Rio Grande comemora 289 anos e aposta na economia azul como caminho para construir um futuro próspero

Com quase três séculos, o município tem crescido mais a cada ano, seja com investimentos estruturais ou com aportes bilionários que beneficiam seu principal personagem: o Porto. (Foto: Richard Furtado/PMRG)

O município do Rio Grande completou 289 anos na quinta-feira (19) preparando-se para entrar em novo e revolucionário momento econômico, propiciado por um conjunto de iniciativas e investimentos que transformaram a cidade no grande polo da economia azul no sul do Brasil.

O conceito de economia azul está diretamente ligado a todas as atividades econômicas sustentáveis relacionadas ao mar e as zonas costeiras. Em Rio Grande o termo passou a fazer parte do vocabulário local a partir de 2014 com a criação do Arranjo Produtivo Local (APL) Marítimo do RS, que dedicou especial atenção à indústria naval e projetos de energias renováveis. A partir de 2016, com a crise do setor e a suspensão dos contratos com a Petrobras, o APL torna seu olhar mais abrangente e, dois anos depois, as atividades portuárias, o turismo, a inovação tecnológica e os projetos de energias renováveis passam a compor o campo de interesse do APL.

“O APL vem para apoiar todo o setor. Não é apoiar a empresa A ou B. Os associados do APL são diversos e envolvem as prefeituras de Rio Grande, Pelotas e São José do Norte, as universidades, instituições de pesquisa, entidades empresariais e mais de 90 empresas”, explica Arthur Gibbon, presidente do APL Marítimo do RS e professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

A partir do APL foi possível realizar uma série de entregas e promover iniciativas capazes de fortalecer os setores envolvidos e firmar Rio Grande como a principal referência da economia azul na Região Sul do país. Entre elas destacam-se o Centro de Simulação de Manobras Navais, instalado no Oceantec Parque Tecnológico da FURG e que é o único do Brasil; o Sistema de Controle do Monitoramento do Tráfego Portuário (VTS) e, ainda, o Fórum de Desenvolvimento da Economia Azul, que terá sua quarta edição realizada de 30 de março a 1 de abril.

Além de discutir as principais pautas relacionadas aos setores envolvidos com o APL, o evento traz para a cidade cases de sucesso de outros países. Este ano, por exemplo, será apresentado o caso de Peniche, cidade litorânea no oeste de Portugal, que tem conseguido ótimos resultados para o desenvolvimento local através da economia azul.

Outra conquista do APL foi a volta da Regata Rio da Prata-Rio Grande após 50 anos, sem ser realizada. “Essa é uma entrega direta do Fórum, que em sua terceira edição discutiu como incrementar o turismo náutico e, de lá para cá, se conseguiu retomar esse evento, que deve reunir mais de 40 barcos do Uruguai, Argentina e Brasil e colocar Rio Grande no mapa da navegação do Cone Sul”, diz Gibbon.

A regata ocorre entre os dias 11 e 15 de março e a chegada dos primeiros veleiros no porto de Rio Grande está prevista para o dia 13.

Nova oportunidade de desenvolvimento está à caminho. (Foto: Richard Furtado/PMRG)

Inovação tecnológica
A base da economia azul em Rio Grande passa, conforme Gibbon, necessariamente, pela produção de conhecimento e pela capacidade de transformar pesquisa em inovação. Nesse cenário, a FURG ocupa papel estratégico. Prestes a completar 60 anos, a instituição é a 17ª colocada no Brasil e a terceira no Rio Grande do Sul em ranking de sustentabilidade, além de possuir nota 4 no MEC, em uma escala cujo máximo é 5.

Entre as estruturas destacadas pelo presidente do APL está o Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Mad-CX), financiado pela FAPERGS. O laboratório já está em operação e ganhou relevância após as enchentes de 2024, ao gerar dados e conhecimento sobre eventos climáticos na região.

A inovação também se articula fora do campus. O Parque Tecnológico Oceantec e a incubadora Inovat vêm impulsionando o surgimento de startups, tanto voltadas à economia azul quanto a áreas como foodtechs, softwares e gestão. O Oceantec também abriga projetos estratégicos, como o Aura Wind, direcionado à geração de energia eólica offshore com tecnologia de cabos submersos.

