
Há figuras históricas gaúchas pouco lembradas, cuja vida cheia de aventuras renderia filmes e até minisséries, se tivessem vivido em outro país. Aqui, há um inexplicável apagão.
Um bom exemplo é o coronel Albano. Pouca gente lembra dele.
Era compadre do general Bento Gonçalves, de quem era muito amigo. Mas a Revolução Farroupilha (como é comum em revoluções) também apartou amigos e parentes, que não raras vezes tiroteavam em campos opostos. Mesmo caso do Lima e Silva, tio e sete anos mais novo que o futuro Duque de Caxias. O tio, farroupilha, invadiu Pelotas no início da revolução. O sobrinho – barão de Caxias, comandou as tropas imperiais logo em seguida. Um de cada lado, portanto.
Mas, voltando ao coronel Albano, do Exército do Imperador, de quem há tantas aventuras e que, em outro lugar, bastaria uma apenas para ele ser imortalizado em verso e prosa, vou contar uma agora, que poderia render algum filme ou integrar minissérie histórica e alavancar visitas turísticas na localidade citada.
Corria o ano de 1836 e era exatamente dia 8 de abril quando ocorreu uma renhida batalha entre combatentes farroupilhas e militares do exército imperial, no local que conhecemos hoje como Chácara da Brigada.
Vou tentar resumir:
Houve um tiroteio furioso. O destacamento do exército estava encurralado, tentando fugir atravessando o São Gonçalo, para ficar distante das balas dos farrapos, bem municiados. A canhoneira imperial Oceano, dentro do canal, fazendo rugir seus canhões, que lançavam projéteis sobre os farrapos, tentando dar tempo para que os imperiais nadassem. Esse é o resumo da uma batalha renhida e sangrenta, travada no antigo Passo Rico ou Passo dos Negros. Ali, não por acaso, em tempos de seca, era possível passar de um lado para o outro a pé, a nado ou a cavalo. Por isso, a designação “passo”.
Quem estava no comando dos imperiais era o valente e respeitado coronel Albano. Bom de briga e bom de mira, não quis ir na frente, em segurança. Ficou na margem violenta, dentre os últimos a tentar atravessar, pois sabia que sua pontaria treinada não tinha similar naquele conjunto de militares. Nas pistolas e nos fuzis de carregar pela boca ele conseguiu garantir que muitos subordinados pudessem pular na água pra atravessar, mantendo, na bala, a distância necessária entre eles e os farroupilhas.
Ele tinha um cavalo que era um assombro. Confiava muito naquele pingo, um mouro que era uma pintura, de trote largo, fogoso, que por onde passava encilhado e com o Coronel sobre ele, conferia ares de parada militar até para uma frugal chegada a um bolicho. Aquilo era cavalo de general!
Pois vendo que a maioria já tinha atravessado e que chegara sua vez, Albano boleia a perna sobre o cavalo mouro, que inesperadamente travou, praticamente congelou, encagaçado!
O coronel, ouvindo o zunido das balas, apertou as esporas no mouro de confiança que, apavorado com o barulho da guerra, bufou, tremeu, relinchou, mas se mover que era bom, nada. Empacou completamente na beira daquelas águas, a essa altura rigorosamente sujas de barro e de sangue.
Albano, contrariado, apeou e resolveu atravessar desmontado. Sabia dar as braçadas necessárias. A primeira coisa que fez foi pular na água desamarrando o poncho que estava atado na cintura. Foi-se o poncho.
A segunda providência foi sacar as belas botas de couro. Uma saiu com facilidade. A outra, mais justa, grudou na perna e de lá não se moveu. Faltou um ajudante de ordens para tirar.
Ficou muito ruim para nadar, mas a fuzilaria continuava violenta. E os farrapos não perderam tempo: empurraram um bote na água na direção do coronel adversário. Dentro, um cabo farroupilha, que tirou as roupas, segurou uma adaga entre os dentes e nadou braçadas largas na direção do Albano – a essa altura com as pistolas encharcadas – só peso morto, como se fossem pequenas âncoras – das quais com tremenda dificuldade tentava se desvencilhar para poder fugir. Tudo muito rápido, em meio aos estampidos.
Quando o cabo (não digo das forças especiais dos farrapos, porque isso ainda não tinha sido inventado) chegou bem perto, da margem ouviu-se o grito de comando que o cabo respeitou: “não mata esse homem. Queremos ele vivo”.
Foi um duelo molhado, muito bofetão e gritos, e não fosse a bota encharcada e pesada num homem maduro contra uma adaga leve a afiada de um jovem gaúcho acostumado dentro d’água, Albano teria conseguido atravessar a nado.
Foi capturado.
A história é mais longa. Depois ele é enviado preso para Porto Alegre, onde nunca chegou.
Foi assassinado perto de Camaquã, por um antigo desafeto, mas esse é um capítulo à parte. Qualquer dia eu conto.



