Pelotas: Depois de 16 anos, as cortinas voltam a se abrir

Fechado desde 2010, um dos teatros mais antigos do Brasil será reaberto no aniversário de 214 anos da cidade e devolvido a uma geração que cresceu sem viver seu palco. (Foto: Tobias Bernardo)

Por mais de uma década e meia, as luzes permaneceram apagadas, os camarins silenciosos e o palco sem aplausos. Em uma cidade que construiu parte da própria identidade pela cultura e pelo patrimônio histórico, o fechamento do Theatro Sete de Abril deixou um vazio difícil de medir, mas fácil de sentir. No dia 7 de julho, aniversário de 214 anos de Pelotas, esse silêncio chega ao fim.

Após mais de 16 anos fechado para apresentações com público, o Sete voltará a abrir as portas em uma cerimônia que marca não apenas a conclusão de uma longa restauração, mas o retorno de um dos principais símbolos culturais da cidade. O anúncio foi feito pelo prefeito Fernando Marroni (PT), na última semana.

Segundo o chefe do executivo, a intenção foi transformar o retorno do teatro em um presente para a cidade. A programação especial do aniversário contará com atividades culturais e esportivas entre os dias 4 e 12 de julho. No dia da reabertura, estão previstos o cerimonial oficial e apresentações de Vitor Ramil e da DJ Helô.

Para o novo diretor do Theatro, Alexandre Mattos, a reabertura do Sete não representa apenas a entrega de um prédio restaurado, mas o reencontro de Pelotas com uma parte fundamental de sua história, memória e identidade cultural. “Sua verdadeira grandeza está nas pessoas, na memória dos pelotenses e nas experiências vividas ao longo de gerações que fizeram deste teatro um espaço de encontro, aprendizado e pertencimento. Agora é um momento de celebrar a força desta cidade que compreende que cultura não é luxo, não é acessório e não é privilégio. É aquilo que nos permite compreender quem somos, de onde viemos e para onde desejamos caminhar enquanto sociedade. Cultura é um direito. Pelotas exigiu o seu direito de volta e agora vai tê-lo”, reflete o diretor.

Um teatro que atravessou o século

Poucos espaços carregam uma trajetória tão conectada à história da cidade. O Theatro começou a ser construído ainda na década de 1830, na então Freguesia de São Francisco de Paula, financiado pela riqueza produzida pelo ciclo do charque e pela burguesia local. Foi oficialmente inaugurado em 2 de dezembro de 1833 e tornou-se o primeiro teatro do Rio Grande do Sul.

Ao longo dos anos, recebeu visitas de Dom Pedro II, da Princesa Isabel, companhias internacionais e foi palco para nomes que marcaram a cultura local e nacional, como o poeta Lobo da Costa e a soprano pelotense Zola Amaro. Sua importância histórica levou ao tombamento nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1972.

Mas nem a relevância histórica impediu o fechamento. Em janeiro de 2010, uma vistoria identificou comprometimento estrutural no telhado e o teatro foi interditado pelo Ministério Público. O que parecia temporário acabou se transformando em mais de 16 anos de espera.

Mais do que restaurar paredes

Para a secretária de Cultura, Carmen Vera Roig, a reabertura do Theatro demonstra que preservar não significa transformar um edifício em peça de museu, mas garantir que ele continue cumprindo uma função relevante para a sociedade contemporânea. “Sua reabertura simboliza o encontro entre memória e futuro, mostrando que os edifícios históricos podem continuar sendo espaços vivos, acessíveis e fundamentais para o desenvolvimento cultural, social e econômico da cidade”, afirma.

Para ela, um dos aspectos mais bonitos do Sete é que ele retorna para exercer exatamente a mesma função para a qual foi criado há quase dois séculos: ser um espaço de encontro entre artistas e público. “Ao mesmo tempo, por se tratar de um bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), todo o processo de intervenção exigiu uma série de procedimentos técnicos próprios da restauração do patrimônio histórico. O grande desafio foi justamente conciliar essas exigências contemporâneas com a preservação do edifício histórico, adotando sempre a lógica de priorizar ao máximo a integridade, a autenticidade e os elementos originais do teatro”, explica.