Complementando esse ecossistema, há ainda o Grande Pacto pela Inovação, que inicia seu quarto ano em 2026 e entregou programas como a pré-incubação de startups e a Escola de Investidores. A iniciativa dialoga com a Ocean Valley, comunidade aberta de inovação que promove conexões e fortalece o desenvolvimento local por meio da economia azul.

“O sucesso do APL reforça a importância de caminharmos juntos, entidades privadas, públicas, acadêmicas, do terceiro setor para construirmos juntos uma cidade melhor, uma Rio Grande do futuro, coletivamente, com qualidade e com inclusão para todos. E para isso precisamos focar muito na educação. A educação vai transformar Rio Grande, a educação vai transformar o país. Nenhum país no mundo consegue se desenvolver sem uma educação forte”, pondera Gibbon.

Investimentos anunciados geram grandes expectativas
Desde o final do ano passado uma série de investimentos anunciados para Rio Grande mudaram a perspectiva da comunidade com relação ao futuro próximo.

Em recente visita à cidade, o presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva (PT), assinou os contratos para a construção de cinco navios gaseiros no Estaleiro Rio Grande. Com investimento total de R$ 2,2 bilhões, o projeto deve gerar até 4 mil empregos diretos e representar a retomada definitiva do Polo Naval.

Paralelamente, a empresa Fontes Verdes confirmou a construção da primeira planta de produção de hidrogênio verde e amônia verde do Rio Grande do Sul, no município. O projeto de R$ 220 milhões deve começar a ser executado ainda neste semestre.
Estas boas novas, aliadas à possibilidade de retomada do projeto da Usina Termelétrica Rio Grande do grupo espanhol Cobra – um projeto de R$ 6 bilhões – têm gerado grandes expectativas entre as lideranças locais.

O grande destaque logístico do município é o Porto,
considerado um dos mais importantes do Brasil. (Foto: Portos RS)

“Rio Grande há algum tempo vive um momento de renovação das expectativas. Ao longo dos últimos anos foram plantadas as sementes para a retomada da economia no município. Os recentes anúncios, tanto por parte do Governo Federal quanto da iniciativa privada, reacendem a confiança da classe empresarial em um novo ciclo de crescimento para o município”, confirma Letícia Vanzelotti, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Rio Grande e São José do Norte.

Para a empresária, existe uma percepção bastante positiva de que esses investimentos podem fortalecer a vocação histórica da cidade, especialmente nas áreas portuária, industrial e logística. “Novos empreendimentos significam geração de empregos diretos e indiretos, aumento da circulação de renda e maior demanda por serviços como alimentação, hospedagem, transporte, qualificação profissional e comércio em geral. Agora, é preciso que essas empresas que retomam seus investimentos por aqui ou que estão chegando, contratem mão de obra e prestadores de serviços locais”, afirma.

O deputado federal Alexandre Lindenmeyer (PT) projeta um ciclo consistente de crescimento para Rio Grande a partir de investimentos privados e federais já anunciados ou em fase de encaminhamento. Ele destaca o terminal de armazenagem de celulose da CMPC no Porto Novo, com aporte estimado em R$ 1,5 bilhão e geração de até 1,5 mil empregos na operação, além da retomada do Polo Naval e a possível transformação da Refinaria Rio Grandense em biorefinaria, com investimento estimado em US$ 1 bilhão, podendo gerar cerca de 4 mil empregos durante três anos de obras.

“São projetos que geram muitos empregos não apenas na construção dessas unidades, mas também no entorno com outros tipos de atividades, que vão desde os prestadores de serviços, até os fornecedores de matéria-prima”, comenta.

A prefeita Darlene Pereira (PT) ressalta que o futuro que se desenha para a cidade é reflexo do trabalho feito nos últimos anteriormente. “Em 2025, trabalhamos muito na organização interna para atração de novos investimentos (licenciamento ambiental, análise de projetos, ITBI on-line e a criação do Porta Única). Além disso, trabalhamos na busca de novos investimentos, públicos e privados que resultaram na captação de mais de R$ 170 milhões em recursos públicos e R$ 13 bilhões em investimentos privados. Isso tudo mostra o potencial de Rio Grande e nos traz uma expectativa real de crescimento para a nossa cidade, pois 2026 será o ano de início da aplicação desses recursos, gerando empregos e desenvolvimento para a cidade e qualidade de vida para nosso povo. Hoje nossas expectativas são as melhores possíveis e têm base real e sólida”, afirma.