Polinizando o Pampa incentiva a criação de abelhas da espécie jataí para recuperar áreas degradadas

A criação racional de abelhas sem ferrão é uma alternativa de geração de renda em muitas propriedades. (Foto: Divulgação)

Não há ser vivo com papel mais importante na preservação da biodiversidade do que as abelhas. Inúmeras espécies vegetais e, consequentemente, de animais, dependem do serviço de polinização prestado por esses pequenos insetos. A sua função, garante a  propagação das plantas, torna as abelhas as principais responsáveis ​​pela existência de plantas com flores e frutos para áreas verdes, bosques e florestas do nosso planeta. A sua presença é, pois, decisiva nestas zonas que continuam a fornecer alimentos e muito do oxigênio que respiramos.

As notícias de redução de populações de insetos polinizadores e suas possíveis consequências têm sido amplamente divulgadas na mídia nacional e internacional. Sabe-se hoje que o declínio dos polinizadores ameaça a produção mundial de alimentos, portanto, a segurança alimentar dos seres humanos. No caso específico das abelhas no Brasil, sua extinção pode ser atribuída, em tudo, ao uso alarmante de agrotóxicos. O Brasil, além de ostentar a má fama de campeão mundial no uso de agrotóxicos nas lavouras, faz uso indiscriminado de agrotóxicos sistêmicos, altamente tóxicos para as abelhas. Os neonicotinóides estão entre as principais causas de morte em massa de abelhas.

Um projeto pioneiro e inovador

O Rio Grande do Sul é o maior produtor de mel do Brasil. Para fortalecer ainda mais a produção gaúcha, além de proteger a natureza, o projeto Polinizando o Pampa incentiva a criação de abelhas Jataí, uma espécie sem ferrão e tem a parceria da Secretaria do Meio Ambiente, Secretaria da Pesca, Agricultura e Cooperativismo da Prefeitura do Rio Grande com a empresa Halinski Soluções Ambientais e Estatísticas,vencedora da licitação. 

A equipe iniciou o trabalho em outubro de 2022, quando os produtores receberam capacitação teórica para a criação de abelhas. Os 15 produtores selecionados receberam de graça cada um 10 caixas com as abelhas, além de orientações sobre como cuidar das colmeias, extrair o mel e um acompanhamento durante dois anos. Além disso, o projeto também contará com Educação Ambiental nas escolas da região, jardins urbanos e diversos materiais educativos sobre abelhas.

A proposta do projeto é contribuir para a sustentabilidade na região, compatibilizando alternativas de renda para pequenos agricultores locais com a conservação da natureza.

Três regiões foram selecionadas para o projeto. Trata-se de áreas de relevante interesse socioambiental para a cidade do Rio Grande:  Reserva da Vida Silvestre Banhado do Maçarico – Unidade de Conservação (UC) estadual que está próxima da região da reserva ecológica do Taim, que é uma UC federal; Área de Proteção Ambiental Lagoa Verde (APA da Lagoa Verde) – UC municipal; e Ilha dos Marinheiros, que embora não sendo uma UC, é uma região de grande valor cultural e onde se desenvolve muita atividade agrícola.

O secretario do Meio Ambiente da cidade do Rio Grande avaliou os seis primeiros meses do projeto como positivo. Pedro Fruet esteve acompanhando, no mês passado, a entrega das colmeias. “Esse é um projeto que tem um potencial enorme, não só para a questão de poder oferecer para o futuro um incremento de renda para os produtores, mas, sim, pelo fato de que ele é um projeto de busca que visa recuperar o pampa, que é um bioma que vem sofrendo muito nas últimas décadas e, também, funcionando como uma oportunidade de promover a conservação da biodiversidade através de um projeto bonito que utiliza as abelhas como uma espécie de bandeira que ajuda na questão da polinização e que pode trazer muitos benefícios não só para o homem, como também para o meio ambiente”, disse Fruet.

A ideia é difundir o projeto a outros municípios, especialmente os da região do Pampa. “Os benefícios aos produtores vêm em forma de geração de renda na produção de mel, própolis, geleia real entre outros produtos, e também na exploração do turismo. Além disso, a polinização auxilia na recuperação do meio ambiente”, destacou Rosana Halinski, doutora em Zoologia e proprietária da empresa contratada para o projeto, Halinski Soluções Ambientais e Estatísticas, coordenadora do projeto.

O projeto está na terceira fase, que é o monitoramento das colmeias. As biólogas analisam a saúde das abelhas e adaptação da espécie aos locais onde foram entregues. Além disso, orientam sobre o manejo sustentável da jataí. No local são realizadas observações em uma planilha de monitoramento das colmeias, onde são anotadas informações como número de potes de mel, potes de pólen, presença de inimigos naturais, entre outros.

