirista, se eu sou cineasta, a atriz ou a cantora, mas eu me sinto uma artista. Eu vou fazendo, daí o que der certo, vai dando certo, e o que der errado, eu me diverti”. É assim que Gabriela resume sua atuação multifacetada na área da cultura.

Ela conta que já se questionou muitas vezes pelo fato de fazer coisas simultaneamente, mas com seu amadurecimento foi percebendo o quanto tudo se complementa e lhe constitui. Mas para isso, foi preciso assumir sua vulnerabilidade. “Coragem é uma das coisas mais importantes para quem quer trabalhar com arte. Eu acho muito importante a gente ter vontades e coragem”, acrescenta.

Hoje, sente orgulho da sua trajetória. Quando “Eu Não Sou Um Robô” foi selecionado para o Festival de Cinema de Gramado, Gabriela pensou sobre a importância de valorizar essa conquista, que reflete o seu trabalho até aqui. “A vida da gente é tão complicada e a gente está sempre correndo atrás de dinheiro (…) Mas se eu fosse uma criança em São Lourenço e eu visse eu ou outros artistas no jornal, eu ia ficar pensando ‘Nossa, que incrível! Dá para fazer!’”, finaliza.

Dá para fazer sim, Gabriela.

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