
Aberta no sul do Estado no dia 1º de fevereiro, a safra do camarão e da tainha ainda não tem resultados expressivos. Durante as duas primeiras semanas de trabalho, a produção dos pescadores de Pelotas, Rio Grande, São José do Norte e São Lourenço do Sul foi pequena e os relatos são de escassez e tamanho diminuto do crustáceo nas principais áreas de pesca.

Na Colônia de Pescadores Z-3, em Pelotas, a safra começou somente no dia 8 e pouco se pescou até agora. Durante a primeira semana de trabalho, a média de captura, conforme os pescadores, girou em torno de 200 quilos por embarcação e apenas uma pequena parte dos 3 mil pescadores registrados foram em busca do crustáceo. A oferta, ainda pequena, mantém o preço alto para os consumidores, em torno de R$ 50 o quilo do produto limpo.
A qualidade do camarão capturado no estuário da Lagoa dos Patos também está abaixo do esperado por pescadores e comerciantes. “Ainda está muito miúdo, tem que deixar crescer um pouco mais para valer a pena. Por isso, vamos esperar até o final de fevereiro ou início de março para ir atrás”, disse o pescador Mário Nolasco de Almeida. Ele e a esposa Cláudia Almeida possuem, também, uma peixaria na qual comercializam apenas a própria produção. Ambos concordam que, apesar da procura dos consumidores, é melhor esperar para ter um produto de maior qualidade do que gastar em saídas à Lagoa para ganhar pouco.
“A gente está se aprontando para pescar, estamos com uma expectativa boa, só que eu não vou pegar camarão que eu não consigo vender aqui. A gente gosta de um camarão de qualidade, mais graúdo, que é aquele que agrada ao consumidor”, justificou Cláudia.
O aumento dos insumos e custos de produção, como o combustível, peças e serviços mecânicos e alimentação, pressionam os pescadores e exigem cautela no planejamento das saídas. O diesel, por exemplo, é entregue na comunidade a R$ 7,30 o litro, 12,5% mais caro do que o valor praticado nos postos da cidade, onde o preço médio é de R$ 6,48.
“Para uma saída de cinco dias, o custo gira em torno de R$ 4 mil. Só de óleo vamos gastar R$ 2,1 mil, ainda tem o gás, o rancho e a despesa com o pessoal. Então, cada saída para a Lagoa tem que ser bem pensada para não ficar no prejuízo”, explicou Nerdson Teixeira Carvalhal.
A preocupação com o equilíbrio das contas faz a família Carvalhal apostar na tainha e não no camarão neste início de safra. Informações de cardumes avistados no litoral de São Lourenço do Sul e capturas de até cinco mil quilos animam e servem de incentivo para ir em busca do peixe. “Não adianta sair para pegar camarão miúdo. Então, vamos para a tainha, que também tem bastante saída e, neste início de safra, compensa mais”, confirmou Maria Beatriz Carvalhal.
Preços abaixo do desejado
Além da quantidade e da qualidade do camarão e da tainha, o que preocupa os pescadores são os preços praticados. Atualmente, as peixarias pagam R$ 4 pelo quilo da tainha e R$ 8 pelo quilo do camarão.
“Para trabalhar o dia todo com esses motores que temos, gastamos 100 litros de óleo, o que dá R$ 730. Se pegar 100 quilos de camarão e entregar pelo que estão pagando, só tiramos o custo do combustível, mais nada. Assim não vale a pena”, resumiu Rodrigo Machado Campos.
A falta de uma licença para comercializar o pescado direto aos consumidores, com exceção do período da Semana Santa, deixa os pescadores suscetíveis à política de preço praticada pelas peixarias e atravessadores. Os valores oferecidos atualmente e as condições da Lagoa deixam a categoria cética com relação aos resultados da safra. Há consenso de que a safra excepcional de 2022 não se repetirá e que os resultados serão regulares.

