Pelotas: Igreja Sagrado Coração de Jesus é reconhecida como patrimônio cultural do RS

Cerimônia foi realizada durante programação da 91ª Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. (Foto: Rodrigo Chagas/Prefeitura Municipal de Pelotas)

A Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus foi reconhecida, na quinta-feira (2), como patrimônio do Rio Grande do Sul. O tombamento do templo pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE) foi oficializado pela secretária estadual da Cultura, Beatriz Araujo, durante cerimônia incluída na programação da 91ª Festa de Nossa Senhora dos Navegantes.

Entre as autoridades presentes, o arcebispo da Arquidiocese de Pelotas, Dom Jacinto Bergmann discursou e lembrou a coincidência da realização da cerimônia na mesma data em que a igreja realiza a festa litúrgica da Apresentação do Senhor. “Segundo as leis judaicas, no oitavo dia do primogênito que nascia, era lei apresentar o primogênito ao templo”, conta. “O apresentar também torna presente, antes de tornar-se presente é preciso apresentar. E nós estamos então com muita alegria apresentando esse templo histórico para realmente ser um sinal de que Deus está no meio de nós”, profere.

Representando o governador Eduardo Leite (PSDB), a secretária destacou a relevância histórica do templo, bem como o reconhecimento por parte do Estado. “A Matriz Sagrado Coração de Jesus envolve fé, história, arquitetura, arte, patrimônio cultural e, sobretudo, a união da comunidade pelotense em torno do propósito de preservar uma edificação de grande valor material, simbólico e afetivo. A Secretaria do Estado da Cultura e o IPHAE estão irmanados com os pelotenses na percepção acerca deste templo religioso, tão identificado com a paisagem da cidade”, disse. “A paróquia Sagrado Coração de Jesus tem beleza na arquitetura barroca, romana e revela a nossa força, a herança portuguesa, ela representa parte importante do passado, do processo de desenvolvimento econômico e da evolução urbana de Pelotas”, pontua.

Ela também explicou qual será o papel do Estado agora, com o novo reconhecimento. “A igreja sendo um patrimônio estadual ela terá acesso facilitado às políticas públicas do governo do Estado que viabilizam a captação de recursos por projetos culturais”, diz. “Eu espero que futuramente nós tenhamos a possibilidade de fazer novos editais e a igreja estará inserida neste contexto e eu tenho certeza que o grupo que trabalha pela igreja vai conseguir viabilizar também”, finaliza. Em 2020, o local já havia recebido o tombamento municipal.

Pároco Wilson Fernandes destacou a importância histórica, social e religiosa da igreja, promovendo um apelo para que o local obtenha os recursos necessários para ser restaurado. (Foto: Stéfane Costa/JTR)

O tombamento estadual auxiliará no processo de captação dos recursos necessários para a restauração da estrutura da igreja, gravemente afetada por um ciclone bomba em junho de 2020. O padre Wilson Fernandes, pároco da igreja desde 2017, ressalta a importância do reconhecimento. “Isso nos põe em pé de igualdade para concorrer aos editais, uma vez que a igreja está em processo de restauro. A gente está habilitado para concorrer aos editais públicos que são postos. Por exemplo, ano passado nós não pudemos entrar num edital porque nós não tínhamos esse reconhecimento estadual. Então isso é muito importante pra nós. Nos dá credenciais, perante as instituições públicas, de atestar esse valor importante histórico, artístico”, comemora.

O processo de restauro da estrutura está orçado em R$ 2 milhões, sendo que a paróquia ainda precisa arrecadar R$ 1,44 milhão. Atualmente, apenas um terço do templo está em uso, enquanto o restante permanece interditado e sustentado por vigas de madeira. Em razão do alto orçamento, o pároco faz um apelo principalmente aos empresários da região que são contribuintes do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e que não aderem ao Simples, para que auxiliem no levantamento da quantia destinando parte do seu imposto ao patrocínio do projeto cultural. Após alcançado o valor completo e iniciadas as obras, o processo de restauro está previsto para ser concluído em cerca de 10 meses.

