Frio: mãos que alcançam esperança

O frio dos últimos dias despertou em muitos gaúchos o espírito de solidariedade. Multiplicam-se ações de pessoas e grupos mobilizando a sociedade para dar àqueles que se encontram nas ruas – ou com dificuldades pela pobreza – alimento, roupas e cobertas. Entidades de todos os tipos, como clubes de futebol e grupos religiosos, mostram o que temos de nobre: não basta estar bem se ao redor outros passam mal.

Alguns ainda resmungam que é preciso ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Princípio aplicável a médio e longo prazo, mas que, na iminência das pessoas congelarem ou entrarem em desespero pela fome, o que se pode fazer é atender ao imediato e, depois, cobrar das autoridades públicas que usem bem o nosso dinheiro.

Os meios de comunicação encantam com as belas imagens como o crepitar da chama de um fogão, a geada encobrindo os campos e os lagos, a neve pintando de branco ruas, árvores, carros… ao mesmo tempo, homens e mulheres saem às ruas, enquanto quase toda a população dorme ou se diverte, para deixar embaixo de uma coberta de papelão ou no costado de um cachorro que aquece seu dono, uma caneca de café ou de sopa, um pedaço de pão e uma oração…

Não importam os nomes, são servidores do bem, identificados por crença religiosa ou valores humanos, acreditam que desapego começa por gastar o próprio tempo prestando serviço a alguém desamparado. Pais contaram de jovens que se reuniam em comunidade para arrecadar donativos, preparar o sopão, acondicionar em caixas de leite e peregrinar por lugares onde encontravam pessoas que obtinham daquela forma a única alimentação decente do dia. Detalhe: aprenderam a também cuidar de suas coisas e do que era comum em casa na experiência de cuidar de alguém na rua…

A Campanha do Agasalho de 2019, do governo do Estado, diz que “toda a roupa tem uma história e toda a história pode ter um outro final”. A solicitação de doações vem acompanhada de um pedido de conscientização: doar o que ainda se pode usar. Isto é, não apenas se livrar de algo indesejado, sobrando ou atrapalhando dentro de casa.

Li em algum lugar que “um simples gesto de carinho cria uma onda sem fim”. A onda se chama compaixão, a forma como o ser humano se torna melhor, fazendo uma sociedade diferente onde a poesia também está em valorizar os belos detalhes que a natureza propicia com o frio… e, ainda mais, na paisagem humana onde se aprende com um olhar, um obrigado, um sorriso, que gratidão anda junto com solidariedade. Na prática, talvez não mude a situação social de quem está nas ruas. Mas, com certeza, não deixa morrer a crença no ser humano, de quem já desceu até o mais profundo dos abismos e encontra mãos que lhes alcançam a esperança!

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