Em meio ao caos, a solidariedade

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Sabemos que o coronavírus (Covid-19) está requerendo da imprensa informação em tempo integral. Números de casos confirmados e mortes atualizados, entrevistas com governantes, depoimento de especialistas para orientar a população. Mas, no meio disso tudo, ações que trazem esperança e renovam as energias também devem ter evidência.

Em um mundo e país com tantas situações ruins e desigualdades, a solidariedade vem como forma de alívio para quem precisa de ajuda. Diante do coronavírus, milhões de pessoas que compõem os grupos de risco e instituições de saúde pública se veem dependentes de ajuda voluntária para seguir suas vidas e funcionamentos.

Nas redes sociais, é visível a grande mobilização, principalmente entre jovens e adultos, para auxiliar idosos, imunodeprimidos e famílias que têm crianças menores de dois anos que devem evitar sair de suas casas. Seja com uma compra no mercado, na farmácia ou até mesmo levar o cachorro para passear, a corrente de solidariedade para contribuir com o isolamento social, principalmente daqueles que têm maior propensão à contaminação do coronavírus, vem tornando-se um fenômeno mundial.

Outro grande grupo que está colaborando para diminuir o impacto da deficiência de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) são as instituições de ensino. Na Zona Sul, a parceria entre o Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFsul), a Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), além do governo do Estado, para a produção de álcool gel e álcool glicerinado 70% vem chamando a atenção não só pela ação, mas, principalmente, pela eficiência das equipes. A destinação da produção será as instituições de saúde que atendem pelo SUS, como hospitais e unidades de pronto atendimento.

A parceria conta também com a ajuda da Biri Refrigerantes. Segundo o responsável pelo setor de Marketing, Leonardo Schneider, a empresa foi procurada pela reitoria e o departamento de Química do IFSul, os quais, juntos à UCPel e UFPel, propuseram a parceria para o envase de uma carga de 35 mil litros de álcool cedida pela Secretaria Estadual de Saúde (SES). “A mesma será envasada em embalagens de dois litros e outra parte será transformada nos laboratórios das instituições de ensino em álcool gel”, explica.

Enquanto aguardam o insumo cedido pela SES, que deve chegar ainda hoje (27), as instituições de ensino começaram, desde o último dia 20, a produção através de matéria-prima própria. A UFPel, que teve a quinta-feira (26) como o último dia de produção do gel devido ao término dos insumos, já produziu 363 litros de álcool gel e 660 litros de álcool glicerinado 70%. A UCPel produziu 200 litros de álcool gel entre a última segunda-feira (23) e terça-feira (24) e também aguarda o envio pelo governo estadual para seguir a produção. Já o IFSul – que está recebendo doações de álcool 92,8º e glicerina no campus Pelotas, localizado na praça 20 de Setembro, 455, sem contato entre pessoas para evitar contaminação – produziu 800 litros de álcool glicerinado 70%.

Produção de máscaras

Um outro projeto da UFPel é a produção de máscaras de proteção facial para profissionais da área de saúde que atuam no SUS. Os protótipos das “Face Shields” estão sendo desenvolvidos desde o início desta semana e foram aprovados na última quarta-feira (25) pela Secretaria Municipal de Saúde.

Para esta confecção, serão utilizadas, inicialmente, três impressos 3D da instituição, que terão capacidade para produzir 30 máscaras por dia. O projeto, que começou com a contribuição dos professores do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDTec), já começa a receber contribuição de pesquisadores de outras unidades da UFPel. Conforme o professor do CDTec, Guilherme Netto, a produção irá depender do estoque de material. “No CDTec temos um estoque para imprimir cerca de 400 máscaras, mas conforme sejam arrecadados mais insumos podemos ampliar a produção inclusive colocando mais uma impressora em rede”, avisa.