Autoridades participaram do ato de tombamento na manhã de quinta-feira (2), em atividade
incluída na programação da 91ª Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. (Foto: Stéfane Costa/JTR)

O pároco destaca que a construção não é apenas um ponto de Pelotas, mas sim um bem da população e parte da sua história. “Não é um patrimônio só da igreja, é um patrimônio da cidade de Pelotas, faz parte da história de Pelotas. Então toda essa região aqui, todo esse conglomerado nasce a partir da Igreja do Porto, ela tem uma importância significativa muito grande pra cidade de Pelotas”, aponta.

O padre relembra ainda o período anterior no qual o salão da paróquia também havia desabado e o esforço feito pelos fiéis para arrecadar o valor necessário para reerguer a construção e seguir com duas obras simultâneas. “A comunidade nunca deixou de contribuir, de fazer a sua parte. Mas só que chegou um momento que os nossos recursos são muito esparsos para uma coisa como é a obra do restauro, não só restauro, mas de salvamento mesmo, se não fizer a igreja corre o risco de cair”, enfatiza. O processo de escoramento do teto da igreja, segundo ele, foi feito com recursos próprios da paróquia e doações recebidas.

A prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas (PSDB), também participou da solenidade e citou o papel do patrimônio pelotense. “Essa igreja, esse templo como é dito, para nós sempre será a Igreja do Porto. Esse espaço aqui é referencial para todos os pelotenses, independente de sua religião, ele ultrapassa os muros da religião, transcende, como diz o padre Wilson, e passa a ser realmente patrimônio material e imaterial”, inicia.

Ela também destacou outras características que comprovam a importância do local para o município. “A torre da Igreja do Porto por muito tempo foi assim, balizadora da cidade, fortificou nossa cidade e continua até hoje, pra quem vem do Sul, o primeiro ponto de referência. Quando a gente encontra a torre da Igreja do Porto a gente sabe que tá chegando a Pelotas e isso é muito significativo, tem muito valor e fala de nós, de quem nós somos, fala da história da nossa cidade, da nossa cultura, fala da nossa religião, fala de tudo que importa pra nós e, hoje, a gente percebe que fala também para o Rio Grande do Sul”, concluiu.

Igreja teve a construção iniciada em 1915 e, por muitos anos, foi o ponto mais alto do município. (Foto: Stéfane Costa/JTR)

História

O padre relembra a parte histórica do início do templo, que ressalta ainda mais a sua importância. Segundo ele, até 1910 o Rio Grande do Sul era uma única diocese até que, no mesmo ano, Porto Alegre foi declarada como arquidiocese, fazendo com que Pelotas, Uruguaiana e Santa Maria fossem então estabelecidas como dioceses.

A paróquia foi criada por um decreto em 1912. Já a construção foi iniciada no ano de 1915, por ordem do primeiro bispo de Pelotas, Dom Francisco de Campos Barreto, em 1913. A inauguração foi em 1921. Dada a data do início de sua fundação, a Igreja do Porto é considerada como o primeiro templo construído na já arquidiocese de Pelotas que ainda está em funcionamento. No Sul do estado, esta é a primeira paróquia criada após a divisão das dioceses.

Além do valor histórico, o templo também constitui um símbolo histórico arquitetônico para a Pelotas da época. “Ela durante muitos anos foi o ponto mais alto de toda a cidade. A torre tem 40 metros de altura. Então ela é um marco único no espaço arquitetônico também. Então ela tem esse valor arquitetônico, religioso, histórico, social, tem todo esse aparato que transcende a esfera religiosa”, fala.

Para mais informações sobre a arrecadação de recursos para o restauro da Matriz Sagrado Coração de Jesus é possível entrar em contato através do (53) 98119-0929.