Inverno não será rigoroso, projeta Metsul

A chegada de uma massa de ar fria e seca trará condições mais estáveis para a região. (Foto: Freepik)

A cada início de estação extrema, para frio ou calor, a dúvida sobre a rigorosidade sempre está presente. No caso do inverno 2023, que começa oficialmente pelo calendário climático no dia 21 deste mês, a resposta é não.

De acordo com a meteorologista Estael Sias, da Metsul Meteorologia, apesar de não haver na literatura científica um conceito específico do que seria “inverno rigoroso”, no imaginário popular é assim reconhecido como um inverno de frio intenso com dias seguidos de baixa temperatura, com direito à neve e a ocorrências de geada. Há quem goste. Porém, para esse contingente, a perspectiva não é boa.

E por quê? A meteorologista responde: “Temos um El Niño [fenômeno climático que aquece as águas do Oceano Pacífico Equatorial, o que provoca chuva acima da média no Sul do Brasil] a todo o vapor, no máximo até o fim de julho a meteorologia mundial deve decretar oficialmente que estamos sob a ocorrência do fenômeno”, projeta.

Conforme Estael, graduada em Meteorologia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com mestrado na área de tempestades pela Universidade de São Paulo (USP), diante deste quadro é possível afirmar que a ocorrência do El Niño sinaliza para a dificuldade de incursões de massas de ar polar persistentes – quadro que caracteriza o inverno reconhecido como rigoroso.

Se, no entanto, não será preciso recorrer tanto aos casacos mais quentes do guarda-roupa, o mesmo não ocorre com capas, sombrinhas e guarda-chuvas. Conforme a previsão da meteorologista, o inverno 2023 recomenda que esses acessórios estejam sempre à mão – especialmente na segunda metade da estação, em julho e agosto.

“Há sim um cenário de mais umidade no período, com risco de chuvas mais volumosas, tempestades e cheias”, alerta ela. O inverno, independentemente de fenômenos que incidem sobre ele, como El Niño e La Niña, já é uma estação que apresenta passagens mais lentas de frentes frias. Sob efeito do El Niño, esse potencial será ainda maior.

Estael Sias, meteorologista da Metsul, projeta que o inverno deverá ter muita chuva e menos frio. (Foto: Divulgação)

Temperatura acima da média
Resultados de modelos de clima e os chamados mapas de anomalia (que indicam o quanto a temperatura prevista pode ficar acima ou abaixo da média histórica da estação) analisados pela equipe da Metsul apontam para o trimestre de junho a agosto para o Centro Sul do Brasil uma tendência de temperaturas mais elevadas.

Inverno mais quente, em resumo. No caso do Rio Grande do Sul, conforme Estael, esta anomalia deve ser da ordem de um grau positivo. Ela alerta, porém, que o quadro climático não exclui períodos de frio intenso: “Claro que teremos frio, mas mais curtos do que o esperado, a tendência é de predominância de dias amenos e até quentes, com veranico”.

Outros modelos de anomalia analisados, como CFS e Nemo, preveem temperatura acima da média superior a um grau centígrado, embora nem todos concordem. O modelo da Agência Espacial Americana (Nasa, na sigla em inglês) indica temperaturas abaixo da média na província de Buenos Aires, parte do Uruguai e Leste gaúcho. Estael explica esta discordância pontual entre os modelos: “Nos traz uma ideia de desvios de massa de ar polar que podem ter impacto sobre essas regiões, embora não seja a regra”.

A meteorologista sustenta a afirmação recorrendo ao modelo europeu que analisa a estação a cada mês. Em junho, julho e agosto – mês que tradicionalmente já costuma apresentar períodos de calor no Rio Grande do Sul – a tendência permanece a mesma: um inverno mais quente do que o costume.

Neve
Anos de El Niño na história climática do Rio Grande do Sul não costumam registrar eventos de neve significativos. Foi o que ocorreu em 1982, 1983, 1997 e 1998. No entanto, não se surpreenda se precipitações de neve aconteçam em regiões de maior altitude.

A meteorologista conta que foi exatamente em um ano de El Niño que o estado registrou o maior evento de neve das últimas sete décadas – em 24 de agosto de 1965, logo após uma enchente que chegou a bloquear parte do acesso do Rio Grande do Sul a Santa Catarina.
“Houve uma erupção polar muito intensa que junto com a umidade trouxe um evento de neve com direito à acumulação em municípios da Metade Norte do estado, como em Passo Fundo, Carazinho e nos Campos de Cima da Serra – era neve para juntar de pá”, relata Estael.

Pode acontecer de novo? A profissional de meteorologia não descarta. Contudo, não acredita. Para ela, a perspectiva de neve continua pequena na medida em que será um inverno com menos aporte de massas de ar polar. “Se houver incidência de massa de ar polar intensa que atue junto com a umidade que promete ser abundante, o episódio de 1965 pode se repetir, mas mais como uma quebra de regra”, explica.

Ela ressalva, porém, que com um inverno muito úmido e chuvoso, as máximas da tarde não terão grande elevação, o que deve provocar um desconforto de frio associado à umidade. “Nesses casos, a sensação de frio costuma ser mais presente, mas no termômetro, comparando com a média histórica, não é esta a probabilidade diante de um cenário de transição de neutralidade para um super El Niño. Mais correto é esperar por muita chuva e menos frio”.