Segundo a pasta, o desafio agora é devolver ao Sete sua capacidade de funcionar como equipamento cultural permanente. “A proposta é desenvolver uma programação diversificada, contemplando música, teatro, dança, audiovisual e atividades formativas. A prioridade será valorizar a produção artística local, sem deixar de receber atrações estaduais e nacionais, consolidando o Theatro como um espaço plural, democrático e permanentemente aberto à comunidade”, diz Carmen.

A aproximação de novos públicos será construída por meio de ações educativas, formação de plateias, parcerias com escolas e universidades, programação voltada às crianças, políticas de democratização do acesso e editais de ocupação artística. “O objetivo é fazer com que as novas gerações reconheçam o teatro como um espaço seu, de expressão, criação e convivência. O retorno do Sete de Abril amplia significativamente a capacidade de produção, circulação e fruição cultural na cidade. Além de oferecer um espaço qualificado para artistas e produtores, fortalece a economia da cultura, estimula a formação de públicos, atrai visitantes e reafirma Pelotas como uma das principais referências culturais do sul do Brasil”, afirma a secretária.

Na avaliação de Carmen, o Sete de Abril simboliza a capacidade de Pelotas de honrar sua história sem abrir mão do futuro. “É um patrimônio histórico que permanece contemporâneo porque continua produzindo encontros, emoções e novas experiências culturais. Ele conecta gerações, preserva memórias e, ao mesmo tempo, abre espaço para novas linguagens, novos artistas e novas formas de viver a cultura”, ressalta.

Também há expectativa de impacto econômico e urbano. A Secretaria de Turismo projeta aumento da circulação no centro histórico, especialmente à noite e nos fins de semana, com reflexos em restaurantes, hotéis, comércio e serviços. “A reabertura do Theatro Sete de Abril representa a devolução de um dos principais símbolos culturais e patrimoniais de Pelotas à população e aos visitantes. Equipamentos culturais qualificados ampliam o tempo de permanência dos turistas na cidade, fortalecem a oferta de experiências culturais e contribuem para consolidar Pelotas como um destino de turismo histórico, cultural e criativo. O teatro passa a integrar um conjunto de atrativos que inclui o patrimônio arquitetônico, os museus, a tradição doceira e os eventos culturais da cidade”, diz o secretário de Turismo, Jader Prestes.

As memórias de quem viveu o palco

Para muita gente, o Sete de Abril nunca foi apenas um prédio. A estudante de jornalismo e criadora de conteúdo de beleza e lifestyle Louise Gadret guarda no teatro lembranças da infância, quando participou de apresentações pela Escola do Ballet Dicléa. Ela lembra do encantamento que sentia ao entrar no espaço. “Teatros desde pequena me fascinam, fico encantada com a beleza e grandiosidade, amava a experiência do palco, a curiosidade do que a plateia iria achar dos espetáculos, o misto de ansiedade atrás das coxias enquanto esperava minha vez de entrar no palco com as bailarinas e o clima de animação enquanto nos arrumávamos nos camarins”, relembra.

As apresentações eram o resultado visível de meses de preparação, mas, para ela, o que ficou foram os aprendizados e os vínculos construídos nos bastidores. Louise lembra que subir ao palco era sempre um momento carregado de emoção. Para ela, o Sete de Abril foi também uma porta de entrada para a formação cultural. “Representava uma época muito linda e feliz na minha vida e também meu primeiro contato com a arte, dança, música, literatura, ópera e cultura. Além de achar desde sempre o Sete de Abril lindo, importante e histórico na cidade”, conta.