“Depois daquela enchente toda que passamos, estamos vendo a situação de hoje como uma bênção, porque o que a gente viu um tempo atrás, a gente achava que não teria possibilidade de pescar nada. Sim, porque depois de toda aquela água que veio, não se imaginava que a Lagoa ia salgar. A expectativa a gente tinha, mas não que fosse assim. Já está um camarãozinho bom, e a previsão é que parece que o camarão só sobe”, disse Campos.
Procura no comércio começa a aumentar
A abertura da safra começa a motivar os consumidores e a busca pelo camarão da Lagoa, apesar de ainda ser pequena, tem crescido nas peixarias da Z-3 e do Mercado Central.
“A procura está melhorando. Na verdade, se tem oferta do camarão o ano todo devido ao camarão de cativeiro, mas com a chegada do nosso camarão da Lagoa, baixou um pouco o preço e o interesse aumenta, mas o movimento ainda é tímido”, afirmou o comerciante Igor Fonseca.
Os preços cobrados atualmente ao consumidor e pagos aos pescadores, conforme avaliação de Fonseca, não são definitivos e podem passar por alterações à medida que a oferta e qualidade do produto aumentarem. “A gente aguarda por um camarão melhor e em mais quantidade. Por enquanto, está bem pouco e de tamanho médio, ainda não apareceu aquele grande. Então, a expectativa é que melhore nas próximas semanas. Quanto mais camarão tiver, consequentemente o valor vai baixar um pouco, e sendo um camarão melhor, sempre tem um valor mais alto para o pescador”, explicou.
Com relação aos preços do camarão em cativeiro, vendido por, aproximadamente, R$ 100 o quilo, o valor cobrado pelo crustáceo da Lagoa é 50% menor.

Camarão aparece em pouca quantidade e pequeno em Rio Grande
A safra do camarão em Rio Grande e São José do Norte foi aberta no dia 1º de fevereiro. Contudo, passadas duas semanas, o panorama é de inconstância.
“A safra está instável. Em algumas localidades tem um pouco de camarão, em outras não tem nada e temos encontrado só um camarão miúdo, não tem aquele camarão grande que o consumidor tanto gosta”, disse o presidente da Colônia de Pescadores Z-1, Nilton Machado.
Conforme Machado, em áreas de pesca tradicionais como a costa da Ilha da Torotama e no lado oeste da Ilha dos Marinheiros, ainda não foi encontrado camarão neste ano. O maior volume de captura tem acontecido na Vila São Miguel, no Retiro, na Marambaia e no Saco da Lagoa Mangueira.
Os preços são similares aos praticados em Pelotas, com valor médio de R$ 8 o quilo pago aos pescadores, enquanto o quilo do camarão limpo tem sido vendido nas peixarias a partir de R$ 50.
Em São Lourenço do Sul não há camarão
Apesar de aberta desde o dia 1º de fevereiro, a safra ainda não começou em São Lourenço do Sul. O motivo é simples: o camarão encontrado está com menos de nove centímetros – tamanho mínimo permitido para a captura.
O presidente da Colônia de Pescadores Z-8, Ivan Kuhn, afirma que, além de pequeno, o crustáceo está escasso na costa do município. “O camarão que aparece no comércio vem de pescadores de outras cidades porque aqui está muito miúdo. A expectativa é que se tenha safra por aqui no final de fevereiro ou início de março apenas”, disse.
Sem camarão, os pescadores lourencianos têm trabalhado basicamente na pesca da tainha, cujos cardumes vêm aparecendo em boa quantidade e qualidade. “A tainha está graúda e bastante. O pessoal está conseguindo pegar bem”, afirmou.
O preço de R$ 4 pago ao pescador pelo quilo da tainha é o mesmo praticado no restante da região. No entanto, conforme Kuhn, o peixe não encontra mercado em São Lourenço do Sul, onde os consumidores preferem outras espécies, assim a produção tem sido comercializada em Pelotas e outras cidades da região.





