Pagamento de 25% do salário de julho leva funcionários da Santa Casa de Pelotas a indicativo de greve

Santa Casa de Pelotas (Foto: Arquivo/Carina Reis/JTR)

“Agora aqui é lei: passou de três meses trabalhando aqui, é hipertenso”. É assim que um funcionário da Santa Casa de Pelotas descreve a atual situação da instituição. Com dívidas desde 2010, o hospital não consegue pagar o salário do funcionalismo integralmente há dois anos.

Segundo a funcionária Gilda Bialva, em 30 anos de serviços prestados à instituição, essa é a pior crise que viu. “Recebemos apenas 25% do salário de julho, quem está de férias não recebeu. Nunca vi uma crise assim”, relata.

Pelos corredores, o assunto é um só: a consequente falta de algum material nas residências dos funcionários e no hospital. O funcionário, que pediu para ser identificado pelas iniciais C.M.F., conta que todos os dias escuta algum colega falando que não tem comida para pôr na mesa, está sofrendo ordem de despejo e está ficando doente.

“Tem muito colega que passa mal aqui, dentro de um hospital, e precisa enfrentar quatro, cinco horas de fila lá no Pronto Socorro. Ou seja, trabalhamos em um hospital e não podem nem nos atender, pois falta curativo, luva. Nem papel higiênico temos”, desabafa.

“Tem colegas que estão com aluguel atrasado há dois meses, outros estão perdendo casas e apartamentos pelo Minha Casa Minha Vida, por falta de pagamento e isso é muito triste”, relata C.M.F.

Conforme ele, na terça-feira (23) havia uma reunião marcada com o provedor João Francisco Neves, às 13h, que depois foi remarcada para as 15h. “Reunimos o pessoal, mas tivemos que sair, pois a reunião não aconteceu e íamos atrapalhar a missa”, conta.
De acordo com Neves, o pagamento está sendo realizado como pode, mas nunca ultrapassará um mês. “Estamos nos organizando para o pagamento dos funcionários que ganham menos, nós consigamos passar um percentual maior para eles terem mais tranquilidade e não passarem tanto trabalho”, explica. E acrescenta: “Estamos tentando fazer com que quem ganha menos de R$ 10 mil receba, dentro do possível, um percentual de, no mínimo, 50% do salário no início do mês”.

A instituição passou por uma consultoria do Hospital Sírio Libanês. Só em dívida bancária e juros, a Santa Casa paga mais de R$ 1 milhão. “Este valor corresponde a 50% da folha”, diz o provedor.

Ele também afirma que a dívida com o quadro médico é de R$ 13 milhões, já com o banco é de R$ 39 milhões e a dívida com fornecedores em torno de R$ 30 milhões. “Essa situação vem desde 2010”, comenta.

Agora, uma solução para o problema financeiro do hospital é a venda da dívida para um banco. “A consultoria nos apontou esta solução e estamos em negociação com o Banrisul e a Caixa Econômica Federal”, finaliza.

Segundo a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Serviços de Saúde de Pelotas, Bianca D’ Carla, a direção da Santa Casa alega que uma emenda parlamentar para a instituição está parada na Secretaria Municipal de Saúde (SMS). “Se, a partir do quinto dia útil [de agosto], os funcionários não estiverem com, pelo menos, 50% do salário de julho pago, iremos nos reunir novamente para decidir sobre a greve. Não queremos prejudicar ainda mais o hospital, mas a situação está triste”, desabafa.

O sindicato está organizando uma Zumba Solidária no próximo dia 3, às 18h, para arrecadar doações aos funcionários. A inscrição será um quilo de alimento não perecível e pode ser realizada na rua Marechal Deodoro, 360, sede do sindicato.

O secretário de Saúde, Leandro Thurow, explica que, para repassar as duas emendas parlamentares destinada à Santa Casa, é necessária a compra de um serviço do hospital pela Prefeitura de Pelotas. “Não é um repasse, precisamos que haja uma venda de algum serviço, como cirurgia, endoscopia. A SMS e a instituição já estão criando projetos para aplicar as emendas”, garante.

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