Na indústria do pêssego, desafio é manter o mercado externo

Produto produzido na Zona Sul está sendo comercializado para países como Uruguai, Paraguai, Bolívia, Equador e Venezuela, mercado que era suprido pela Argentina. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Pelo segundo ano seguido, o pêssego em calda produzido nas indústrias pelotenses vai cruzar fronteiras, em direção ao mercado externo. Países como Uruguai, Paraguai, Bolívia, Equador e Venezuela, que até 2020 comercializavam produto beneficiado pela indústria argentina, serão novamente abastecidos com as compotas fabricadas em sua maioria na zona rural de Pelotas.

“Já vendemos quase 12, 13 milhões de latas – fora pedidos para entregar contando com a safra nova”, comemora Paulo Crochemore, presidente do Sindicato das Indústrias Alimentícias de Doces e Conservas de Pelotas e Região (Sindocopel).

Apesar de reconhecer que para a indústria o momento está “muito favorável”, Crochemore alerta que é necessário ter maturidade para dar conta do desafio de manter esse mercado que há até dois anos era dominado pelo principal concorrente do pêssego pelotense.
Para ele, alcançar o objetivo de se manter competitivo nos países onde o produto local conquistou esse espaço tão sonhado, dependerá de dois fatores: qualidade – “é um mercado mais exigente” – e preço (“hoje, para exportar, tem que ter preço”).

Para Paulo Chochemore, quebra de até 40% na produção não preocupa, pois os frutos nesta safra estão maiores, o que deve proporcionar maior rendimento, de forma a envasar este ano até 43 milhões de latas nas indústrias da região. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Quanto à primeira, o empresário é confiante. “Nossa fruta não é tão grande como a argentina, mas é mais tenra e saborosa, tem mais consistência”, compara.

Já quanto ao preço, que hoje estaria em US$ 14, contra US$ 17 em moeda norte-americana praticado pela indústria do país vizinho, Crochemore clama por entendimento – apesar da quebra da safra, a qual a indústria não contava. “Somos, indústria e produtor, uma cadeia, mesmo entendendo todos os problemas da quebra de safra não se pode pagar um preço exorbitante, que nos tire desses mercados. Não se pode correr o risco de perdê-lo porque, se perdermos, até recuperá-lo de novo será muito difícil”, alerta. “Se tiver aceitação boa e preço bom, ninguém nos tira esse mercado”, assegura.

A busca pela consolidação do pêssego em calda pelotense além do mercado interno tem boa justificativa: é atrativo e abre novas possibilidades de negócios. Vale lembrar que o mercado nacional do pêssego se limita aos três estados da Região Sul e uma fatia do Sudeste (São Paulo).

“Ano que vem com certeza vamos ter safra grande, não vamos vender só no mercado nacional. Já produzimos [no passado] 60 milhões de latas – o governo precisou comprar um excedente de 20 milhões de latas para distribuir na merenda escolar e em programas sociais”, relata.

Essa oportunidade não caiu do céu, é claro. Mas um conjunto de fatores externos contribuiu, como a crise econômica na Argentina, que tirou competitividade da indústria local, e a alta do transporte marítimo provocada pela pandemia, retirando de cena o pêssego grego – justamente os principais concorrentes da fruta cultivada nos pomares da zona Sul do Estado.

Nesta safra, a estimativa é de sete mil postos de trabalho, além de empregos indiretos. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Expectativa
Para o presidente do Sindocopel, a expectativa é de envasar este ano até 43 milhões de latas. A quebra, que pode chegar a preocupantes 40% nos pomares de Pelotas e região, no entanto, não assusta a indústria, que tem recebido uma fruta com mais qualidade que na safra anterior. “Era um pêssego muito miúdo, este ano não é o que está acontecendo, pode ser uma safra menor em volume de fruta, mas deve nos dar rendimento melhor por lata”, prevê Crochemore.

A comercialização, pelo custo da safra, deve superar os R$ 7, o que deve ser definido a partir de janeiro. Hoje, o custo da fruta é o segundo item mais caro do produto pêssego em calda, diferentemente do ano passado, quando era lata e açúcar. “Neste ano é lata e fruta”, informa o empresário.

Crochemore estima em torno de sete mil postos de trabalho abertos na safra atual – além de empregos indiretos nas áreas de transportes e metalomecânico, como metalúrgicas para fabricação de latas e equipamentos, como máquinas de descaroçar (“estão aqui em Pelotas”, informa o presidente do Sindocopel) e para produção de tampas para vidros de conservas – unidade que funciona em Cerrito, a 62 quilômetros de Pelotas.

“Está ficando tudo na região, agora que a América do Sul está comendo o nosso pêssego, e pêssego em calda quem faz é só nós. As perspectivas são boas, nosso parque industrial é para 100 milhões de latas e está ocioso, precisamos e podemos ampliar essa produção, há total capacidade para isso”, afirma Crochemore.

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