A dependência química depois da pandemia

Manoel Jesus, educador.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou alerta com relação ao consumo de drogas lícitas e ilícitas durante a pandemia, com reflexos quando ela efetivamente passar. Um estudo da PUC/RS apontou que “O distanciamento social tem gerado diferentes efeitos psicológicos nas pessoas, como ansiedade, estresse, insegurança, incerteza e solidão”. Destacando: “sentir-se triste, entediado ou ansioso pode criar o “cenário perfeito” para iniciar ou aumentar o uso de álcool e outras drogas, ou mesmo favorecer uma recaída em alguém que já não utilizava mais determinada droga”.

Tanto as drogas lícitas – álcool, cigarro, remédios… – quanto as ilícitas – maconha, cocaína, crack, por exemplo, podem estar ligadas a riscos, sejam eles eventuais, como o envolvimento em acidentes, quedas, brigas; ou duradouros, atingindo as relações familiares/sociais, o trabalho, a situação jurídica, bem como a saúde física e mental.

O confinamento mostrou que o homem consome mais drogas lícitas, mas também foram preocupantes os casos de mulheres e jovens/adolescentes que tiveram que recorrer aos serviços de atendimento de saúde pública. Um problema que se manifestou em todo o mundo e levou a OMS, em meados do ano passado, a recomendar que os governos limitassem a venda de bebidas.

A África do Sul fechou as seções dos supermercados e cidades norte-americanas proibiram a venda de álcool pela internet. No Brasil, não aconteceram restrições além do fechamento de bares em cidades em que se adotou o isolamento social. Seria até um reforço para as campanhas de prevenção, não fosse o brasileiro adorar uma “lei que não pega” e apelar para seus fornecedores clandestinos, no mercado negro…

Seu Rui administrou um comércio durante 40 anos. Em duas ocasiões, viu-se diante da violência. Logo que iniciou a atividade, um rapaz entrou na loja e anunciou o assalto. Ele e duas empregadas levaram um susto, tentou conversar e conseguiu, sabendo que era um desempregado que não conseguia sequer um bico por ser despreparado. O que o levou a encerrar a atividade foi o segundo caso: jovem invadiu o comércio e queria dinheiro ou o que pudesse trocar por drogas. Incoerente, não aceitava dialogar e parecia sentir prazer em infligir sofrimento, especialmente às mulheres.

A pandemia também expôs as desigualdades sociais. Um dos números que preocupou nas periferias foi de que o isolamento e o consumo de álcool, especialmente, aumentou em até 50% a violência contra mulheres e crianças em casa. No último ano, uma em cada quatro mulheres sofreu algum tipo de agressão. Eliane Gonçalves escreveu para a Rádio Nacional: “a violência contra a mulher mantém padrões antigos, mas, agravados pela pandemia, tornou o ambiente doméstico um lugar ainda mais hostil”. E alertou: “o convívio mais longo com os agressores, a perda de renda familiar e o maior isolamento afastam as mulheres das suas redes de proteção”.

Também se tem, entre as drogas lícitas, o cigarro, contra o qual o professor Roni Quevedo tem sido “uma voz que clama no deserto”. Os especialistas e pesquisadores já formam um quadro das mazelas que se apresentam no pós-pandemia. Elas não são novas, mas vão se somar aos problemas físicos que o covid deixa. É preciso bom senso e ouvir as vozes que, efetivamente, se respaldam na ciência para delimitar diagnósticos e possibilidades de tratamento. São tempos delicados demais para que, mais uma vez, atue o “achismo” e se faça politicagem com a vida do cidadão…

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