Um sofá e suas penas de ganso

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Corriam os anos 1950 do século passado, quando trabalhar em uma instituição bancária sólida era o sonho de muitos.

Naquela década, um casal desembarcou em Pelotas, ele vinculado a um grande banco, transferido do centro do país.

O gerente geral ficou encarregado de providenciar uma habitação de aluguel para o recém-chegado colega. Lembrou que havia um bom cliente da agência que tinha construído uma casa térrea para morar, com um pequeno saguão onde uma entrada lateral dava acesso a um apartamento independente, que pretendia locar.

Quem olhava da rua, visualizava um moderno sobrado. Mas os dois andares, embora compartilhando a entrada térrea, eram autônomos.

Assim, o que chegou do Norte foi para o piso superior e, junto ao chão, permaneceu o dono do prédio, sua jovem esposa e filhos.

Em seguida, chegaram alguns móveis lindos, modernos, como um conjunto de sofá e poltronas, idêntico ao que se via nas revistas, que volta e meia mostravam a decoração do famoso hotel Waldorf Astória, em Nova York.

Eram duas famílias jovens, viajadas, bem-educadas que, em seguida, trocaram almoços e jantares de domingo, e que se revezavam entre o andar de baixo e o de cima.
Sem dúvidas, bons vizinhos.

Passaram-se alguns meses.

Um dia qualquer, um velho amigo do dono do prédio o procura em seu escritório e diz: “tchê, aquela senhora bonita e elegante que mora no teu prédio não é trigo limpo! Namora homens casados. Conheço o atual namorado, que a pega numa esquina perto da tua casa e depois, de carro, a deixa na outra ali perto. Sei que vocês estão convivendo, mas tenho certeza de que não sabes que pela mesma porta onde entra tua mulher e filhos aquela senhora sai pra rua no mesmo horário do expediente do marido dela no banco”.

Aquela revelação teve nele o impacto de uma bomba. Afinal, era Pelotas nos anos 1950!
Sem saber o que fazer, ele foi ao banco e foi direto no gerente que havia recomendado o inquilino. Ele que resolvesse a situação inesperada.

Dois dias depois, ao sair para o escritório, o morador do térreo encontrou sob a porta um envelope com as chaves e um bilhete de despedida. O casal fora embora na madrugada.
Deixaram como pagamento do último aluguel os móveis, dentre eles o sofá e as poltronas estofadas com penas de ganso. Pediam desculpas por qualquer coisa.

Ele foi direto ao banco.

O gerente geral contou que reservadamente o chamou para conversar e, ao entrar no assunto, soube que a vinda do casal para o Sul fora uma tentativa dele de salvar seu casamento. Ele amava desesperadamente aquela mulher, que tinha aquele furor, aquela compulsão. Achou que mudando de Estado e cidade ela se acalmaria.

Mas o problema não era de geografia!

Chorou, acertou antecipar as férias e alinhou com o chefe um pedido de transferência, que o gerente acertou com a matriz.

Disse que sairia de Pelotas da maneira mais discreta possível.

O tal sofá, lindo e confortável, ainda está na cidade, na sala de outra família.

Quando já estavam esquecendo dela, no fim da década de 1960, vários voltaram a falar no assunto. Foi quando perceberam que aquela bonita e elegante senhora, casada com um triste e apaixonado bancário, havia antecipado em Pelotas os dramas do personagem de Luis Buñuel, em sua obra prima protagonizada por Catherine Deneuve. A Bela da Tarde, pelotense.