O caso do mel envenenado

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

A novela dantesca e aparentemente interminável do bolo de frutas preparado com ingredientes ofertados por obra de uma bandida fotogênica me fez lembrar o primeiro registro de envenenamento bem documentado no Rio Grande do Sul.

Apreciadíssimo pela gauchada campeira, o mel de lichiguana é iguaria sempre citada como exemplo clássico de doçura e de relativa facilidade para sua obtenção: as minúsculas abelhas nativas constroem suas colmeias em pequenos arbustos, o que sempre facilitou a extração do mel por tropeiros e viajantes que acampavam como podiam, dormindo sobre arreios e pelegos nas coxilhas e canhadas do Rio Grande primitivo.

Era uma época em que levar açúcar nos alforges era luxo, além de muito complicado de carregar, por dois motivos: o alto preço e as famintas formigas.

E nunca se ouviu dizer que mel de lichiguana fizesse mal a alguém – pelo contrário – até propriedades terapêuticas já haviam sido descritas em prosa e verso, baseadas na medicina tupi-guarani.

Eis que o sábio e viajante francês Augusto Saint Hilaire, lá por 1821, andava em território rio-grandense, acompanhado de dois assessores nativos e provou – segundo ele – duas colheradas desse apreciado mel. Ninguém morreu, mas o que ele descreve em seu diário é uma sequência de alucinações, dores físicas, delírios e transes que até hoje é mistério não resolvido.

Foi como se as abelhas tivessem feito um mel batizado com algum ácido lisérgico ou tivessem se entupido de pólen de papoulas selvagens que, aliás, não consta existirem nessas plagas.

Saint Hilaire não era criança, passava dos 40 anos e já era botânico maiúsculo no cenário científico internacional. Há quem afirme que, recuperado do transe, refeito do susto, teria sido esse mel misterioso a causa de seu retorno à França, onde faleceu muitos anos depois. Dizem que viu e sentiu coisas a um só tempo, lindas, assustadoras e traumatizantes.

Os assessores também sentiram os efeitos entorpecentes daquela iguaria, mas em momentos e com reações diferentes.

Teve um que, no meio do campo, foi acometido de um “ataque” que o fez rasgar suas próprias roupas, dando gritos e sabe-se lá mais o quê.

Saint Hilaire já havia passado por Pelotas. Havia descrito o tratamento animalesco reservado aos escravizados nas charqueadas. Mas apesar disso e comparando com outros lugares, não poupou elogios ao povoado de São Francisco de Paula, que ele conheceu em 1821.

Disse coisas interessantes, como a presença permanente de um cheiro de açougue na pequena povoação. Ele relata – pioneiramente, suponho – que na época das matanças de gado, a população convivia com odores insuportáveis e nuvens de moscas inimagináveis. Isso ele não presenciou, mas narrou.

Felizmente, o mel envenenado surgiu depois que ele já havia descrito a Pelotas de então.

Esse seu livro faz análises de época que, hoje, seriam inaceitáveis, mas mesmo assim vale a pena ser lido, até para que se consiga entender a maneira de pensar de um cientista europeu que registrou comportamentos e hábitos dos que nos antecederam há tanto tempo.

O mistério do mel alucinógeno ainda permanece. As lichiguanas continuam fazendo casa em arbustos e a Biblioteca Pelotense tem exemplares dessa obra. Fica a dica.

*José Henrique Medeiros Pires é Licenciado em Estudos Sociais pelo ICH UFPel, Especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha e jornalista e radialista