Quando o teatro fechou, ela acompanhou os anos de espera com um sentimento compartilhado por muitos pelotenses, o medo de que o retorno nunca acontecesse. “Impossível não sentir. O Sete de Abril é patrimônio histórico, um dos teatros mais antigos do Brasil e vê-lo fechado por 16 anos […] Pelotas perdeu muito no quesito cultura. Agora fico feliz que finalmente será reaberto e devolvido à população, que poderá usufruir de peças, apresentações, shows e concertos novamente. Também fico feliz com o potencial turístico que iremos ganhar na região, um teatro em pleno funcionamento movimenta hotéis, restaurantes, comércio, consegue trazer um grande público que gosta de arte. Espero ver o Sete de Abril lindamente restaurado. Com certeza virão muitas memórias felizes da época do ballet e também espero construir novas memórias”, diz.

Local já recebeu diversos artistas
ao longo de décadas. (Foto: Tobias Bernardo)

Para o músico e flautista Gil Soares, integrante do Sovaco de Cobra Trio, a história com o Sete começou ainda antes do palco. As primeiras lembranças são da infância, quando o espaço ainda funcionava também como cinema. Depois vieram os bastidores, acompanhando a irmã mais velha, envolvida com teatro, ajudava em sonoplastias e observava de perto o funcionamento dos espetáculos.

Já como músico, começou a ocupar o Sete de Abril em apresentações coletivas e em projetos que mais tarde dariam origem ao tradicional Sete ao Entardecer. Com o tempo, vieram apresentações ao lado de artistas da MPB, do nativismo e de formações instrumentais. “O Sete tem, além de uma acústica privilegiada, uma atmosfera de ‘culto à arte’, que tem a ver com sua arquitetura, naturalmente, mas também à mística de ser um palco histórico, centenário. O misto de honra e responsabilidade de pisar em um solo sagrado. Isso contamina o público sensivelmente e contribui para uma sinergia muito produtiva e necessária”, narra.

Entre tantas apresentações, uma permanece como símbolo da trajetória. Em 2007, o Sovaco de Cobra Trio lançou seu primeiro CD em um Sete de Abril lotado. Existe ainda outra coincidência que, hoje, ganhou novo significado. O produtor daquele show foi Alexandre Mattos, atualmente diretor do Theatro Sete de Abril. Durante os anos em que o prédio permaneceu fechado, Gil descreve que a sensação para artistas e público era semelhante à de um deslocamento permanente. “Todo esse tempo de portas fechadas foi uma espécie de exílio”, expõe.

Segundo ele, músicos, atores e dançarinos precisaram criar alternativas e ocupar espaços improvisados pela cidade para seguir produzindo. “Biblioteca Pública Pelotense, hall da Prefeitura, pátio da secretaria de Cultura Municipal, Fábrica Cultural…por melhor que fosse o acolhimento, só aumentava a sensação de estarmos longe de casa”, aponta. Por isso, a notícia da reabertura foi recebida como algo maior do que a recuperação física do edifício. “É um alívio e uma perspectiva muito otimista de retomada. O Sete é um templo, uma referência, uma espécie de ‘selo de qualidade’ ou lugar de pertencimento e validação das nossas expressões. Precisa estar aberto física e ideologicamente ao novo e ao tradicional. Precisa ser a Casa da Arte Pelotense! Acessível, democrático e acolhedor. Depende pra isso de uma administração carinhosa e corajosa e de uma comunidade artística igualmente engajada”, conclui.

Entre os artistas que irão marcar o retorno do teatro está a DJ Helô. Frequentadora histórica do espaço e com mais de quatro décadas de trajetória artística, ela recebeu o convite para integrar a programação de reabertura como um reconhecimento. “Para mim é um grande feito participar da reabertura de um dos maiores teatros do Brasil. Vai ser um encontro de novas gerações, inclusive de pessoas que nunca entraram no Sete de Abril”, conta.

Helô acredita que manter espaços culturais ativos significa preservar algo maior. “Manter esses espaços abertos, é manter a história de Pelotas viva, a arte e a cultura é o que nos salva. Vão ter essas novas linguagens, esse novo jeito das pessoas fazerem shows, fazerem teatro, enfim, vai ser de uma importância que só quem vai participar, só quem confia e quem gosta de cultura é que vai curtir, tenho certeza”, ressalta.

Confira a programação completa das atividades no site do Jornal Tradição Regional.

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