Apicultura x Meliponicultura

O universo da apicultura e da meliponicultura são muito diferentes: enquanto a apicultura tem como foco cuidar das Apis Melíferas, abelhas com ferrão, a meliponicultura cuida dos Meliponíneos, abelha sem ferrão. O manejo da espécie dessa abelha dispensa a necessidade de trajes especiais de proteção. Também é considerado seguro colocar caixas de abelhas nativas em espaços escolares, como ferramenta de educação ambiental, para ensinar as futuras gerações sobre a importância da polinização no ecossistema e, na prática, promover a reflexão sobre ações de proteção ambiental. 

Quando se fala em abelha vem logo na nossa cabeça, mel e ferrão. Mas a abelha significa muito mais do que isso, principalmente as abelhas nativas. Elas são responsáveis por 30% da polinização da Caatinga e Pantanal, 90% da Mata Atlântica, Floresta Amazônica e Floresta Subtropical, e por 80% das plantas que dão recompensa alimentar, tanto para os animais quanto para os seres humanos, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Grande parte dessas plantas dependem exclusivamente da polinização feita por insetos, e em especial as abelhas nativas, que, graças à variedade de tamanho, conseguem ajudar na fertilização cruzada de uma forma mais rápida e eficaz”, relata Tatiana Kaehler doutora em biologia do projeto Polinizando o Pampa.

“Acreditamos que as abelhas vão mudar o cenário do bioma pampa, que vai ter uma melhor qualidade. Sabemos que o bioma está muito degradado. Além disso, nas propriedades de alguns produtores, já existem plantações de morango, hortas de frutas, legumes, hortaliças onde a Jataí vai agir na polinização dessas plantas agrícolas. “Eles terão um ganho com o aumento da produção e da qualidade”, destacou a bióloga. 

Repovoar o Pampa

A meliponicultura está em expansão no Brasil. A criação racional de abelhas sem ferrão é uma alternativa de geração de renda em muitas propriedades. Por serem dóceis e de fácil manejo, cada vez mais novos produtores despertam o interesse em trabalhar com essas abelhinhas. Os motivos são muitos. Seduzidos pela beleza da natureza e pelo amor ao meio ambiente, daí a razão de serem meliponicultores e apicultores.  Quanto aos interesses e objetivos de cada um, podemos dizer que são tão diversos quanto surpreendentes, mas todos foram arrebatados pela admiração e amor pelas abelhas.

Em 2022, o biólogo Rubens Comin, a esposa Ana Paula, psicóloga e os filhos Bernardo e Olívia decidiram trocar a praia do Cassino em Rio Grande, por uma propriedade de 2 hectares no Bolaxa. O motivo dessa mudança? “Proporcionar para as crianças o mesmo que eu tive na infância, dando valor às pequenas coisas, treinando a paciência ao plantar, esperar crescer e depois colher os frutos. Podemos colaborar ficando atentos aos enxames e reservando alguns momentos do dia para a contemplação desses seres”, relatou Comin.

O biólogo tomou conhecimento do Projeto Polinizando o Pampa pelas redes sociais e não pensou duas vezes e se inscreveu para o projeto. Comin é um dos 15 produtores selecionados pela Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande. “Acho a ideia muito interessante, tanto pelo viés ambiental, quanto pelo apelo de conscientização que o projeto proporciona. A minha expectativa é replicar o máximo possível os enxames, sem intenção de lucrar, mas sim de colaborar com a disseminação desses polinizadores tão importantes no ecossistema. A contribuição será para o meio ambiente e também para diversos aspectos que pretendo trabalhar com as crianças”, disse.

O pecuarista Gérson Crizel cria abelhas desde os 18 anos, hoje com 58 mantém uma propriedade na região do Banhado do Maçarico e cria gado Angus, mas viu no projeto Polinizando o Pampa uma forma de melhorar a saúde do planeta. “Acredito que o projeto possa contribuir para diminuir a degradação do bioma. O meu objetivo não visa lucrar com a produção de abelhas sem ferrão e, sim, repovoar o pampa. Para isso ocorrer é importante o envolvimento de todos os setores ligados ao agronegócio. O monitoramento feito em minha propriedade revela que a saúde das abelhas está ótima e a tendência é melhorar. Eu sou pecuarista e entendo de gado, e o trabalho das biólogas do projeto tem sido fundamental para darmos continuidade ao projeto. Temos que melhorar o pasto nativo e para que isso tenha sucesso precisamos da ajuda das abelhas”, destacou.

 

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome