Produção e consumo de arroz podem ser agentes de mudança frente ao aquecimento global

Conforme os painelistas, a agricultura vive, atualmente, a segunda revolução verde. (Foto: Paulo Lanzetta)

O arrozeiro gaúcho é um produtor exemplar para o Brasil e para o Mundo por possuir altas produtividades em suas lavouras. Quanto mais se produz o cereal por hectare, menor é a emissão de gases do efeito estufa como Metano e CO2, observou o professor da Universidade Federal de Santa Maria, Nereu Augusto Streck, ao participar do terceiro painel do 13º Congresso, que abordou os Impactos e desafios do arroz irrigado face às mudanças climáticas. “Nós mostramos hoje com dados de lavoura, de produtor, que a cada quilo de arroz que é colhido nestas lavouras que têm alta produtividade, foram emitidos menos gases de efeito estufa”, afirmou.

Segundo ele, na prática, o consumidor de arroz, também está contribuindo para a redução do aquecimento global, já que o cereal é o alimento principal do brasileiro. Segundo Streck, a UFSM entrou com um pedido de patente para um selo de arroz sustentável com base nessas informações. “Aqueles produtores que serão certificados por este selo, vão poder diferenciar este arroz na indústria e na gôndola do supermercado como arroz sustentável”, disse.

A ciência vem mostrando que cada vez mais se caminha para um planeta um pouquinho mais quente, diz. “Não aconteceu nos últimos dois mil anos e agora está aquecendo um pouco mais rápido. Com isso, já não dá mais para dizer que há uma dúvida, pois é cada vez mais uma certeza”, ressaltou. O impacto disso no produtor rural, na agricultura e na produção de alimentos é que temperaturas mais elevadas tendem a gerar mais problemas às lavouras, entre eles, a redução de produtividade.

“Aí entram as estratégias que os produtores devem começar a adotar para manter a produtividade, porque é muito importante a produção de alimentos. Temos cada vez mais pessoas no mundo e precisando comer, no Estado, País e Mundo”, afirmou. Segundo ele, isto tudo está colocado na mesa em Congressos como o do arroz irrigado, em que a fronteira do conhecimento é discutida e traz soluções práticas para os produtores.

Streck salienta que a agricultura vive hoje a segunda revolução verde, em que o principal insumo é o conhecimento. “Na primeira, que foi nas décadas de 50, 60, 70, os principais insumos foram os fertilizantes e o melhoramento genético”, afirmou. Ele alerta os produtores que ainda não estão conseguindo ser eficientes que se informem, junto à sua associação de produtores, onde são feitos estes eventos. “Vale a pena gastar um meio-dia longe da sua propriedade e ir a estes eventos para se informar e, a partir dessa informação, voltar para casa e começar a colocar em prática o que pode ser feito diferente e melhorar”, afirmou.

“O aumento da temperatura vai permitir que se expanda a produção”, disse Walkyria Bueno Scivittaro. (Foto: Paulo Lanzetta)

A pesquisadora da Embrapa Clima Temperado Pelotas, Walkyria Bueno Scivittaro, que integrou o painel ao lado de Streck, comenta que com o aumento da temperatura se sabe que a região Sul do Brasil pode ter eventos climáticos extremos maiores e mais chuvas. “O aumento da temperatura vai permitir que se expanda a produção, então é uma das regiões do Brasil onde vai poder aumentar a produção de arroz”, disse.

No entanto, com este aumento de temperatura e de concentração de CO2 na atmosfera haverá maiores riscos de aumentar também as emissões da lavoura de arroz. “Então foram tratadas as opções que o produtor teria para reduzir esta emissão, porque se ele não reduzir a emissão, vai sofrer ainda mais com as mudanças climáticas”, afirmou. Segundo ela, o produtor gaúcho e brasileiro já adota muitas destas alternativas, por ser um produtor muito eficiente, até pela conjuntura de ter uma lavoura muito cara e uma rentabilidade muito baixa, precisa ser cada vez mais eficiente, produzir mais para pagar as contas.

Com o uso de cultivares de alta produtividade não sobra tanto Carbono para emitir dentro da lavoura, afirma. Outras questões como manejo da água, preparo antecipado, semeadura na época correta também já são usadas. “Várias técnicas ele já usa para ser economicamente sustentável e inconscientemente também contribui para o meio ambiente”, disse. Por sua vez, o melhoramento precisa trabalhar para lançar cultivares que emitem menos e que se adaptem a esse clima que se está vivendo”, ressalta.

O desafio, segundo a pesquisadora, é conseguir cada vez produzir mais e de uma forma sustentável. “Da mesma forma que a agricultura contribui para as emissões e para as mudanças climáticas ela também é afetada”, explica.

O setor da produção é o que tem o maior potencial para contribuir na redução das emissões mas, se não fizer a sua lição de casa, será o mais afetado, finalizou.