Produção de fumo está na família há quase meio século em Pelotas

Na propriedade de 13 hectares localizada na Colônia Santo Antônio, a família Rusch, formada por Edo, a esposa Rosane e o filho Marcos, esperam colher 11 mil quilos de tabaco. (Adilson Cruz/JTR)

O fumo faz sucessão familiar na zona rural de Pelotas. Que o diga os Rusch. A cultura está presente na família há quase meio século. O patriarca Edo, 60 anos, se familiarizou com esta produção ainda criança, aos 12, quando o pai, já falecido, aderiu à plantação de tabaco na propriedade da família – à época, localizada na Colônia Santa Coleta, interior do município. Hoje, estabelecidos em uma área de 13 hectares na Colônia Santo Antônio, ele, os filhos Marcos e Maurício, a esposa Rosane, e as noras Andréia e Márcia finalizam mais uma safra, na qual plantaram 50 mil pés em pouco mais de três hectares. Desta área esperam colher 11 mil quilos.

A estimativa é boa, avalia Marcos, o primogênito de Edo. Principalmente porque não foi uma safra qualquer. Teve início, como todas as outras, em setembro. Até aí nada de novo. Em outubro, no entanto, correu riscos devido ao excesso de chuva e incidência de granizo. “Teria sido melhor não fosse o clima”, acredita o patriarca. Temperaturas abaixo da média registradas em janeiro também foram outro fator que não ajudou o produtor na safra 2024, cuja colheita deve finalizar em março.

Apesar dos percalços típicos de quem trabalha com produção agrícola, ele não se arrepende da escolha que fez pelo fumo. Para Edo, o tabaco é a única cultura que dá retorno na pequena propriedade. “Se tira o fumo não sei se não vai ter gente passando fome, [pra] quem tem pouca terra o negócio é plantar fumo”, defende. Só não sabe ainda se a família vai dar continuidade à plantação futuramente. O filho, Marcos, reforça a dúvida. Seriam dois os motivos: a carga de trabalho exigida (ao contrário de outras culturas, o fumo é pouco afeito à mecanização – “é tudo à mão”, justifica) e a escassez de mão de obra no ambiente rural – problema que afeta praticamente todas as frentes de trabalho no campo. “Mão de obra praticamente não existe, ninguém mais quer trabalhar em fumo”, lamenta o produtor, técnico agrícola formado no Conjunto Agrotécnico Visconde da Graça, atual Campus Visconde da Graça do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul).

“É pesado, chove ou não chove a gente tem que estar na lavoura, colhendo”, ressalva.
Por isso, diante da falta de mão de obra, os Rusch vêm diminuindo a produção nas últimas três safras. Na de 2022 plantaram 90 mil pés, dos quais colheram 12 mil quilos; na de 2023, 60 mil, da qual foram colhidos dez mil quilos. Esse é um dos principais motivos que fez a família começar a migrar para a soja. Somente neste ano foram semeados 118 hectares – 106 deles em terras arrendadas. A vantagem é que trata-se de uma lavoura mecanizada, cujo manejo não exige o mesmo esforço físico.

Um dos entraves para escalar a produção é a falta de mão de obra necessária, pois o trabalho é quase integralmente manual. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Das fumageiras recebem assistência técnica gratuita e garantia da compra da produção. O restante (sementes, EPI e insumos) é com o produtor. O preço também é estipulado pela indústria. Ano passado, de acordo com a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), o valor médio ficou em R$ 18,37. Atualmente, segundo Marcos, a indústria paga R$ 22 pelo quilo do BO1, fumo considerado de melhor qualidade. A classificação é feita pelas fumageiras, que pagam ao produtor conforme a qualidade do fumo entregue.

O custo de produção merece atenção. O metro da lenha necessária para secagem está entre R$ 120 a R$ 130. Apenas para uma “estufada” o produtor precisa de pelo menos cinco metros. Para esta safra, como em anteriores, os Rusch se prepararam e utilizaram lenha que eles próprios cortaram na propriedade. Não fosse assim aumentaria o custo de produção. A energia não é barata. Durante a colheita, na estufa elétrica da propriedade – a outra é “raiz”, sem eletricidade – a conta gira em torno de R$ 400 a R$ 500 ao mês. As constantes quedas no abastecimento que marcaram 2023 resultaram na queima de um motor. “Vinha, voltava, dava um minuto, caía de novo”, lembra Marcos.

Edo, de 60 anos, conheceu a produção aos 12, com o pai,
em propriedade na Colônia Santa Coleta, e hoje realiza
o ofício com os filhos. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Há, no entanto, flores entre os espinhos. Deixar a produção agrícola é, para a família, que ganhou um novo membro há 45 dias (Pedro, filho de Marcos), impensável. Os Rusch reconhecem que graças ao fumo foi possível garantir qualidade de vida no campo. “Se a indústria garantisse um preço mínimo, fixo, daria ao produtor uma segurança maior – os preços variam de R$ 2 a R$ 22, cada safra é um processo que depende da produção, mas esta safra vai ser boa, e quando a safra de fumo é boa, movimenta toda a economia”, afirma Marcos.

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