A politização das Fake News

Elis Radmann, cientista social e socióloga.

Por princípio conceitual, Fake News significa notícias falsas. Essas notícias podem ser uma informação mentirosa, deturpada, elas podem estar baseadas na falsificação de um documento, na edição de um vídeo, de uma foto ou até mesmo em uma informação distorcida, descontextualizada. Nesses casos, pegam notícias antigas, de uma outra realidade e tentam dizer que esta situação está acontecendo na sua cidade ou com uma pessoa pública que você conhece.

Inclusive, essas notícias falsas podem ser produzidas de forma deliberada com o propósito de confundir ou desinformar uma comunidade. Algumas são feitas por interesse político, financeiro ou apenas por vingança ou maldade.

Então, se de um lado temos gente produzindo e distribuindo Fake News, do outro lado temos um monte de gente tentando separar o “joio do trigo”, saber separar a informação da desinformação.

Separar o “joio do trigo” é uma tarefa ingrata e complexa em um mundo cada vez mais digital, com informações instantâneas que circulam por muitos canais. Recebemos informações através do push de notificação no celular. Muitas vezes abrimos o Google e ele nos mostra uma síntese de notícias devidamente personalizadas, que parece que “falam conosco”, que foram selecionadas a partir do que pesquisamos ou até citam a cidade em que moramos.

E é bem isso, o push de notificação do celular “empurra” um conteúdo que seja atrativo para o usuário, mesmo sem a sua solicitação. E nesse caso, podem vir notícias verdadeiras e falsas. E ainda tem todos os outros canais que abrimos e estão repletos de informação, como WhatsApp, Instagram e Facebook.

E essa combinação fica mais complexa ainda quando colocamos o elemento político. Há o interesse de radicais extremistas, de direita e de esquerda, que mantêm ativo um marketing de guerra com o propósito de disseminar e alimentar o discurso do ódio. A revolta da sociedade nasce da indignação com a corrupção, com as sacanagens, usurpações e oportunismos da política.

Esses três fenômenos interagem entre si e criam um novo ambiente social em que a disseminação das Fake News se mistura ao conjunto de informações do cotidiano e é utilizada como “munição” para as diferentes narrativas políticas que crescem em cima dos dilemas e sofrimentos da população.

Essa mistura resulta na confusão ou ressignificação das palavras Fake News. As pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião no RS mostram o início de uma nova interpretação da população sobre o termo Fake News. Atualmente, para uma parcela dos gaúchos, Fake News significa uma notícia que não agrada, que não interessa ou que é contrária ao que se pensa. Na prática, Fake News está se tornando um rótulo para o discurso contrário, para a visão antagônica ou de oposição.

Essa deturpação está sendo criada pela politização do termo Fake News a partir dos embates políticos que tentam desconstituir a narrativa do adversário proferindo a máxima: “isso é Fake News”. E a população está começando a seguir a mesma lógica, se algo que desagrada é dito, o “carimbo” de Fake News aparece rapidamente como argumento de defesa.

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