Amanhece. Corpo e alma despertam em um mesmo instante e espreguiçam emoções e músculos. Pelas veias desliza suave o sangue, irrigando a emoção da pré-estreia.
Cada minuto passando, sinaliza a véspera do encontro dos personagens. Preciso é um banho de aromas suaves para enfeitar a pele; imprescindível, também, um som de acalanto para embalar o sentimento.
Quando a cortina se abrir, começará o espetáculo. Na coxia da vida abandonam-
se os desencantos e tropeços. O diálogo é parte de um roteiro inédito que se desenrola naturalmente, sem contrarregras. A iluminação é dispensável porque os dois intérpretes têm brilho próprio.
Tantos caminhos vividos, muitas rotas percorridas e, de repente, o momento sempre esperado, em vias de acontecer. Assim, sem alarde, na simplicidade do que é determinado pelos atalhos da vida.
Quem pode dizer em que fração de tempo se realizam os sonhos? Aqueles sonhos de ser feliz que trazemos guardados em baús no sótão do pensamento.
Somos capazes de elaborar os nossos desejos com perícia de mestres na arte da pretensão. Mas por aí ficamos. Acomodamo-nos aos caprichos do tempo e cruzamos os braços na inércia da espera. E “se o melhor da festa é esperar por ela”, que venham os preparativos!
Pois, prelúdio de ser feliz é ser feliz sem receio. É reconhecer a proximidade do bom, chegando de malas cheias. É receber o presente de mãos estendidas e peito aberto. É oferecer abrigo para o afeto, sem medo de ser entrega. É ser ancoradouro para o barco que, depois de tempestades, se aproxima da margem. E benditos os cais de porto que acolhem as bem-vindas embarcações. Porém, mais louváveis os corações capazes de abrigar a ternura desembrulhada.
E ternura é assunto de suma importância. E faço referência aqui, as ternuras que acondicionamos nas prateleiras da alma no exercício de viver. As ternuras que ficam guardadas, esperando silenciosas para serem escolhidas, para serem partilhadas.
Então, alma e corpo, em parceria, agitam bandeiras, tocam sinos, soltam balões e abrem os braços para receber o amor. Amor que chega no exato momento de acontecer. Para tanto, confabularam os céus em conferências de cúpula, assistidas e presenciadas por anjos. Anjos, testemunhas oculares do que foi determinado, emissários atentos no cumprimento das ordens, que cuidam de tornar realidade, o encontro dos escolhidos, no palco do cotidiano.
E então, a luz que vem de dentro, clareia o caminho como um farol, mostrando o ponto certo no mapa do coração, a fala precisa no instante da emoção.
Risos e olhos molhados de lágrimas recepcionam o afeto que demorou a surgir porque precisava nascer no lugar e hora planejados pela semeadura do vento e pela aragem do espaço, na medida certa da colheita.
O encontro justifica toda a ausência e a vida se renova na inauguração do palpável, sem medo de ser feliz!




