As campanhas de incentivo ao consumo de arroz precisam ser contínuas, não apenas nos momentos de mercado em baixa. A ideia foi defendida pelo diretor executivo do Sindicato da Indústria do Arroz no Estado do Rio Grande do Sul (Sindarroz RS), Tiago Sarmento Barata, durante o 13º Congresso, ao integrar o primeiro painel sobre Mercado de arroz.
“Não precisamos esperar que os preços caiam para perceber que é preciso tomar medidas para reduzir a queda do consumo. Os preços sobem e isso acaba no esquecimento”, ressaltou.
Segundo Barata, o momento é preocupante e desafiador, com desvalorização significativa do produto nos últimos meses, mas não se pode atribuir esta desvalorização exclusivamente ao aumento de área, como é defendida por alguns integrantes da cadeia produtiva. “Não acho que é simplesmente reduzindo área que vamos resolver o problema”, ressalta. A atual conjuntura é consequência de uma série de fatores, entre elas, o aumento de área, mas também de produção, ressalta. “Acho que se deve ajustar áreas, favorecer aquelas mais eficientes e produtivas”, disse.
E as ações não devem se relacionar apenas ao consumo, mas também à eficiência produtiva, custos de produção e busca de novos mercados para exportação, diz. Segundo ele, preços melhores acabam mascarando os problemas. Atualmente, os preços no mercado estão entre R$ 69,00 e R$ 70,00 o saco em casca e o custo de produção, próximo a R$ 100,00, valor definido pelo Irga. “Esse é apenas uma referência, pois cada produtor tem o seu custo e a consciência da sua realidade para tomar suas decisões”, ressalta. O que não pode ocorrer, quando há valorização nos preços, é deixar de se preocupar com consumo e custo de produção, e na euforia acabar plantando em áreas que sabidamente não são tão eficientes, argumentou.
Diante de uma produção de 12,3 milhões de toneladas, consumo de 10,5 milhões de toneladas e déficit na balança comercial, o Brasil deve terminar o ano com um estoque de passagem em torno de 2,2 milhões de toneladas, segundo Barata, um volume histórico. “Reduzir área agora e diminuir a produção ainda não vai resolver o problema no ano que vem, quando ainda vamos ter uma posição de estoque alto e compensar esta redução de safra, mas por outro lado se não reduzir área, vamos ter ainda mais produto”, disse.
O cenário ideal é ter preço que cubra o custo de produção e deixe uma margem para garantir produtor e cadeia produtiva motivados, ressalta. “Não precisamos um preço que cause euforia mas que traga uma remuneração adequada e garanta oferta”, diz. Toda a área que se reduzir aqui, aumenta no Paraguai, principal concorrente do Brasil no Mercosul, com boas centrais competitivas, mais próximas do centro consumidor, diz. “Isto seria abrir mão de uma parcela do mercado que estava sendo ocupado pelo arroz gaúcho para que seja ocupado por outros países”, alertou.
Balança comercial
As exportações no ano safra foram até agora de 650 mil toneladas, de março a julho. No ano comercial, que vai até fevereiro, a tendência é que se atinja 1,6 milhão de toneladas, número projetado pela Conab e compatível com a realidade, diz. “O preço baixo nos dá condições de exportar mais”, ressaltou. Os principais mercados são África para arroz quebrado e América Central, para em casca, principalmente Costa Rica, México e Nicarágua.
No beneficiado, os Estados Unidos são os principais compradores, para suprir o chamado “mercado da saudade”, ressalta. “São brasileiros e latinos que estão lá e querem o nosso arroz”, diz. As tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump aos produtos brasileiros, podem afetar este mercado, diz. “O arroz brasileiro vem crescendo a sua participação no mercado americano”, salientou.
No ano passado, os Estados Unidos comprou quase 30 mil toneladas de arroz beneficiado, empacotado com embalagem do Brasil, um produto com alto valor agregado, ressalta. O mercado do beneficiado é bem restrito e perder uma venda de 30 mil toneladas atrapalha, diz. “Estamos confiantes que o próprio comprador americano faça uma pressão para que se regularize esta questão da tarifa. Além disso, historicamente Trump tem voltado atrás nas suas medidas”, apostou.

Contratos de opção
Na mesma semana do Congresso, a Conab anunciou a aquisição de arroz de produtores gaúcho e catarinenses, por meio de Contratos de Opção de Venda (COV), uma medida que vem ajudar neste momento, principalmente por dar liquidez no mercado, disse Barata.
“O mercado está com baixa liquidez apesar da safra cheia, pois os preços baixos desestimulam os produtores a vender”, ressaltou. Segundo ele, quem tem produção está segurando na expectativa de uma recuperação futura de preços, que não virá.
“O contrato de opção além de alternativa para dar liquidez ao mercado, enxuga um pouco este produto que fica armazenado nos estoques do governo e estabelece uma referência de preço para frente, compatível ao atual momento do mercado”, disse. A medida favorece em especial o produtor mais longe do porto, que não tem condições de exportar. “Na prática, os R$ 73,00 definidos nos contratos de opção é o preço que o produtor recebe para exportar”, disse. Quem está em Pelotas, por exemplo, não vai ter interesse em entrar no contrato de opção porque tem a exportação como alternativa, acredita.
Segundo ele, o Governo precisa reconhecer a importância que o arroz tem na segurança alimentar do País. “O que ameaça a segurança alimentar não é uma frustração de safra, mas o produtor frustrado”, diz. O melhor caminho para garantir a produção e o abastecimento é garantir que o produtor esteja satisfeito, que a atividade seja viável economicamente”, concluiu.
Campanha Nacional
Durante o Congresso, foi lançado o movimento “Vai de Arroz”, que tem a adesão dos diferentes agentes e elos da cadeia produtiva do arroz. De acordo com o líder de negócios para arroz e trigo da Basf, Carlos Almeida Durso Carneiro, o objetivo é aumentar o protagonismo do arroz na alimentação do brasileiro, dentro e fora de casa, por meio da conscientização sobre seus valores nutricionais e versatilidade, inspirando o consumidor a adotar uma alimentação mais natural e um estilo de vida saudável com comida de verdade.
“O movimento foi construído por muitas mãos, indústrias, associações, federações, academia, todos unidos no mesmo objetivo, fomentar o consumo de arroz no Brasil”, ressalta. Segundo ele, a organização encontra-se na etapa de definição da governança interna e os próximos passos a serem dados. “É um movimento de todos, em que há um grande envolvimento de representantes de todos os elos da cadeia, muito conscientes do desafio”, finalizou.




