Conab destina R$ 4 milhões para a compra de polpa de pêssego, mas anúncio não anima produtores

Ano que deveria ser de superação aos prejuízos acumulados ao longo das últimas safras, se transformou em frustração (Foto: Luciara Schneid)

Com pelo menos 30% da fruta ainda a ser colhida, o anúncio feito na manhã desta segunda-feira (22) pelo presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Edegar Pretto, de R$ 4 milhões para compra de polpa de pêssego, não animou os produtores, que amargam uma colheita com frutas apodrecendo em frente às fábricas e um excedente no pomar com destino indefinido. A Emater estimou um prejuízo nos pomares da região superior aos R$ 5,4 milhões, com 590 produtores afetados e projeta uma safra pelo menos 20% menor do que o esperado. Os motivos são climáticos que ao mesmo tempo possibilitaram uma boa produção e provocam o amadurecimento muito rápido da fruta. Sem capacidade de absorver toda a fruta ofertada, as indústrias vêm negando sistematicamente o recebimento de cargas inteiras, que acabam apodrecendo ainda dentro da carroceria dos caminhões.

Um ano que deveria ser de superação aos prejuízos acumulados ao longo das últimas safras, se transformou em frustração. “Um ano para ser esquecido”, lamenta o presidente da Associação dos Produtores de Pêssego de Pelotas e Região, Adriano Bosembecker. Segundo ele, ainda nesta segunda-feira, mais uma indústria de Morro Redondo suspendeu o recebimento da fruta até a próxima sexta-feira (26). Com a fruta já colhida em casa ou embarcada no caminhão, o produtor fica sem alternativa e o destino mais provável para este produto, fruto de um ano inteiro de trabalho, será inevitavelmente o lixo.

Sobre as medidas do governo federal, Bosembecker enaltece mas não vê reflexos diretos ao produtor. “A gente fica feliz por ser uma iniciativa pública, mas o impacto é praticamente zero”, pontua. Segundo ele, R$ 4 milhões deve dar em torno de 500 mil latas a R$ 8,00 a lata, é muito pouco num universo de 50 milhões de latas. “Talvez beneficie a indústria que vai fazer a polpa”, diz.

O anúncio da Conab

O presidente da Conab explicou que a polpa de pêssego será adquirida através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), uma marca registrada do governo federal e que já existe há 22 anos, que será acondicionada em barris e transformada em suco, para ser distribuído na merenda escolar, em escolas e creches, cozinhas solidárias e outras iniciativas em todo o País.

Ele reconheceu a importância da cadeia produtiva do pêssego da região, responsável por 95% da fruta enlatada consumida no País. “Estamos comprando hoje de 5,7 mil cooperativas e associações Brasil afora em torno de 400 tipos de comida”, disse. Segundo ele, serão em torno de 900 mil litros de suco, que serão embalados em tonéis de 200 litros e, posteriormente, transformados em embalagens de um litro. “Garantimos a compra pelo preço justo para manter o agricultor incentivado a continuar produzindo o pêssego de excelente qualidade”, acrescenta.

Apoio da Prefeitura

O prefeito Fernando Marroni (PT) lembrou a reincidência de problemas com a superprodução da fruta em safras anteriores. Para isso, aponta como solução a requalificação da estrutura de frio da Cesa, no Capão do Leão, tanto para a armazenagem do pêssego, bem como o camarão, em anos de supersafras. “Nós não podemos continuar com este sufoco a cada safra, correndo para não perder o produto ou jogando fora”, ressalta.

A indústria

O presidente do Sindicato das Indústrias de Doces e Conservas Alimentícias de Pelotas e região (Sindocopel), Paulo Crochemore, afirma que mesmo com escassez de mão-de-obra, dez indústrias estão trabalhando a pleno e processando tudo o que podem da fruta, respeitando a capacidade de cada uma. “Foi uma safra atípica, que se concentrou em algumas variedades, tivemos o problema do ciclone, bem no início da variedade maior e perda de praticamente um dia de produção”, conta.

Segundo ele, o produtor começou a colher para a fruta não ir para o chão e isso sobrecarregou a indústria. No entanto, garante que a indústria está envidando esforços para envasar a maior quantidade possível de frutas, sempre preservando a qualidade. Segundo ele, uma unidade de frio viria ao encontro das necessidades da indústria para evitar esta pressão no recebimento da fruta. “O que a gente esperava em um mês chegou em sete dias e se tornou inviável de trabalhar”, relata.

Sobre a compra da Conab, ele disse que era reivindicada desde o início da safra e era esperada uma comercialização de 15% da produção da indústria. “É um primeiro passo e faz parte da organização para a próxima safra”, diz. Ele admite que faltou organização tanto da indústria quanto do produtor, que esperaram o problema acontecer e se buscou uma solução caseira.