O curso de Design de Moda, do IFSul, também está realizando a confecção de máscaras descartáveis desde a terça-feira (24). Segundo a coordenadora do curso, Paula Leite, são 15 pessoas envolvidas na causa, além dela, dois professores e alguns alunos voluntários estão mobilizados na produção, cinco pessoas trabalhando no campus e 10 cada uma em sua casa, para evitar aglomeração. A equipe realiza o corte e a costura e a UFPel esteriliza as máscaras para que elas possam ser utilizadas pelos profissionais da saúde.

“Até agora foram cortadas 4 mil máscaras e queremos finalizar entre hoje (27) e segunda-feira (30). Temos mil máscaras prontas e após a produção destas máscaras, elas vão para UFPel para serem esterilizadas e depois encaminhadas para a Secretaria Municipal de Saúde (SMS)”, adianta Paula.

Atendimento médico e acolhimento psicológico

Outra iniciativa solidária é o serviço online gratuito de orientação médica ao Covid-19 e acolhimento psicológico através da startup pelotense Fácil Consulta. A empresa, que oferece marcação de consultas particulares com valores mais acessíveis, lançou nesta semana uma nova ferramenta online e gratuita sobre o coronavírus e está disponível aos pacientes desde a segunda-feira (23).

Segundo o CEO da Fácil Consulta, Ramiro Martins, a ideia surgiu quando a empresa viu um movimento rápido e intenso, no final da última semana, de consultórios parando atendimentos, agendas ociosas e um significativo aumento de demanda de pacientes querendo informações a respeito da doença. “Dava para ver bem que os pacientes estavam angustiados, aflitos, sem saber muito o que fazer, às vezes mal informados, e então pensamos que seria viável montar um serviço, contando com a ajuda dos médicos e dos psicólogos voluntários”, conta.

“[Os profissionais] viram que, realmente, existia essa dor nos pacientes, fizemos a intermediação, montamos a plataforma, trouxemos esses voluntários e a demanda de pacientes já era existente. Desta forma lançamos o serviço em questão de dois dias”, acrescenta.

Quanto à agilidade na criação, o CMO da Fácil Consulta, Patrick Goulart, conta que como a startup já tinha um site com médicos, pacientes, organização de agenda e de agendamentos, a criação do site foi mais fácil de ser feita. “Embora muitas pessoas estejam dispostas a ajudar neste momento, nós buscamos profissionais certificados, que passam uma orientação correta”, destaca.

A plataforma recém-criada agora busca novos profissionais de todo país que tenham interesse e disponibilidade para, de forma gratuita, oferecer seus serviços médicos e psicológicos.

“O atendimento médico e o acolhimento psicológico são feitos por videochamada ou ligação telefônica, dependendo da situação. A orientação médica é de 10 minutos, uma conversa com o médico com aqueles que têm dúvidas ou sintomas do Covid-19, próximos ao da gripe e de resfriados, além de dúvidas de maneira geral, se devem ou não procurar um pronto atendimento, por exemplo. Já o acolhimento psicológico, temos visto que é para muitas pessoas que tem problemas de ansiedade, que estão aflitas em casa, longe dos familiares, que não podem visitar o pai ou a mãe, porque eles têm que ficar em isolamento. A conversa com o psicólogo dura 30 minutos e temos visto um ótimo efeito e o tempo está adequado às situações”, informa Martins.

De acordo com Goulart, o profissional que tem interesse em auxiliar na iniciativa deve realizar um cadastro com nome, meio de contato, o registro no devido conselho e também a disponibilidade de horários que ele possa fazer esses atendimentos. “Não é burocrático. Neste momento, queremos desburocratizar e dar vazão aos profissionais que querem ajudar”, esclarece.

“Pensamos na melhor maneira possível para este atendimento acontecer fácil e sem burocracia, então, o paciente entra no site, escolhe qual serviço ele vai querer, ele passa por uma triagem para ver se ele realmente se enquadra no proposto e, por fim, pode agendar com o especialista, o qual entra em contato com o paciente, abrindo uma sala online. Se o profissional perceber uma dificuldade por parte do paciente em utilizar a videochamada, ele liga para o paciente e faz a consulta por ligação”, explica o CMO.