À deriva

Ninguém escapa de ficar à deriva, como se estivesse em um barco sem leme, sem vela, sem vento. São momentos em que tudo parece ter perdido o rumo ao nosso redor.

A sensação de estar solto, sem âncora, sem bússola, a vagar como um vulto na correnteza de um rio veloz, nos desestabiliza a ponto de trazer a ameaça de um possível naufrágio.

E, vez ou outra, naufragamos mesmo. Deixamos, involuntariamente, que as torrentes de acontecimentos — que se sobrepõem uns aos outros, estrangulando o espaço e sufocando o tempo — nos levem de roldão para longe de nós mesmos.

Em meio ao vácuo das situações turbulentas do cotidiano, somos apenas frágeis figuras soltas, sem porto seguro para aportar. Estamos à deriva.

A inquietante e dolorosa impressão de que não pertencemos a lugar algum, de que nosso destino foi interrompido, de que nosso desempenho fracassou, nos ronda.

Porém, quando conseguimos voltar à superfície das águas calmas, no apaziguamento das tormentas, sentimos como se renascêssemos.

Entendo agora o que Mario Quintana escreveu: “Ai de ti, ai de mim, ó velho mar bravio, eu venho sempre à tona de todos os naufrágios”.

E, pensando bem, não há nada de estranho nisso, porque somos teimosos sobreviventes de vendavais e tormentas. Os naufrágios são mais frequentes do que supomos. Acontecem, sabe-
se lá por que razão, e são, além de imprevisíveis, excessivamente inconvenientes e assustadores.

Lembro de todos os meus naufrágios — do medo, da insegurança, dos danos que causaram. Abalos? Sim. Não se consegue escapar. Mas, em contrapartida, dentro de nós há uma alavanca, uma mola propulsora que nos faz emergir em busca de ar, ao encontro da luz.

Por menos ou mais que queiramos, temos em nós o ingrediente mágico da resiliência, da força de recomeçar, de ressurgir na procura de um ancoradouro.

Há quase sempre a luz de algum farol a brilhar na escuridão ou a surpresa de um pedaço de madeira flutuando ao alcance das nossas mãos. A salvação surge, e nos socorremos, agarrando com unhas e dentes a chance de sobreviver.

E assim seguimos, buscando novas margens e inéditos horizontes — resilientes, com os pés em terra firme, e não mais à deriva.