Por que gostamos tanto de açúcar — e como isso impacta nossa saúde intestinal?

Profª. Me. Nutr. Bárbara Freitas. (Foto: Arquivo pessoal)

Hoje vocês não irão gostar de mim… Hoje não irei “pegar” leve, pois o assunto mexe com o coração…

Do morango do amor nas festas populares aos brigadeiros gourmet das confeitarias, passando pelos ovos de Páscoa recheados e bolos de pote, o açúcar acompanha a vida dos brasileiros há séculos. Ele entrou em nossa história com a colonização e, de símbolo de luxo, virou presença diária no prato e no imaginário coletivo. Mas essa relação, carregada de afeto e sabor, hoje cobra um preço alto para a saúde.

O consumo de açúcar no Brasil está entre os maiores do mundo. Dados recentes apontam que a média nacional ultrapassa o dobro da quantidade máxima recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) — que sugere não mais que seis colheres de chá por dia de açúcar livre. Para termos uma ideia prática: um único morango do amor pode concentrar 16 a 17 colheres de chá de açúcar, quase três vezes acima do limite diário. Não é à toa que a sensação de prazer ao morder esse doce vem acompanhada de um verdadeiro “choque” metabólico.

E o impacto não fica restrito ao excesso calórico. Estudos mostram que o consumo exagerado de açúcar altera a microbiota intestinal, favorecendo bactérias que prosperam nesse ambiente rico em glicose. O problema é que essas bactérias passam a enviar sinais químicos ao cérebro que aumentam o desejo por mais doces. É um círculo vicioso: quanto mais açúcar se consome, mais o corpo pede, tornando difícil resistir.

Romper esse ciclo é possível — e a estratégia passa por nutrir as bactérias benéficas. Os probióticos, presentes em alimentos como iogurte natural e kefir, ajudam a repovoar a microbiota com espécies positivas. Já os prebióticos, encontrados em feijão, batata-doce, banana verde, cebola, alho e aveia, alimentam essas bactérias boas, equilibrando o intestino e reduzindo a compulsão por açúcar.

No dia a dia, combinações simples e tradicionais podem ajudar: arroz e feijão acompanhados de salada fresca, uma sopa de legumes com alho e cebola ou um café da manhã com iogurte, aveia e fruta da estação. Quando a microbiota está equilibrada, o corpo naturalmente pede menos doce, e saborear uma sobremesa ocasional deixa de ser compulsão para se tornar escolha consciente.

Isso não significa abrir mão das nossas tradições culinárias, mas sim colocá-las no lugar certo: como momentos especiais, e não como rotina diária. Um pudim de leite feito em família no fim de semana pode ser um prazer, desde que não se repita em todas as refeições.

O desafio é cultural, histórico e biológico ao mesmo tempo. Mas a solução não vem de proibições radicais — e sim de estratégias inteligentes que fortalecem o intestino e devolvem ao corpo o poder de decisão sobre o que comer.

E você, já percebeu como seu apetite por doces muda conforme sua alimentação do dia a dia? Vale a pena observar: talvez não seja apenas questão de vontade, mas de quem está “falando mais alto” dentro do seu intestino.