Até nas flores

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Era janeiro, e ela, bem jovem, comprava retalhos nas lojas de tecidos e fazia vestidinhos para as bonecas de pano, algumas com linda cabeça de baquelite, comuns naquela antiga vila, hoje cidade.

Mocinha, fez blusinhas para si e para as suas irmãs, que fi­zeram imediato sucesso. Em seguida, surgiram encomendas, e costurar de brincadeira na máquina Singer da mãe virou fonte de renda. Pouca, é verdade, mas que pagava o ingresso do cinema, cortes mais finos de tecido e bancava a compra de revistas, com suas notícias e seus modelos de roupas da moda.

Quando avisou as amigas que faria algumas fantasias de carnaval, recebeu a visita de um diretor do clube de lá.

Já estava escolhida a Rainha, e a entidade ofereceria a vesti­menta para ela, mas todos saberiam antes do anúncio oficial caso as costureiras antigas do local fossem as encarregadas. Haveria um anúncio oficial; a notícia não poderia vazar.

Feita a roupa por aquela menina moça, dentro daquela casa, ninguém desconfiaria. A futura rainha era poucos anos mais velha que a aprendiz de costureira, e as visitas para as provas passariam por bate-papo entre amigas.

Autorizada pelos pais, topou o desafio. O vestido ficou lindo, a futura rainha adorou, e a jovem costureira mal podia segurar a ansiedade. Afinal, todos conheceriam seu melhor trabalho.

Faltando poucos dias para a data esperada, chegou uma notícia que caiu como uma bomba: a jovem e futura titulada foi tomar banho de sol numa praia de arroio, afastou-se, resolveu mergulhar para se refrescar e pereceu afogada.

No outro dia, no velório, a jovem costureira ouviu de várias pessoas que nunca haviam visto, em vida, a finada tão bonita. Ao se aproximar do caixão da jovem defunta, percebeu que ela fora arrumada com as vestes oferecidas pelo clube que a anunciaria rainha muito em breve.

“Até nas flores existe a diferença da sorte: umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte”, dizia o quadrinho na parede da casa funerária da vila, que, pela primeira vez, fez sentido para aquela menina, que já lera aquela cartolina algumas vezes e só agora percebeu o significado da dita naquela moldurinha perto das rosas e dos cravos.

 

*José Henrique Medeiros Pires é Licenciado em Estudos Sociais pelo ICH UFPel, Especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha e jornalista e radialista

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